A Escada - Bloco 32 A Trilogia do Exílio · Capítulo 87 de 87
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A Escada - Bloco 32

Tinha combinado entao leva-lo na dire-

A ESCADA VERMELHA

cao da Serra do Mar. Estariam em Santos pela madrugada. La tomaria rumo.

Arbustos gigantescos ganhavam em escada as alturas. Caminhos estreitos ladeavam, perdiam-se entre porteiras. O cheiro

da mata excitava. As vezes um carro ofuscava a noite, passava na direcao contraria.

por uma emocao

Jorge ia dominado

oposta ao ciclo que formara sua vida anterior. Voltara a efusao da infancia, aos primeiros passos diretos, entusiasticos e liricos, numa eclosao final da sua conciencia de lutador.

Quebrara-se o exilio que fazia dele um

apartado da vida, um escravo dos mitos corrosivos do amor, de Deus e da arte.

So, ao lado daquele homem pequenino,

que fumava no volante, a caminho de miseras casas proletarias, onde ele seria abracado,

sem se indagar quem tinha sido, Jorge sentia,

atraves do trabalhador, uma ligacao secreta

com a humanidade tumultuosa que construiria o futuro.

Longos anos atras descera aquela serra

OSWALD DE ANDRADE

ao lado de Alma, individualista, ciumento,

odioso, numa roda de meninos bonitos e

inuteis.

Depois fugira sem compreender como devia lutar contra o capitalismo que o perseguia, sem saber que a vida era um choque de

classes.

Era outro homem o que procurava agora

comunidades ilegais, preso para sempre as

cordas humanas da revolucao social.

Descia na madrugada cheirosa. Um horizonte pratico exaltava-o. A questao sexual,

como predissera a Mongol, passara para um

plano inferior, sem orgias de sentimentos,

sem fantasmas e sem saudade.

Ele era apenas um trabalhador. E bastava isso para desencantar as suas antigas solidoes.

Lembrou-se,com os seus olhos novos, da

gente pobre da Iha Verde. Quim Joao, Vitoria Agonia.

A ESCADA VERMELHA

As suas mais caras saudades, as suas roupas e malas, os seus retratos e os seus livros,

deixara-os no Clarim. Talvez definitivamente.

Talvez nunca mais pudesse busca-los. No romantismo da sua primeira evasao politica, supunha-se Ahasverus.

Nao tinha mais nada senao a roupa do

corpo e as maos para trabalhar.

Era um fugitivo.

Mas onde houvesse uma conciencia revoltada, na luta contra a exploracao do ho

mem,abrir-se-lhe-ia sempre uma casa, uma

celula da transformacao do mundo.

Irmas, irmaos, a familia afinal, a familia humana, feita do mesmo esperma, jorrada nos mesmos anseios, ele a encontraria,

longe das tragicas convencoes e das diferencas

jnfames mantidas pela burguesia.

Poderia,assim, varar fronteiras, percorre paizes de outra lingua, passar continentes,

cidades, granjas, matas, e caminhos. Nunca

seria um estrangeiro entre os oprimidos, en-

OSWALD DE ANDRADE

quanto houvesse dentes cerrados, sob o chicote do capital.

Um encarvoado saci o conduzia. Para

onde?

A voz do homem falou no escuro.

-Tudo sao comunista. Tem de toda raca. Alemao, Lituano, Preto,Argentino, Indio.

Onde?

“chauffeur" fez com os ombros um

gesto imenso.

- No mundo do sofrimento.

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