A Estrella de Absyntho - Bloco 15 A Trilogia do Exílio · Capítulo 42 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 15

Descobrira quasP toda a figura e enervava-se em cima, num carinho, atacando de

frente o rosto, nuna angia de tiralo daquella suffocacao inerte. Forcava cautelosamenle

oO formao ate aftingir o trecho colorido em

rosa, aynunciando a presenca imediata dos

relevos.

E a estatua saiu do soterramento, moveu-se, livre, morta...

O artista descido contemplava-a. Quanto

a greda, o bronze e o marmore eram a vida

espedtaculosa das formas, o gesso era a morte empedrada. Alma estava ahli, branca, de

pé, cinerea, sepulchral, num passo curto, de

bracos infinitos. O rosto ria um riso de ouira

vida, perturbador, gelado.

Mas ouviram-se vozes. O esculptor foi a

porta. Subiam pela escada provisoria Carlos

Byron e um senhor petulante num fraque preto. Trazia oculos e fuinava. Carlos apresentou-o: era o critico.

Haviam-se calado dgante da esculptura.

Jorge perscrutava-os. No amigo elegante, beXlo, desenvolto, percebeu logo uma sympathia

radiosa pela obra; mas o jornalista emperrara num exame aftento, descorocoador. Disse

afinal com significativo despreso:

Isso é futurismo..

Jorge teve uma angustiada surpresa. Depois, tentou explicar. Era moderno, quigera

por a sua nota pessoai. Auxiliado pelos recrsos de cultura de Carlos Byron, defendia a

eslatua.

O critico conlinuava insensivel a suggestao emocional.Jorge entao abateu-se num

grave mutismo colerico.

A porta, Carlos Byron

Despediram-se.

disse que o viria buscar para um passeio a

Santos.

Estsya de novo so.

Ate a arte lhe negavam! Conseguira ate

agora vender somente aos amigos. Com isso

se mantivera. Uma tristeza cortante possuiu-o.

Sentou-se, olhando para Alma rediviva no

sudario de gesso.

Como todo artista, acalentava a confianca ingenua do seu valor. Consentira effusivo

naquella visita. O espirito do poeta precisa

de espectadores, mesmo que sejam bufalos,

dissera Frederico Nietsche.

Uma manha, em Roma, fazendo uma

grande estatua da Dor, no acabar festivo das

maos de greda, sentiu uma iimperiosa necessidade de apotheose para a obra terminada. A

casa toda dormia: era um domingo. Salfiu ate

a porta da rua. Um lixeiro varria as pedras.

Chamo!-o, fef-b subir, respeitoso, pensando

que era para retirar imundicies do interior.

E o artista perguntou ao homem que pensava

da estatua.

-A ne, mi pare bene, signorino. Cosa

rappresenta?

-Il Dolore.

- E' vero. Per questo ha le mane cosi..

Sembra dolorata, sembra dolorata..

O lixeiro entendera, o critico nao.

Oh!war ich nie geboren!murmurou

Jorge d'Alvellos.

Era a phrase de Fausto. Sim, aptes nao

tivessc nascido. VeiQ-lhe como que um'resentimento tardio de sua pouca fortuna. Outros

haviam sempre tido casas, repousos entre arvores, conforto, familia... Ele, que tinha sido até agora? Um va-nu-pied! As encommendas que tinha davam-lhe apenas para viver

Precisara emprestar dinheiro a Carlos Byron

para pagarrs despezas ogcasionadas pela morte de Alma. E negavam-lhe mesmo a arte!

Uma revolta fez estuar-lhe o sangue.

Levantou-se, atirou uma martellada mortal ao

elevado centro da estatua branca. Os bracos

cahirain como agas.

Tinha terminado a devastacao. Permanecera no socco, pondo para fora esbeicamentos de estopa cor de ossos na junecao alva dos

joelhos, a parte movimentada das pernas, as

pernas altas, de Alma.

O artista ficou offegante. Sentia o rosto

molhado, a bocca repuxada de lagrimas. E

ante a helleza que ficara naquellas linhas em

ruina, teve o impeto de cahir de joelhos e

supplicar a misericordia colleetivu para a

obra-prima mutilada.

