Os Condemnados - Bloco 12 A Trilogia do Exílio · Capítulo 12 de 87
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Os Condemnados - Bloco 12

Deixavam Santos pela extensa chapa de vegetacao rasteira, que a circuimida. Passaram o pantano

tropical e a ponte de ferro sobre a agua cor de aco.

E o trem abalou em demanda da serra, qule se calafetava de neblina no fim da tarde de outoyno.

Joao tocava,no fundo de um bolso, o lencinho

rendado de Alma, em que, na vespera, elha puuera o

grande beijo mdo da despedida. E apertava-o na

mao segurando neye a dadiva inteira do ser estremecido.

Tinha regressado ao portao e sentira que uma

especie de compromisso ogculto, de trevoso noivado,

enxovalhamento

maximo.

desafiara e vencera

Agora, tudo predizia a allianca inhmortal dos dois

desgracados destinos.

Sim, ele podia crer, no amor definitivo

Alma. EMa tivera duas lagrinas silentes ao veH

voltar. E na vespera, naquel'e ermo da rua, ao contar

que ia a Santos, a sua angustia nervosa crescera de

ver os bellos olhos verdes e magdados dizerem a

tristeza indizivel das separacoes.

O trem parou em Piassaguéra. E, mais lento

manobrou para apanhar a engrenagem da rude escalada. Na noite que baixava, envolvendo a natureza,

olhos claros de locomotiva focavam trechos de chao,

sob os limpa-trilhos negros, de onde sahiam ate perder-se no escuro as fitas afiadas dos rails. E, de longe

em longe, sugcediam-se as luzes bacas dos signaes.

Um barulho rascante de rodas comecou, ao

mesmo tempo que o trem era levantado mollemente

na primeira ladeira da serra.

Alma contara-lhe apprebensiva que tinha notado

uma agcentuacao de mau hiimor no velho. Que iria

sugceder? Era impossivel

logo. Joao

casarem-se

afastava essa idqa para um futuro longinquo, como as

grandes redempcoes dos ultimos adtos. E o avo?

Havia de saber mesmo a verdade inteira. Mas a

possibilidade de precipitar-se a catastrophe de uuma

expulsao era visivel.

As ,rodas cantavam, levando o trem montanha

acima. As vezes, havia uma imprevista parada na

noite avassalante. E ficavam

os passageiros,

sentindo subitamente morta a gigantesca engrenagem. Mas um outro troco de vagoes illuminados

passava no sentido contrario. E recomecava a lenta

viagem.

Alma amava-o, sim. A noticia da separacao ligeira de um dia tivera como ilurstracao deliciosa a

reconciliacao truncada pelo sentimento do abandono.

Agora, quando chegasse, ainda passaria por la.

De novo o trem parou ao lado de uma usina

calida sob a linha. O folego robusto de um respiradouro soprou, fazendo montar na treva golfadas

brancas de fumaca. E, de novo, o comboio moveu-se.

Passaram a noite dupla dos tuyneis. E as primeiras luzes do Alto da Serra aynunciaram-se com a nuidanca favoravel de nivel. Passageiros levantavam-se,

falando em jantar. Ao lado de Joao, Dagoberto

olhava-o, dizendo :

Que silencio!

Um asco voltava no eyitanto, fundo.

avassalador, horrivel. Joao queria ainda repefit-a, desres-

ponsabilizar-se daquillo tudo, fugir. Mas ao vel-a

nas noites prolongadas do portao, chorosa e entregue, o seu triste coracao centuplicava-lhe os perdidos

gestos.

avo

mudara

lentamente, num

prenuncio

de crise tetrica.

Esperava a entrada das estacoes num incontido nervoso.

A Companhia de Desenvolvimento annuncioulhe, numa bella carta escripta a magKina, que nao reformaria a hypotyeca vencida. O caozinho peludo

quast perdera a vista.

Passou a fumar decuplicadamente, em silencio.

Se fosse possivel embriagar-se ou entao morrer,

acabar! Pensou uma noite em atirar-se da PonteGrande. A neta, havia de ir buscar o seu velho

cadaver, encalhado numa margen do Tiete... E os

jornaes falariam bem della.

Mauro, depois de uma escandalosa briga de

cabaree fora denunciado a policia.

E Joao do Carmo antiava pelo desenlace esperado do drama lancinante de seu sonho.

Uma noite, Alma evocoul-o nuuma suave lembranca. Entao, num despeito, Joao mentiu que élle

fora preso.

Ela teve um repentino espanto. Depois, deixou as grades e um choro rebentou-lhe pelo olhos,

pela bogca, pelo nariz. Buscou um lenco nervosamente na abertura clara dos seios. E ficou solucando baixo entre os canteiros.

Joao estacara numa surpresa desolada e nuda.

Conversaram ainda, quase hostis, numa ternura que

soava falso e vasio.

E o telegraphista foi visitar de novo os cem

caminhos doloridos da cidade.

O velho ficou a espera da neta no paletoe

remendado, até dez e meia d'aquela noite, sem se

deitar.

A rRILOGIA DO EXILIO

Presentia la fora o idyllio. Nao iria desmanchato, recordando um insulto, que levara no rosto,

do outro: o maldito, o casado, o aranha vermelha.

Aquela casa que ainda palpitava das recordacoes da esposa santificada pela morte, aquela casa

fora o teatro da sua revoltante deshonra. Alma era

indigna do seu obstinado amor. Antes a tivesse

abandonado a gula ricaca de Anthero d'Alvellos.

A porta da entrada rangeu. Alma penetrara num

vento subtil. Percebeu surpreKendida, que estavam

aycesas as luizes. Ouvira um arrastar pecipitado de

chinellas. Estagnara geladamente na passadeira do

corredor. O espectro clomestico appareceu. Chamou-a

sem voz. A cabeca tremia-lhe incontidamente. Apertava um cigarrro apagado na mao.

Alma tinha os olhos redondos, a bogca iymmovel. Uma inexprinivel tortura suffocava-a, no vestido humilde e antigo.

O velho descobrira de-certo tudo. E ia falar-lhe,

dizer-lhe o crime horrendo, o crime de ter um filhinho. Porque o seu passado torpe desayparecera: a

prostituicao, o aborto, a vida canalha entre bracos desconliecidos que pagavam. O crime era ser

solteira e deixar viver no seu

amago a scentelha humana, e defendefa, e amata.

Va para a rua! Procure caminho! Esta casa

é minha, sempre foi minha. Faca a slia mala e desappareca!

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