A Estrella de Absyntho - Bloco 28
Foi lavar os dedos empastados de greda.
Lino de Albuquerque seguiu-o, abrindo um
lenco alvo.
Ele queria soffrer, soffrer mais ainda.
Que eram a reprovacao social e o escandalo,
se ele se sentia desafogado de pesos enormes?
A principio, quando vieram dizer-lhe que
um advogado promettia envolvel-o numa campanha imunda, ele sentira um involuntario
temor, lma emocao dolorosa de quem ja tendo soffrido muito, ainda se ve apontado e destinado a martvrios novos.
Era Milagre, a perdida de Areias, o pivot
do retardado escandalo. E ele, nuin tragico
receio, temia ver por detrag da mulher a figura de Mauro Glade. Mauro podia mesmo afcusalo do seu crime.
Mas Carlos Byron havia enfrentado imediatamente ohomenzinho,parado,de
oculos para cima, na eterna pesquiya de miserias e chantages. O. leguleio desfizera-se em
desculpas. E o amigo viera trazer-lhe a noticia, transbordante de alegria.
Jorge d'Alvellos deixara-se tomar inconscientemente por aquela effusao. Nao envelhecera apesar-de tudo. Nem sequer se sentia
adulto. De dentro, um imutavel fundo de
adolescrncia, gritava-lhe que era preciso soffrer, viver, morrer, seguir a lei ferrea do
mundo.
vel e supremo existia. E numa reorganisacao
de blaguie herbica, deante do espelho. pensava
que fora agatanhado no torso, sobre c coracao,
pelos proprios dedos de Deus.
O ainigo tinha-o deixado. E ele ficara
numa alegria que procura motivos, num amor
de tudo, sereno, experimentado. Sorria suavemente.
Andou a-toa pelo quarto. Ia partir para
Nova Olympia. Esse nome cantava-lhe aos ouvidos como uma promessa.
Ia ensaiar de novo o gume dos duros
antepassados no cerne das florestas brasilicas,
la, onde eles haviam aberto a primeira passagem ao homem da Europa e, nas noites sertanejas, cerrado os olhos cheios e a alma leve
a bencao calada do Cruzeiro.
Era a fuga para outra calma de ceu. Ele
renovara a funesta experiencia cidadina dos
ancestraes e resumia-se naquelle cyclo catastrophico a promeytida messe de vidtorias nas
lugtas babylonicas!
Mas transportava-se a tempo ainda para
a alegria integral dos descampados puros e
das cidades paradas no surto virgem das eras
innocerites.
Fora infeliz... certamente, porque nao se
mantivera fiel aos compromissos raciaes.
E via-se a janella, num extase, transportado para a imensa paz verde dos cafesaes
orvaihados da chuva, na tarde de nuvens cyclopicas.
Chegou-se a chiffonniere abaulada. Tirou
da gaveta,um grande grupo
fotografico.
Era a familia que o esperava, que o chamava.
Quedou-se aí. Qual seria daquelles olhares firnes e grandes de zagala, daquelles sorrisos em folha, o da consolatrice qui ne savait
pas...
Q porteiro viera chamal-6 as cinco horas.
Ele tinha as malas promptas, a passagem
comprada. Na tarde de apotheosc, dera os
pequcnos estudos, os torsos e as mascaras aos
amigos que tinham sahido carregando-os nos
bracos.
Guardara apenas o "Retrato de Antepassado", talhado em planos de ferro e o ultimo
sorriso dle Mary.
As pernas harmoniosas de Alma, mandara-as passar para o marmore e,sobre tres degraus brancos, marcariam para sempre o holocausto na encosta terrosa e esquecida do
Araca.
Eile fizera agcordar-se cedo a-toa. O trem
partiria as nove horas.
Foi ao espelho. AF luz farta da lampada,
de que tirara o antigo abat-jour, abriu a camisa, examinou as devastacoes do tiro.
Sentia-se cangado. Resignava-se. Atceitaria doravante as diminuicoes que viessem. Era
isso mesmo a vida humana — uma serie de
quedas ppysicas e de provacoes moraes, em
torno de uma grave e intima ascensao.
A porta do quarto estalou, abriu-se para
o corredor escuro e quieto.
Uma corrente subtil poy rumores nas janellas, levantou papeis na mesa.
Um sino isolado deu lambadas de bronze
na noite. La fora, um automovel businou, passando.
O sino persistia: Misericordia Domini in
aeterno cantabo. Eram as matinas dos monges,
ja de pé, no negror dos habitos redtos como
consciencias, resando em Sao Bento.
Jorge d'Alvellos parado, olhava a grande
mala aberta junto a parede, a mala de cabina
que o acompanhara nas antigas viagens, pelos
hoteis obscuros de Paris, depois em Roma.
Estava riscada de sulcos, grudada de velhas etiquetas. Junto ao fecho de metal, tinha
uma niancha redonda e queimada. Ele costumava fazer o cafe brasileiro sobre ela, no
atelier ie Via Flamminia.
E como houvesse amanhecido, saiu para
despedir-se de Sao Paulo.
A cidade adcordara como que lavada,
cheia de rumores e de bulicio. Midinettes passavam, trabalhadores, gente do comercio. E
silhuclas claras, evocadoras de Aima, iam,
preocupadas na manha de aventura.
Ele penetrou na egreja de Sanio Antonio,
onde se celebrava uma missa baixa. Na penumhra, olhos perscrutadores seguiram-no.
Jorge d'Alvellos sentou-se entre uma mocinha de luto e um mendigo. E viu o padre alto, de cabeca branca, permanecer numa demorada reverencia ante o tabernaculo adceso,
vinte vezes secular.
A sua voz chegava, clara, precisa; ate os
fieis.
-- 'Tn illo tempore' . . lembrava o passado
na Galiiea.
"Per omnia secula seculorunr?.. affirmava o futuro e a eternidade.
Nao lhe parecia possivel que aqueles homens sc reunissem alli, no apparatc symbolico
das alvas e das casulas, vinte seculos depois
do Calvario, sem significacao nenhuma, como
os passaros que voam, os gallos que cantam,
os aniniaes que pastam.
Depois do meditado silencio da elevacao,
o sacerdote de pés unidos, cotoveios juntos,
circumscripto a patena, ia comungar.
A patena era a pedra com que o piedoso
Jose Ge Arimathea sellara o sepulchro de Deus,
sacrificado para tirar os pedcados do mundo.
—-"Domine! Non sum dignus ut intres sub
tectum meum, sed tantum dic verbum et sanabitur anima mea!
A campainha resbou.
Jorge d'Alvellos, de joelhos, regava.
-- Senhor! Dize uma palavra e minha
alma sera salva!
O padre repetiu em voz alta:
-"Domine! Non sum dignus:
A campainha resoou de novo nc templo.
Um velho espectorou no silencio.
-FIM
DEO