A Estrella de Absyntho - Bloco 28 A Trilogia do Exílio · Capítulo 55 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 28

Foi lavar os dedos empastados de greda.

Lino de Albuquerque seguiu-o, abrindo um

lenco alvo.

Ele queria soffrer, soffrer mais ainda.

Que eram a reprovacao social e o escandalo,

se ele se sentia desafogado de pesos enormes?

A principio, quando vieram dizer-lhe que

um advogado promettia envolvel-o numa campanha imunda, ele sentira um involuntario

temor, lma emocao dolorosa de quem ja tendo soffrido muito, ainda se ve apontado e destinado a martvrios novos.

Era Milagre, a perdida de Areias, o pivot

do retardado escandalo. E ele, nuin tragico

receio, temia ver por detrag da mulher a figura de Mauro Glade. Mauro podia mesmo afcusalo do seu crime.

Mas Carlos Byron havia enfrentado imediatamente ohomenzinho,parado,de

oculos para cima, na eterna pesquiya de miserias e chantages. O. leguleio desfizera-se em

desculpas. E o amigo viera trazer-lhe a noticia, transbordante de alegria.

Jorge d'Alvellos deixara-se tomar inconscientemente por aquela effusao. Nao envelhecera apesar-de tudo. Nem sequer se sentia

adulto. De dentro, um imutavel fundo de

adolescrncia, gritava-lhe que era preciso soffrer, viver, morrer, seguir a lei ferrea do

mundo.

vel e supremo existia. E numa reorganisacao

de blaguie herbica, deante do espelho. pensava

que fora agatanhado no torso, sobre c coracao,

pelos proprios dedos de Deus.

O ainigo tinha-o deixado. E ele ficara

numa alegria que procura motivos, num amor

de tudo, sereno, experimentado. Sorria suavemente.

Andou a-toa pelo quarto. Ia partir para

Nova Olympia. Esse nome cantava-lhe aos ouvidos como uma promessa.

Ia ensaiar de novo o gume dos duros

antepassados no cerne das florestas brasilicas,

la, onde eles haviam aberto a primeira passagem ao homem da Europa e, nas noites sertanejas, cerrado os olhos cheios e a alma leve

a bencao calada do Cruzeiro.

Era a fuga para outra calma de ceu. Ele

renovara a funesta experiencia cidadina dos

ancestraes e resumia-se naquelle cyclo catastrophico a promeytida messe de vidtorias nas

lugtas babylonicas!

Mas transportava-se a tempo ainda para

a alegria integral dos descampados puros e

das cidades paradas no surto virgem das eras

innocerites.

Fora infeliz... certamente, porque nao se

mantivera fiel aos compromissos raciaes.

E via-se a janella, num extase, transportado para a imensa paz verde dos cafesaes

orvaihados da chuva, na tarde de nuvens cyclopicas.

Chegou-se a chiffonniere abaulada. Tirou

da gaveta,um grande grupo

fotografico.

Era a familia que o esperava, que o chamava.

Quedou-se aí. Qual seria daquelles olhares firnes e grandes de zagala, daquelles sorrisos em folha, o da consolatrice qui ne savait

pas...

Q porteiro viera chamal-6 as cinco horas.

Ele tinha as malas promptas, a passagem

comprada. Na tarde de apotheosc, dera os

pequcnos estudos, os torsos e as mascaras aos

amigos que tinham sahido carregando-os nos

bracos.

Guardara apenas o "Retrato de Antepassado", talhado em planos de ferro e o ultimo

sorriso dle Mary.

As pernas harmoniosas de Alma, mandara-as passar para o marmore e,sobre tres degraus brancos, marcariam para sempre o holocausto na encosta terrosa e esquecida do

Araca.

Eile fizera agcordar-se cedo a-toa. O trem

partiria as nove horas.

Foi ao espelho. AF luz farta da lampada,

de que tirara o antigo abat-jour, abriu a camisa, examinou as devastacoes do tiro.

Sentia-se cangado. Resignava-se. Atceitaria doravante as diminuicoes que viessem. Era

isso mesmo a vida humana — uma serie de

quedas ppysicas e de provacoes moraes, em

torno de uma grave e intima ascensao.

A porta do quarto estalou, abriu-se para

o corredor escuro e quieto.

Uma corrente subtil poy rumores nas janellas, levantou papeis na mesa.

Um sino isolado deu lambadas de bronze

na noite. La fora, um automovel businou, passando.

O sino persistia: Misericordia Domini in

aeterno cantabo. Eram as matinas dos monges,

ja de pé, no negror dos habitos redtos como

consciencias, resando em Sao Bento.

Jorge d'Alvellos parado, olhava a grande

mala aberta junto a parede, a mala de cabina

que o acompanhara nas antigas viagens, pelos

hoteis obscuros de Paris, depois em Roma.

Estava riscada de sulcos, grudada de velhas etiquetas. Junto ao fecho de metal, tinha

uma niancha redonda e queimada. Ele costumava fazer o cafe brasileiro sobre ela, no

atelier ie Via Flamminia.

E como houvesse amanhecido, saiu para

despedir-se de Sao Paulo.

A cidade adcordara como que lavada,

cheia de rumores e de bulicio. Midinettes passavam, trabalhadores, gente do comercio. E

silhuclas claras, evocadoras de Aima, iam,

preocupadas na manha de aventura.

Ele penetrou na egreja de Sanio Antonio,

onde se celebrava uma missa baixa. Na penumhra, olhos perscrutadores seguiram-no.

Jorge d'Alvellos sentou-se entre uma mocinha de luto e um mendigo. E viu o padre alto, de cabeca branca, permanecer numa demorada reverencia ante o tabernaculo adceso,

vinte vezes secular.

A sua voz chegava, clara, precisa; ate os

fieis.

-- 'Tn illo tempore' . . lembrava o passado

na Galiiea.

"Per omnia secula seculorunr?.. affirmava o futuro e a eternidade.

Nao lhe parecia possivel que aqueles homens sc reunissem alli, no apparatc symbolico

das alvas e das casulas, vinte seculos depois

do Calvario, sem significacao nenhuma, como

os passaros que voam, os gallos que cantam,

os aniniaes que pastam.

Depois do meditado silencio da elevacao,

o sacerdote de pés unidos, cotoveios juntos,

circumscripto a patena, ia comungar.

A patena era a pedra com que o piedoso

Jose Ge Arimathea sellara o sepulchro de Deus,

sacrificado para tirar os pedcados do mundo.

—-"Domine! Non sum dignus ut intres sub

tectum meum, sed tantum dic verbum et sanabitur anima mea!

A campainha resbou.

Jorge d'Alvellos, de joelhos, regava.

-- Senhor! Dize uma palavra e minha

alma sera salva!

O padre repetiu em voz alta:

-"Domine! Non sum dignus:

A campainha resoou de novo nc templo.

Um velho espectorou no silencio.

-FIM

DEO

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