A Escada - Bloco 28
As raizes do seu ser mergulhavam no
avesso da natureza. Amarraram-no pelos pes,
como um fuzilado, para arrasta-lo.
La ia ele.. Subiam-no agora. Ele sentia
frestas de comunicacao com a natureza desenfeiticada. Queria varar por elas, nao podia.
Subito, o homem que estava quieto e abstrato
no trem ao seu lado gracejou num gesto desenvolto e patusco. E veio dar-lhe a mao,
atencioso e imperativo. A mao pesada agora
apalpava-o, prendia-lhe um pedaco de carnes
aperto brusco e crescente. A propria
num
mao crescera e ameacava rebenta-lo.
Jorge moveu a cabeca dura nos travesseiros do atelier, ageitou-se melhor.
E,num assombro antigo, viu que tinha
A ESCADA VERMELHA
consigo, viajando no mesmo banco, Mauro
Glade, o caften de Alma.
O trem em que iam, devorava os trilhos
la fora procurando a manha.
Foram assim longamente, tristemente,
lado a lado. Pressentiam-se salitarios irmaos,
ruma mutua angustia e numa invencivel hostilidade.
Jorge falou:
-Creio que nos encontramos outra vez
num trem.
—E' verdade, respondeu o outro com a
voz metalica. O seu rictus desenvolvera-se peJo corpo todo. Era um ser adunco, paraligado
numa ironia que perdera o sentido.
Ela morreu, fez Jorge.
Mauro Glade dobrou a velha cabeca canalha e disse que ia lhe fazer uma pergunta.
Jorge sentiu uma aflicao vibrar em todo o
seu ser, desmantelar num segundo o seu peito forte. O homem sussurrava:
Quem a matou?
OSWALD DE ANDRADE
Oamor.
O homem adunco tirou o feltro mole e
negro. Estava encanecido. Readquiriu num
minuto a feicao insultuosa e gelada com que
se revelara a Jorge na estacao perdida da ferrovia antiga. Disse metalico e lento:
——Foi o capital!
Os outros passageiros dormiam na penumbra do vagao em marcha. Uma mulher
resslonava pela boca aberta num banco.
Jorge sentiu que pairava longe, para la
da felicidade burguesa, no pais dos sovies.
Os amigos trouxeram-no para a casa do
esgageado, sem colarinho.
Castro,tragico,
Haviam-no encontrado desfalecido no diva
do atelier.
Na caminhada pelo jardim, carrocas pas
savam tocando como bombos.
A EsCADA VERMELHA
Colocaram-no sentado na grande sala de
frente.
Estava palido e sorria para a irradiacao
do vulto de Gulnare.
Uma porta de ferro fechara-lhe o peito.
Nao podia mais falar. Ja se haviam reunido
os seus condenadores. Por que? Por que tinham vindo perturbar o enorme conclave?
Olhou melhor. Gulnare chorava num
lenco agarrada a Rita. Havia uma bacia no
chao. Carlos falava-lhe alto. Nao! Era a mae,
pequenina, ressuscitada que o abracava e fazia propaganda reacionaria!
Que aflicao, meu filho! Que aflicao!
La dentro ia uma dor infinita de tudo.
E a mae chorava perguntando-lhe — Se
nao houvesse Deus, filho, que nos restaria a
nos, pobres seres sem forca, na torrente
monstruosa que ves?
Ele pesquisava o drama obscuro dela, da
progenitora ignorada, esquecida, morta.
Uma efusao de lagrimas subiu, estalou-
OsWALD DE ANDRADE
lhe nos olhos, na garganta.