A Estrella de Absyntho - Bloco 05 A Trilogia do Exílio · Capítulo 32 de 87
Obra Menu

A Estrella de Absyntho - Bloco 05

Pela estrada. o Barrinhos queria convencer

o Torresvedras de que o devia por em opera.

Quando chegamos ao Largo do Rosario, as

cinco horas, o Meira exigiu uma

pharmacia,

shao morria. O Barrinhos, muito myope, viu

uma porta accesa e levou-o para la -era

um acougue!

Riram todos. Apenas Alma conservavase silenciosa e recurva. A descida fazia-se com

subitas derrapagens. Brecado, o carro guinchava perigosamente no declive. Subia do escuro um cheiro forte de borracha queimada

contra o cascalho e a direita, abriam-se vales

onde boiavam estiradas copas de arvores. A

uma volta panoramica, as luzes de Santos

desenharam-se ao luar, perdidas num mappa

de enseadas e montanhas. O auto marchava

com velocidade cautelosa, contornando-os de

repente sobre despenhadeiros sem fundo. Calavam-se agora os viajantes e da Serra vinham vozes de agua e de folhas. A lua pare-

cia muito proxima, acima da barranqueira.

Subito, Jorge percebeu que a mao de Alma, tocava ligeiramente a mao de Bruno,

sempre voltado para eles; e teve um recuo

para o seu canto. Alma achegou-se tambem.

Bruno pog-se de novo a falar, repetindo os

perigos que passara alli.

Jorge sentia um mal-estar profundo e um

odio torvo invadirem-lhe o peito. Alma apertou-se mais contra o seu hombro. Num incontido gesto, ele enterrou-lhe as unhas na

carne do braco. Ela nao teve um gemido, um

movimento de defesa.

O auto continuava a fazer ladeiras em

curva, por entre enormes arvores pasmadas.

Saiu, em baixo, no caminho′estreito do

Cubatao. Veloz agora, deslisava pela madrugada na diregcao de Santos.

Que tens? sussurrou Alma a Jorge.

Nada.

Haviam attingido a estrada lisa, de pedra soccada, beirando a cerca da ferrovia.

Jorge d'Alvellos sentia mais uma vez que

nao podia abandonal-a. Atirado de novo ao

chao, no conjunto amado, debrucava a cabe-

49—

ca sobre o collo preferido, que uma saia de

gabardine branca, com largos botoes, fechava.

De fora, no meio-dia azul, vinham baques

repetidos de roupa, num tanque.

Sentada ao leito, ela foi mansamente

descobrindo os agasalhos intimos e offereceulhe as coxas, entre rendas, para a caricia

habitual.

alli

A luz filtrada, eles descansaram

numa reconciliacao insistida e feliz.

Alma entrara com a carta amarrotada

na mao, pela vingadora manha, no atelier do

Palacio. E disse:

Sabes quem me perseguiu ate aqui?

Quem?

Mauro.

Num irreflegtido susto,nao querendo por

nada perdel-a, o esculptor pensou num segundo em fugirem ambos para outros tumultos de cidades, onde ele os ignorasse. Ia propor... Mas ela ria, grande, fulva. Tinha

mentido. Jorge devorou a carta. Era delle,

despedindo-se, datada de bordo de um paquete americano.

-50—

Tomara nas maos o seu antigo vigor.

Ao tocar o Brasil, compuzera, num estouvamento, o grupo das “Amazonas e o Caval

lo" que passara logo em gesso.

No impeto da luta com a resistencia de

Alma, viera a “Fonte da Vida".

Fora sempre um fragmentario. Em torsos

quebrados, metades, estudos largados, concentrava numa predileecao alegre e constante, a forca reveladora de sua arte. Era

creador de mutilacoes.

O vasto atelier compunha-se assim: para

la em branco, ‘as Amazonas com o animal;

no cavallete central, a estatua de Alma, e esbocos e trechos e torsos e bronzes vindos da

Europa e ppotograpnias das exposicoes e amphoras altas.

Alma aquietava-se em silencios felizes,

no divan de flores monstruosas, maos perdidas entre os joelhos. Ele vinha beijar-lhe os

olhos. Ela recusava-se a accordar daquella

perplexidade de extase contente, na luz das

manhas.

—51—

a sem ser visto pelas

E ele seguiu-a

ruas centraes de Sao Paulo. Havia chovido.

Passara por ela num momento de acaso e

nao fora percebido.Decidiu entao seguil-a a

distancia, numa delicia de admiracao ingenua. Onde iria? Ao Palacio das Industrias decerto.

