A Estrella de Absyntho - Bloco 05
Pela estrada. o Barrinhos queria convencer
o Torresvedras de que o devia por em opera.
Quando chegamos ao Largo do Rosario, as
cinco horas, o Meira exigiu uma
pharmacia,
shao morria. O Barrinhos, muito myope, viu
uma porta accesa e levou-o para la -era
um acougue!
Riram todos. Apenas Alma conservavase silenciosa e recurva. A descida fazia-se com
subitas derrapagens. Brecado, o carro guinchava perigosamente no declive. Subia do escuro um cheiro forte de borracha queimada
contra o cascalho e a direita, abriam-se vales
onde boiavam estiradas copas de arvores. A
uma volta panoramica, as luzes de Santos
desenharam-se ao luar, perdidas num mappa
de enseadas e montanhas. O auto marchava
com velocidade cautelosa, contornando-os de
repente sobre despenhadeiros sem fundo. Calavam-se agora os viajantes e da Serra vinham vozes de agua e de folhas. A lua pare-
cia muito proxima, acima da barranqueira.
Subito, Jorge percebeu que a mao de Alma, tocava ligeiramente a mao de Bruno,
sempre voltado para eles; e teve um recuo
para o seu canto. Alma achegou-se tambem.
Bruno pog-se de novo a falar, repetindo os
perigos que passara alli.
Jorge sentia um mal-estar profundo e um
odio torvo invadirem-lhe o peito. Alma apertou-se mais contra o seu hombro. Num incontido gesto, ele enterrou-lhe as unhas na
carne do braco. Ela nao teve um gemido, um
movimento de defesa.
O auto continuava a fazer ladeiras em
curva, por entre enormes arvores pasmadas.
Saiu, em baixo, no caminho′estreito do
Cubatao. Veloz agora, deslisava pela madrugada na diregcao de Santos.
Que tens? sussurrou Alma a Jorge.
Nada.
Haviam attingido a estrada lisa, de pedra soccada, beirando a cerca da ferrovia.
Jorge d'Alvellos sentia mais uma vez que
nao podia abandonal-a. Atirado de novo ao
chao, no conjunto amado, debrucava a cabe-
49—
ca sobre o collo preferido, que uma saia de
gabardine branca, com largos botoes, fechava.
De fora, no meio-dia azul, vinham baques
repetidos de roupa, num tanque.
Sentada ao leito, ela foi mansamente
descobrindo os agasalhos intimos e offereceulhe as coxas, entre rendas, para a caricia
habitual.
alli
A luz filtrada, eles descansaram
numa reconciliacao insistida e feliz.
Alma entrara com a carta amarrotada
na mao, pela vingadora manha, no atelier do
Palacio. E disse:
Sabes quem me perseguiu ate aqui?
Quem?
Mauro.
Num irreflegtido susto,nao querendo por
nada perdel-a, o esculptor pensou num segundo em fugirem ambos para outros tumultos de cidades, onde ele os ignorasse. Ia propor... Mas ela ria, grande, fulva. Tinha
mentido. Jorge devorou a carta. Era delle,
despedindo-se, datada de bordo de um paquete americano.
-50—
Tomara nas maos o seu antigo vigor.
Ao tocar o Brasil, compuzera, num estouvamento, o grupo das “Amazonas e o Caval
lo" que passara logo em gesso.
No impeto da luta com a resistencia de
Alma, viera a “Fonte da Vida".
Fora sempre um fragmentario. Em torsos
quebrados, metades, estudos largados, concentrava numa predileecao alegre e constante, a forca reveladora de sua arte. Era
creador de mutilacoes.
O vasto atelier compunha-se assim: para
la em branco, ‘as Amazonas com o animal;
no cavallete central, a estatua de Alma, e esbocos e trechos e torsos e bronzes vindos da
Europa e ppotograpnias das exposicoes e amphoras altas.
Alma aquietava-se em silencios felizes,
no divan de flores monstruosas, maos perdidas entre os joelhos. Ele vinha beijar-lhe os
olhos. Ela recusava-se a accordar daquella
perplexidade de extase contente, na luz das
manhas.
—51—
a sem ser visto pelas
E ele seguiu-a
ruas centraes de Sao Paulo. Havia chovido.
Passara por ela num momento de acaso e
nao fora percebido.Decidiu entao seguil-a a
distancia, numa delicia de admiracao ingenua. Onde iria? Ao Palacio das Industrias decerto.
