A Escada - Bloco 32
Tinha combinado entao leva-lo na dire-
A ESCADA VERMELHA
cao da Serra do Mar. Estariam em Santos pela madrugada. La tomaria rumo.
Arbustos gigantescos ganhavam em escada as alturas. Caminhos estreitos ladeavam, perdiam-se entre porteiras. O cheiro
da mata excitava. As vezes um carro ofuscava a noite, passava na direcao contraria.
por uma emocao
Jorge ia dominado
oposta ao ciclo que formara sua vida anterior. Voltara a efusao da infancia, aos primeiros passos diretos, entusiasticos e liricos, numa eclosao final da sua conciencia de lutador.
Quebrara-se o exilio que fazia dele um
apartado da vida, um escravo dos mitos corrosivos do amor, de Deus e da arte.
So, ao lado daquele homem pequenino,
que fumava no volante, a caminho de miseras casas proletarias, onde ele seria abracado,
sem se indagar quem tinha sido, Jorge sentia,
atraves do trabalhador, uma ligacao secreta
com a humanidade tumultuosa que construiria o futuro.
Longos anos atras descera aquela serra
OSWALD DE ANDRADE
ao lado de Alma, individualista, ciumento,
odioso, numa roda de meninos bonitos e
inuteis.
Depois fugira sem compreender como devia lutar contra o capitalismo que o perseguia, sem saber que a vida era um choque de
classes.
Era outro homem o que procurava agora
comunidades ilegais, preso para sempre as
cordas humanas da revolucao social.
Descia na madrugada cheirosa. Um horizonte pratico exaltava-o. A questao sexual,
como predissera a Mongol, passara para um
plano inferior, sem orgias de sentimentos,
sem fantasmas e sem saudade.
Ele era apenas um trabalhador. E bastava isso para desencantar as suas antigas solidoes.
Lembrou-se,com os seus olhos novos, da
gente pobre da Iha Verde. Quim Joao, Vitoria Agonia.
A ESCADA VERMELHA
As suas mais caras saudades, as suas roupas e malas, os seus retratos e os seus livros,
deixara-os no Clarim. Talvez definitivamente.
Talvez nunca mais pudesse busca-los. No romantismo da sua primeira evasao politica, supunha-se Ahasverus.
Nao tinha mais nada senao a roupa do
corpo e as maos para trabalhar.
Era um fugitivo.
Mas onde houvesse uma conciencia revoltada, na luta contra a exploracao do ho
mem,abrir-se-lhe-ia sempre uma casa, uma
celula da transformacao do mundo.
Irmas, irmaos, a familia afinal, a familia humana, feita do mesmo esperma, jorrada nos mesmos anseios, ele a encontraria,
longe das tragicas convencoes e das diferencas
jnfames mantidas pela burguesia.
Poderia,assim, varar fronteiras, percorre paizes de outra lingua, passar continentes,
cidades, granjas, matas, e caminhos. Nunca
seria um estrangeiro entre os oprimidos, en-
OSWALD DE ANDRADE
quanto houvesse dentes cerrados, sob o chicote do capital.
Um encarvoado saci o conduzia. Para
onde?
A voz do homem falou no escuro.
-Tudo sao comunista. Tem de toda raca. Alemao, Lituano, Preto,Argentino, Indio.
Onde?
“chauffeur" fez com os ombros um
gesto imenso.
- No mundo do sofrimento.