A Estrella de Absyntho - Bloco 15
Descobrira quasP toda a figura e enervava-se em cima, num carinho, atacando de
frente o rosto, nuna angia de tiralo daquella suffocacao inerte. Forcava cautelosamenle
oO formao ate aftingir o trecho colorido em
rosa, aynunciando a presenca imediata dos
relevos.
E a estatua saiu do soterramento, moveu-se, livre, morta...
O artista descido contemplava-a. Quanto
a greda, o bronze e o marmore eram a vida
espedtaculosa das formas, o gesso era a morte empedrada. Alma estava ahli, branca, de
pé, cinerea, sepulchral, num passo curto, de
bracos infinitos. O rosto ria um riso de ouira
vida, perturbador, gelado.
Mas ouviram-se vozes. O esculptor foi a
porta. Subiam pela escada provisoria Carlos
Byron e um senhor petulante num fraque preto. Trazia oculos e fuinava. Carlos apresentou-o: era o critico.
Haviam-se calado dgante da esculptura.
Jorge perscrutava-os. No amigo elegante, beXlo, desenvolto, percebeu logo uma sympathia
radiosa pela obra; mas o jornalista emperrara num exame aftento, descorocoador. Disse
afinal com significativo despreso:
Isso é futurismo..
Jorge teve uma angustiada surpresa. Depois, tentou explicar. Era moderno, quigera
por a sua nota pessoai. Auxiliado pelos recrsos de cultura de Carlos Byron, defendia a
eslatua.
O critico conlinuava insensivel a suggestao emocional.Jorge entao abateu-se num
grave mutismo colerico.
A porta, Carlos Byron
Despediram-se.
disse que o viria buscar para um passeio a
Santos.
Estsya de novo so.
Ate a arte lhe negavam! Conseguira ate
agora vender somente aos amigos. Com isso
se mantivera. Uma tristeza cortante possuiu-o.
Sentou-se, olhando para Alma rediviva no
sudario de gesso.
Como todo artista, acalentava a confianca ingenua do seu valor. Consentira effusivo
naquella visita. O espirito do poeta precisa
de espectadores, mesmo que sejam bufalos,
dissera Frederico Nietsche.
Uma manha, em Roma, fazendo uma
grande estatua da Dor, no acabar festivo das
maos de greda, sentiu uma iimperiosa necessidade de apotheose para a obra terminada. A
casa toda dormia: era um domingo. Salfiu ate
a porta da rua. Um lixeiro varria as pedras.
Chamo!-o, fef-b subir, respeitoso, pensando
que era para retirar imundicies do interior.
E o artista perguntou ao homem que pensava
da estatua.
-A ne, mi pare bene, signorino. Cosa
rappresenta?
-Il Dolore.
- E' vero. Per questo ha le mane cosi..
Sembra dolorata, sembra dolorata..
O lixeiro entendera, o critico nao.
Oh!war ich nie geboren!murmurou
Jorge d'Alvellos.
Era a phrase de Fausto. Sim, aptes nao
tivessc nascido. VeiQ-lhe como que um'resentimento tardio de sua pouca fortuna. Outros
haviam sempre tido casas, repousos entre arvores, conforto, familia... Ele, que tinha sido até agora? Um va-nu-pied! As encommendas que tinha davam-lhe apenas para viver
Precisara emprestar dinheiro a Carlos Byron
para pagarrs despezas ogcasionadas pela morte de Alma. E negavam-lhe mesmo a arte!
Uma revolta fez estuar-lhe o sangue.
Levantou-se, atirou uma martellada mortal ao
elevado centro da estatua branca. Os bracos
cahirain como agas.
Tinha terminado a devastacao. Permanecera no socco, pondo para fora esbeicamentos de estopa cor de ossos na junecao alva dos
joelhos, a parte movimentada das pernas, as
pernas altas, de Alma.
O artista ficou offegante. Sentia o rosto
molhado, a bocca repuxada de lagrimas. E
ante a helleza que ficara naquellas linhas em
ruina, teve o impeto de cahir de joelhos e
supplicar a misericordia colleetivu para a
obra-prima mutilada.