Alma trajava um vestido suave, onde da
gola redonda, das mangas seccas, emergia a
carne viva. Marchava sem pressa e seu chapeu vermelho e copado fluctuava acima das
cabecas, no movimento da tarde, na Rua 15
de Novembro.
Cortou direito o Largo do Thesouro, atravancado de bondes e vendedores de jornaes.
Jorge teve uma ligeira surprega. Porque nao
descera na diredcao do Palacio? Talvez fosse
para casa, sem lhe fazer a visita habitual.
Ela estava agora perto do Largo da Se. Nao
dobrou a Rua Direita, enveredou para os lados do Carmo. Ele sorriu satisfeito; ela iria
ao Palacio das Industrias e, numa phantasia
de creanca, escolhera o caminho mais longo.
-Chapeuzinho vermelho! murmurava
seguindo-a.
Ela ia descer pela ladeira ingreme do
Carmo, até a varzea ajardinada. Tomou a
Travessa da Se.
Mas clla nao desceu a ladeira curta do
Carmo; tomou para a frente, dirigindo-se no
mesmo passo tranquilo e lento ate a Rua da
Boa Morte. Jorge deixou entre ambos maior
distancia. Havia poucos transeuntes. Ela passara a egreja e o collegio. Ele acompanhava-a surpreso, temendo ser visto.
x Subito, Alma parou em frente a uma casa baixa. Um moco sahia. Ela interpelou-o.
Ele voltou, fez a chave correr na fechadura.
Ela desappareceu. Ele fechou de novo a porta e veiu na direccao do esculptor. Ia passar
por ele. Jorge interrogou-o.
Pode dizer-me se mora naquella casa
o Sr. Mauro Glade?
Nao conheco.
Nao é a casa delle?
Nao. E' uma garconniere de rapazes...
Fora andando. Jorge estacara. Numa obsessao euphonica, voltava-lhe cem vezes a
phrase que vinha dizendo: — o lobo te espera! o lobo te espera!
Num impeto, alcancou a porta, bateu;
Alma assomou a janella ainda de chapeu.
Depois, veiu, calmamente, abrir.
Que vens fazer aqui?
- E' a casa de uma amiga. Queres entrar?
Jorge penetrou. Um corredor extenso. levava ate o fundo indeciso.
Nao vale a pena, fez ela.
E saíram, batendo a porta.
Voltaram em silencio, um silencio que
se seguira a
estupefaccao rapida de ambos.
Comecou de repente a chover. Oecultaram-se meia-hora, calados, a uma porta de
sobrado. Depois, puzeram-se a andar na mesma vaga diredcao.
Dois dias vieram e foram, inflexiveis e
inuteis. Jorge engalia distancias, descia alamedas, contornava pracas animadas de algazarras infantis, perdia-se em bairros longinquos.
seu raciocinio emperrara numa contremenda: Alma trahia-o, entrara
clusao
garconniere, ele vira-a entrar, retiranuma
ra-a la de dentro. Nao havia sophisma que a
pudesse defender. Alma trahia-o.
elegtrico
Subitamente, tomou um
que
passava para o centro. Desceu no Largo da
Sé, esperou passeando para ca e para la. Com
um rumor surdo, chegou um bonde do Ypiranga, cheio de gente. Subiu, sentou-se. Ia
vela pela ultima vez. Queria apenas que ela
confessasse. Nao ohtivera nada do seu obsti-
-54—
nado silencio na volta daquella tarde. O bonde passou o Largo Joao Mendes e desceu pela
Rua da Gloria.
Jorge apeou um quarteirao antes, tomou
a rua Scuvero e entrou rapidamente em casa.
Alma estava sentada ao leito, mal vestida,na penumbra morrente. Continuou pregando a uma calca um largo monogramma
azul.
Jorge comecou:
Alma, nao quero mais do que uma
palavra tua, uma palavra de confissao. Perdoarei se a disseres. Nao ha nada de peor na
vida do que a incerteza. Fala, conta! Tens
um amante?
Tenho.
Quem e?
Alma erguera a cabeca, largando o trabalho. Ele sentou-se a uma cadeira.
Conta!
Um velho conhecido, disse ela.
Um velho amante?
Ela calava-se.
Esse telegraphista de quem me falaste
no Jardim da Luz, nos primeiros dias...
Duas lagrimas involuntarias
despenca-ram dos cilios baixados de novo.
Ela fez um gesto que nao.