Jorge fizera uma desabalada corrida com

sentinella a vista e resolvera parar, entregar-se.

Tinha a consciencia fatalizada dos condeinnados irremissiveis e monologava na sombra: Entretanto, tua vida poderia ser boa. Tu

a estragaste com uma pertinacia de doido,

ela, a filha unica! Ve como ficou tudo em

cinza... Escuta os baques de desaterro que

estrondam dentro da alma! Sao os ultimos

amparos do teu destino..

Recomecara a trabalhar, nun odio subito, contra a cidade que parecia negal-fo, insensivel, quando nao hostil pela estupidez dos

seus criticos. Planejara um iyhmenso relevo,

grande como as "Portas do Inferno" de Rodin, de que o Penseur era um simples detalhe.

Faria “O Limbo" —— um quadro gigantesco de

aspiracoes contrariadas, de desejos inviaveis,

de coleras mortas no nascedouro, abortos de

pensamento, de vida, de adcao, de poesia.

Desenhara, no chao do atelicr, o esboco

marcando os grupos, as attitudes, &s figuras.

Ia armar os primeiros elementos da maquefte, mas ergueu-se numa subita perturba-

cao. Foi lavar as maos grudadas de greda a

um dos baldes de agua do canto. E pensou,de

novo no deserto em que o deixara a terrivel

aventura. A ausencia da companheira agcentuava-se com o tempo, trazia-lhe tristezas de

horas inteiras, acabrunhamentos indiziveis,

mortaes.

E' impossivel! E'impossivel!

Eniretanto o atelier compufera-se de novo, com a imprevista chegada a Santos de dois

grupos monumentaes e um Retrato de Antepassado -- talhado sobre um medalhao em

plenos de ferro. Eram trabalhos de Roma, que

ele encarregara um amigo de mandar. A demora da vinda fizera-o esquecel-bs.

Naquella manha, Lino de Albuquerque

que entrara num tumulto, extasiava-se ao lado de Torresvedras. O primeiro grupo era

uma “Vinganca de Fauno", alta, construida

em attitudes claras, lembrando a terra prehomerica. O outro impressionava. O artista

chamara-o "Descida". Era uma suggestao de

scena santa - Christo desmantelando-se, de

cabeca pendida, enorme, o pescoco esticado,

a bocda aberta e horrenda, os olhos apenas de

uma serenidade amortecida.

grupo construia-se num grave rigor architeetonico, unindo Virgem e catfecumenos, carne na carne, ao

Deus norto que amparavam.

Maravilha! gritava Lino de Albuquerque -maravilha! Quando digo que Sao Paulo

é estupendo! Ora vejam se um pernambucano

podia fazer isto, entender isto!

Olhava rindo para Carlos Byron que tinha a familia originaria de Pernambuco.

Palrador, incontido na sua effusao de vinte anos.

E' um delinquente! E' mais que genio!

Bavae

E contou reminiscencias de viagens, fez

phrases, anegdotas.

Carlos Byron agora insistia na ida de Jorge a Santos, com o grupo, afim de festejarem

Torresvedras, que obtivera pensao do governo, para estudar musica em Paris.

Ele dara um formidavel concerto na

Ilha Verde, onde o Claro tem casa.

Jorge adcedeu com sympathia por Torresvedras. Este chegara-se a ele, interessado:

Voce esta triste, homem!

Esta vida anda durando muito... respondeu o esculpior, estirando os bracos nervosos.

Os outros protestaram.

Lino de Albuquerque exclamava:

A vida é boa. Eu estico a minha como

una bala puxa-puxa. Outro dia, a Lolote quig

assassinar-me com uma pua desconhecida no

faqueiro da familia. Fiz escandalo. Chamei o

gendarme. Foi presa, naquella ambulancia

de presos.

Jorge apromptou-se e deixou o Palacio

com os outros.

Hypocondriaco, quebrado de dores absurdas, o esculptor saiu a-toa pelas ruas. Nao

iria ao atelier aquela tarde. Sentia-se fraco,

indisposto. Lembrou-se de que o diredtor da

Revista do Brasil mandara-lhe pedir por Carlos Byron fotografias de trabalhos seus e

notas biographicas.

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