Os Condemnados - Bloco 12
Deixavam Santos pela extensa chapa de vegetacao rasteira, que a circuimida. Passaram o pantano
tropical e a ponte de ferro sobre a agua cor de aco.
E o trem abalou em demanda da serra, qule se calafetava de neblina no fim da tarde de outoyno.
Joao tocava,no fundo de um bolso, o lencinho
rendado de Alma, em que, na vespera, elha puuera o
grande beijo mdo da despedida. E apertava-o na
mao segurando neye a dadiva inteira do ser estremecido.
Tinha regressado ao portao e sentira que uma
especie de compromisso ogculto, de trevoso noivado,
enxovalhamento
maximo.
desafiara e vencera
Agora, tudo predizia a allianca inhmortal dos dois
desgracados destinos.
Sim, ele podia crer, no amor definitivo
Alma. EMa tivera duas lagrinas silentes ao veH
voltar. E na vespera, naquel'e ermo da rua, ao contar
que ia a Santos, a sua angustia nervosa crescera de
ver os bellos olhos verdes e magdados dizerem a
tristeza indizivel das separacoes.
O trem parou em Piassaguéra. E, mais lento
manobrou para apanhar a engrenagem da rude escalada. Na noite que baixava, envolvendo a natureza,
olhos claros de locomotiva focavam trechos de chao,
sob os limpa-trilhos negros, de onde sahiam ate perder-se no escuro as fitas afiadas dos rails. E, de longe
em longe, sugcediam-se as luzes bacas dos signaes.
Um barulho rascante de rodas comecou, ao
mesmo tempo que o trem era levantado mollemente
na primeira ladeira da serra.
Alma contara-lhe apprebensiva que tinha notado
uma agcentuacao de mau hiimor no velho. Que iria
sugceder? Era impossivel
logo. Joao
casarem-se
afastava essa idqa para um futuro longinquo, como as
grandes redempcoes dos ultimos adtos. E o avo?
Havia de saber mesmo a verdade inteira. Mas a
possibilidade de precipitar-se a catastrophe de uuma
expulsao era visivel.
As ,rodas cantavam, levando o trem montanha
acima. As vezes, havia uma imprevista parada na
noite avassalante. E ficavam
os passageiros,
sentindo subitamente morta a gigantesca engrenagem. Mas um outro troco de vagoes illuminados
passava no sentido contrario. E recomecava a lenta
viagem.
Alma amava-o, sim. A noticia da separacao ligeira de um dia tivera como ilurstracao deliciosa a
reconciliacao truncada pelo sentimento do abandono.
Agora, quando chegasse, ainda passaria por la.
De novo o trem parou ao lado de uma usina
calida sob a linha. O folego robusto de um respiradouro soprou, fazendo montar na treva golfadas
brancas de fumaca. E, de novo, o comboio moveu-se.
Passaram a noite dupla dos tuyneis. E as primeiras luzes do Alto da Serra aynunciaram-se com a nuidanca favoravel de nivel. Passageiros levantavam-se,
falando em jantar. Ao lado de Joao, Dagoberto
olhava-o, dizendo :
Que silencio!
Um asco voltava no eyitanto, fundo.
avassalador, horrivel. Joao queria ainda repefit-a, desres-
ponsabilizar-se daquillo tudo, fugir. Mas ao vel-a
nas noites prolongadas do portao, chorosa e entregue, o seu triste coracao centuplicava-lhe os perdidos
gestos.
avo
mudara
lentamente, num
prenuncio
de crise tetrica.
Esperava a entrada das estacoes num incontido nervoso.
A Companhia de Desenvolvimento annuncioulhe, numa bella carta escripta a magKina, que nao reformaria a hypotyeca vencida. O caozinho peludo
quast perdera a vista.
Passou a fumar decuplicadamente, em silencio.
Se fosse possivel embriagar-se ou entao morrer,
acabar! Pensou uma noite em atirar-se da PonteGrande. A neta, havia de ir buscar o seu velho
cadaver, encalhado numa margen do Tiete... E os
jornaes falariam bem della.
Mauro, depois de uma escandalosa briga de
cabaree fora denunciado a policia.
E Joao do Carmo antiava pelo desenlace esperado do drama lancinante de seu sonho.
Uma noite, Alma evocoul-o nuuma suave lembranca. Entao, num despeito, Joao mentiu que élle
fora preso.
Ela teve um repentino espanto. Depois, deixou as grades e um choro rebentou-lhe pelo olhos,
pela bogca, pelo nariz. Buscou um lenco nervosamente na abertura clara dos seios. E ficou solucando baixo entre os canteiros.
Joao estacara numa surpresa desolada e nuda.
Conversaram ainda, quase hostis, numa ternura que
soava falso e vasio.
E o telegraphista foi visitar de novo os cem
caminhos doloridos da cidade.
O velho ficou a espera da neta no paletoe
remendado, até dez e meia d'aquela noite, sem se
deitar.
A rRILOGIA DO EXILIO
Presentia la fora o idyllio. Nao iria desmanchato, recordando um insulto, que levara no rosto,
do outro: o maldito, o casado, o aranha vermelha.
Aquela casa que ainda palpitava das recordacoes da esposa santificada pela morte, aquela casa
fora o teatro da sua revoltante deshonra. Alma era
indigna do seu obstinado amor. Antes a tivesse
abandonado a gula ricaca de Anthero d'Alvellos.
A porta da entrada rangeu. Alma penetrara num
vento subtil. Percebeu surpreKendida, que estavam
aycesas as luizes. Ouvira um arrastar pecipitado de
chinellas. Estagnara geladamente na passadeira do
corredor. O espectro clomestico appareceu. Chamou-a
sem voz. A cabeca tremia-lhe incontidamente. Apertava um cigarrro apagado na mao.
Alma tinha os olhos redondos, a bogca iymmovel. Uma inexprinivel tortura suffocava-a, no vestido humilde e antigo.
O velho descobrira de-certo tudo. E ia falar-lhe,
dizer-lhe o crime horrendo, o crime de ter um filhinho. Porque o seu passado torpe desayparecera: a
prostituicao, o aborto, a vida canalha entre bracos desconliecidos que pagavam. O crime era ser
solteira e deixar viver no seu
amago a scentelha humana, e defendefa, e amata.
Va para a rua! Procure caminho! Esta casa
é minha, sempre foi minha. Faca a slia mala e desappareca!