Os Condemnados - Bloco 10 A Trilogia do Exílio · Capítulo 10 de 87
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Os Condemnados - Bloco 10

Depois, crescendo, transfigurada :

Estupido! Gritarei ate vir gente! Gritarei..

caften saltou, derrubou-a, quig por-lhe uum

pe no ventre importuno. Ela debatia-se. Largou-a

desmantelada e foi-se.

Permaneceu ate tarde naquelle quarto claro

de D. Rosaura. Queria ter o seu filho, fosse como

espelho o rosto machucado, sob a

fosse. Viu ao

ruiva cabelleira, dispersa e mal junta, o olhar enfaixado no luto das olheiras.

Deitou-se humildemente. E de subito, no escuro,

agcendeu-se a entrada luminosa da pensao da Odette.

Mauro ja estaria chegando la. As outras estariam

correndo para ele, como pavoes, aos gritos..

No fundo nunca analysado de Joao do Carmo,

uma honestidade engrossava, como o rio nas enchentes.

Por aquele fim morno de dia, ee

tinha-a

afinal alli, no seu quarto de telegrappista, abrindo

a janela uinica para a paiyagem mediocre de quintaes, que o perturbava.

Ela

ele,

viera com

num saltitar ligeiro de

tacoes, a gostosa nudez apenas disfarcada pela saia

preta e pela blusa de seda.

Numa sinceridade de confianca, acolhera-se na

cama, ao lado délle, a cabeca vermelha recostada

ao seu largo peito atlletico que fremia. E contavalhe historias da vida.

Conheces Camilla Maia? Esteve la em casa

hoje, outra vez. E' uma creatura alegre, esperta.

Mas nao tem cabeca, arranjou um filho. O filho foi

Tremembé. Esteve la

para

casa, desde o

meio-dia.

Depois reflectindo :

E' verdade o que voce nie disse? Que vad

para o Rio? Nao, voce nao pode me deixar. Eu nao

tenho ninguem...

Debatia-se, num carinho pedlinte. O peito do

moco arfava. Ele

vencera, afinal, de tanta esperanca, a dolorosa partida. E num confuso labyrintho de sensacoes e raciocinios, nao sabia crer.

Eu gosto tanto de voce! murmurava Alma,

quast chorosa. Nao quero que voce va...

Vinham a cabeca de Joao madrigaqs inuteis.

nao sabia tetb ali, cono um bom macho. Rimava obscuramente o seu amor triumgral. E elha,

na sua cabeca tonta de ouro ruivo, ia pensando que

faria com ele a burrada definitiva. Ele era bom

e nao a deixaria nunca mais.

Um sentimento recuado para as reservas mais

longinquas do seu ser de menina, vinha enternecerIhe os gestos leves. Ela enroscava-se toda no homem

forte e bom.

——Voce conhece aquele?

Alma levantou a cabeca surpresa, olhou: Joao

mostrava a photograpia arrancada de livro que se

suspendia a um prego, na parede sobre o leito.

E' Baudelaire.

Seu amigo?

Nao. Um poeta. Um grande poeta...

Parece um padre.

Voce sabe franceg ?

Um pouico.

Ele ficou numa lastima vexada, certo de que

um soneto de Baudelaire, cantado pela sua voz cava,

resolveria, melhor que tudo, a hora tentadora.

Ela estava ali, ela, ao seu lado, no seu quarto.

F como parecia differente desse mesmo ser, que o

obfecava a ponto de acompanhatfo em todas as silhuetas esbeltas, que passavam nas ruas agitadas.

Era ela, a que élle

e sonhava ter deante do clube

aquatico, numa incontida vaidade de noivo gigolo,

por uum ogcaso sobre a Ponte Grande, quando o sol

liquido nadasse, ao rythmo de uum barco que os seus

bracos levariam...

Car j'eusse avec ferveur baisé ton noble

corps...

Ficara

EYa perguntou-lhe

quieto, esperando.

com olhos cortantes, se estava cacoando.

Ora essa! que idea...

Uma frieza passara entre os dois corpos. Alma

deu um pulo do leito, voltou-se para um canto, subiu a seda frouxa das meias.

Preciso ir, vamos?

Ele refizera-se todo ja pronpto, cavalheiresco

e solido, disposto a acompanhatb, a obedecefe, a

morrer por ela.

E foram em silencio, baudelairianamente, pelas

ruas geladas.

CONDEMNADOS

O velho Lucas queria liquidar o seu antigo debito hypothecario da Lapa.

Os homens da Companhia de Desenvolvimento

tomar-lhe-iam as duas casinhas que lhe rendiam a

vida.

Tirou do guarda-,roupa um velho fraque, vestiu-o. Estava com as mangas curtas, teve a impressao de que crescera. E ficou alli,

sem animo de

saHir, festivamente vestido.

Pela manha, vinha-lhe aquela aguaceira aspera,

amarga e initil a bodca salivosa.

avo nao desconfiava de nada. Se pidesse

dormir sempre, sempre. Mas o soyhno fugia-lhe nu

galope como a vida. Fazia

imensas madrugadas

nullas. E uma suave angustia tinha-se lentaimente

obstinado no seu antigo peito calmo.

Alna gelava-se toda ao imaginar que ele viria,

mais dia menos dia, a saber.

O pretexto de encontrar-se com Mauro a tinha

salvo ate aí. Mas o caften havia de deixat

tambem.

A TRILOGIA DO EXI.IU.

Foi numa loucura, que ela comecou a autorizar

O telegraphista a definitivos compromissos. Agora,

todas as noites, era ele, como Mauro antigamente,

quem passava a horas certas. Fiel, humilde, como

quem nada espera e nada merece, falhava so nos

dias de plantao.

moleque, espionando do balcao, dizia a ruiva

cabeca inquieta qlie o Carlito estava na venda da

esquina.

De modo a ser uum irreprimivel sorriso a saudacao de inicio, quando ela descia.

Punham-se a falar de tudo. A vizinhanca nao

notava mais, cono outrora. Forcada a todos os

cnismos, Alma soubera penetrar em casa da mulher de frente, do lojista, da vizinha do sobrado. Resistia-lhe, ao lado, um fungcionario magro, de bigodes baixos que se chamava Quincas e tinha encardidas filhas curiosas.

Sabes? Camilla deixou o Mattos...

Ele nao era corregto?

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