Alma trajava um vestido suave, onde da

gola redonda, das mangas seccas, emergia a

carne viva. Marchava sem pressa e seu chapeu vermelho e copado fluctuava acima das

cabecas, no movimento da tarde, na Rua 15

de Novembro.

Cortou direito o Largo do Thesouro, atravancado de bondes e vendedores de jornaes.

Jorge teve uma ligeira surprega. Porque nao

descera na diredcao do Palacio? Talvez fosse

para casa, sem lhe fazer a visita habitual.

Ela estava agora perto do Largo da Se. Nao

dobrou a Rua Direita, enveredou para os lados do Carmo. Ele sorriu satisfeito; ela iria

ao Palacio das Industrias e, numa phantasia

de creanca, escolhera o caminho mais longo.

-Chapeuzinho vermelho! murmurava

seguindo-a.

Ela ia descer pela ladeira ingreme do

Carmo, até a varzea ajardinada. Tomou a

Travessa da Se.

Mas clla nao desceu a ladeira curta do

Carmo; tomou para a frente, dirigindo-se no

mesmo passo tranquilo e lento ate a Rua da

Boa Morte. Jorge deixou entre ambos maior

distancia. Havia poucos transeuntes. Ela passara a egreja e o collegio. Ele acompanhava-a surpreso, temendo ser visto.

x Subito, Alma parou em frente a uma casa baixa. Um moco sahia. Ela interpelou-o.

Ele voltou, fez a chave correr na fechadura.

Ela desappareceu. Ele fechou de novo a porta e veiu na direccao do esculptor. Ia passar

por ele. Jorge interrogou-o.

Pode dizer-me se mora naquella casa

o Sr. Mauro Glade?

Nao conheco.

Nao é a casa delle?

Nao. E' uma garconniere de rapazes...

Fora andando. Jorge estacara. Numa obsessao euphonica, voltava-lhe cem vezes a

phrase que vinha dizendo: — o lobo te espera! o lobo te espera!

Num impeto, alcancou a porta, bateu;

Alma assomou a janella ainda de chapeu.

Depois, veiu, calmamente, abrir.

Que vens fazer aqui?

- E' a casa de uma amiga. Queres entrar?

Jorge penetrou. Um corredor extenso. levava ate o fundo indeciso.

Nao vale a pena, fez ela.

E saíram, batendo a porta.

Voltaram em silencio, um silencio que

se seguira a

estupefaccao rapida de ambos.

Comecou de repente a chover. Oecultaram-se meia-hora, calados, a uma porta de

sobrado. Depois, puzeram-se a andar na mesma vaga diredcao.

Dois dias vieram e foram, inflexiveis e

inuteis. Jorge engalia distancias, descia alamedas, contornava pracas animadas de algazarras infantis, perdia-se em bairros longinquos.

seu raciocinio emperrara numa contremenda: Alma trahia-o, entrara

clusao

garconniere, ele vira-a entrar, retiranuma

ra-a la de dentro. Nao havia sophisma que a

pudesse defender. Alma trahia-o.

elegtrico

Subitamente, tomou um

que

passava para o centro. Desceu no Largo da

Sé, esperou passeando para ca e para la. Com

um rumor surdo, chegou um bonde do Ypiranga, cheio de gente. Subiu, sentou-se. Ia

vela pela ultima vez. Queria apenas que ela

confessasse. Nao ohtivera nada do seu obsti-

-54—

nado silencio na volta daquella tarde. O bonde passou o Largo Joao Mendes e desceu pela

Rua da Gloria.

Jorge apeou um quarteirao antes, tomou

a rua Scuvero e entrou rapidamente em casa.

Alma estava sentada ao leito, mal vestida,na penumbra morrente. Continuou pregando a uma calca um largo monogramma

azul.

Jorge comecou:

Alma, nao quero mais do que uma

palavra tua, uma palavra de confissao. Perdoarei se a disseres. Nao ha nada de peor na

vida do que a incerteza. Fala, conta! Tens

um amante?

Tenho.

Quem e?

Alma erguera a cabeca, largando o trabalho. Ele sentou-se a uma cadeira.

Conta!

Um velho conhecido, disse ela.

Um velho amante?

Ela calava-se.

Esse telegraphista de quem me falaste

no Jardim da Luz, nos primeiros dias...

Duas lagrimas involuntarias

despenca-ram dos cilios baixados de novo.

Ela fez um gesto que nao.

1/1
Menu

Fazer anotação