Jorge fizera uma desabalada corrida com
sentinella a vista e resolvera parar, entregar-se.
Tinha a consciencia fatalizada dos condeinnados irremissiveis e monologava na sombra: Entretanto, tua vida poderia ser boa. Tu
a estragaste com uma pertinacia de doido,
ela, a filha unica! Ve como ficou tudo em
cinza... Escuta os baques de desaterro que
estrondam dentro da alma! Sao os ultimos
amparos do teu destino..
Recomecara a trabalhar, nun odio subito, contra a cidade que parecia negal-fo, insensivel, quando nao hostil pela estupidez dos
seus criticos. Planejara um iyhmenso relevo,
grande como as "Portas do Inferno" de Rodin, de que o Penseur era um simples detalhe.
Faria “O Limbo" —— um quadro gigantesco de
aspiracoes contrariadas, de desejos inviaveis,
de coleras mortas no nascedouro, abortos de
pensamento, de vida, de adcao, de poesia.
Desenhara, no chao do atelicr, o esboco
marcando os grupos, as attitudes, &s figuras.
Ia armar os primeiros elementos da maquefte, mas ergueu-se numa subita perturba-
cao. Foi lavar as maos grudadas de greda a
um dos baldes de agua do canto. E pensou,de
novo no deserto em que o deixara a terrivel
aventura. A ausencia da companheira agcentuava-se com o tempo, trazia-lhe tristezas de
horas inteiras, acabrunhamentos indiziveis,
mortaes.
E' impossivel! E'impossivel!
Eniretanto o atelier compufera-se de novo, com a imprevista chegada a Santos de dois
grupos monumentaes e um Retrato de Antepassado -- talhado sobre um medalhao em
plenos de ferro. Eram trabalhos de Roma, que
ele encarregara um amigo de mandar. A demora da vinda fizera-o esquecel-bs.
Naquella manha, Lino de Albuquerque
que entrara num tumulto, extasiava-se ao lado de Torresvedras. O primeiro grupo era
uma “Vinganca de Fauno", alta, construida
em attitudes claras, lembrando a terra prehomerica. O outro impressionava. O artista
chamara-o "Descida". Era uma suggestao de
scena santa - Christo desmantelando-se, de
cabeca pendida, enorme, o pescoco esticado,
a bocda aberta e horrenda, os olhos apenas de
uma serenidade amortecida.
grupo construia-se num grave rigor architeetonico, unindo Virgem e catfecumenos, carne na carne, ao
Deus norto que amparavam.
Maravilha! gritava Lino de Albuquerque -maravilha! Quando digo que Sao Paulo
é estupendo! Ora vejam se um pernambucano
podia fazer isto, entender isto!
Olhava rindo para Carlos Byron que tinha a familia originaria de Pernambuco.
Palrador, incontido na sua effusao de vinte anos.
E' um delinquente! E' mais que genio!
Bavae
E contou reminiscencias de viagens, fez
phrases, anegdotas.
Carlos Byron agora insistia na ida de Jorge a Santos, com o grupo, afim de festejarem
Torresvedras, que obtivera pensao do governo, para estudar musica em Paris.
Ele dara um formidavel concerto na
Ilha Verde, onde o Claro tem casa.
Jorge adcedeu com sympathia por Torresvedras. Este chegara-se a ele, interessado:
Voce esta triste, homem!
Esta vida anda durando muito... respondeu o esculpior, estirando os bracos nervosos.
Os outros protestaram.
Lino de Albuquerque exclamava:
A vida é boa. Eu estico a minha como
una bala puxa-puxa. Outro dia, a Lolote quig
assassinar-me com uma pua desconhecida no
faqueiro da familia. Fiz escandalo. Chamei o
gendarme. Foi presa, naquella ambulancia
de presos.
Jorge apromptou-se e deixou o Palacio
com os outros.
Hypocondriaco, quebrado de dores absurdas, o esculptor saiu a-toa pelas ruas. Nao
iria ao atelier aquela tarde. Sentia-se fraco,
indisposto. Lembrou-se de que o diredtor da
Revista do Brasil mandara-lhe pedir por Carlos Byron fotografias de trabalhos seus e
notas biographicas.