A Escada - Bloco 28 A Trilogia do Exílio · Capítulo 83 de 87
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A Escada - Bloco 28

As raizes do seu ser mergulhavam no

avesso da natureza. Amarraram-no pelos pes,

como um fuzilado, para arrasta-lo.

La ia ele.. Subiam-no agora. Ele sentia

frestas de comunicacao com a natureza desenfeiticada. Queria varar por elas, nao podia.

Subito, o homem que estava quieto e abstrato

no trem ao seu lado gracejou num gesto desenvolto e patusco. E veio dar-lhe a mao,

atencioso e imperativo. A mao pesada agora

apalpava-o, prendia-lhe um pedaco de carnes

aperto brusco e crescente. A propria

num

mao crescera e ameacava rebenta-lo.

Jorge moveu a cabeca dura nos travesseiros do atelier, ageitou-se melhor.

E,num assombro antigo, viu que tinha

A ESCADA VERMELHA

consigo, viajando no mesmo banco, Mauro

Glade, o caften de Alma.

O trem em que iam, devorava os trilhos

la fora procurando a manha.

Foram assim longamente, tristemente,

lado a lado. Pressentiam-se salitarios irmaos,

ruma mutua angustia e numa invencivel hostilidade.

Jorge falou:

-Creio que nos encontramos outra vez

num trem.

—E' verdade, respondeu o outro com a

voz metalica. O seu rictus desenvolvera-se peJo corpo todo. Era um ser adunco, paraligado

numa ironia que perdera o sentido.

Ela morreu, fez Jorge.

Mauro Glade dobrou a velha cabeca canalha e disse que ia lhe fazer uma pergunta.

Jorge sentiu uma aflicao vibrar em todo o

seu ser, desmantelar num segundo o seu peito forte. O homem sussurrava:

Quem a matou?

OSWALD DE ANDRADE

Oamor.

O homem adunco tirou o feltro mole e

negro. Estava encanecido. Readquiriu num

minuto a feicao insultuosa e gelada com que

se revelara a Jorge na estacao perdida da ferrovia antiga. Disse metalico e lento:

——Foi o capital!

Os outros passageiros dormiam na penumbra do vagao em marcha. Uma mulher

resslonava pela boca aberta num banco.

Jorge sentiu que pairava longe, para la

da felicidade burguesa, no pais dos sovies.

Os amigos trouxeram-no para a casa do

esgageado, sem colarinho.

Castro,tragico,

Haviam-no encontrado desfalecido no diva

do atelier.

Na caminhada pelo jardim, carrocas pas

savam tocando como bombos.

A EsCADA VERMELHA

Colocaram-no sentado na grande sala de

frente.

Estava palido e sorria para a irradiacao

do vulto de Gulnare.

Uma porta de ferro fechara-lhe o peito.

Nao podia mais falar. Ja se haviam reunido

os seus condenadores. Por que? Por que tinham vindo perturbar o enorme conclave?

Olhou melhor. Gulnare chorava num

lenco agarrada a Rita. Havia uma bacia no

chao. Carlos falava-lhe alto. Nao! Era a mae,

pequenina, ressuscitada que o abracava e fazia propaganda reacionaria!

Que aflicao, meu filho! Que aflicao!

La dentro ia uma dor infinita de tudo.

E a mae chorava perguntando-lhe — Se

nao houvesse Deus, filho, que nos restaria a

nos, pobres seres sem forca, na torrente

monstruosa que ves?

Ele pesquisava o drama obscuro dela, da

progenitora ignorada, esquecida, morta.

Uma efusao de lagrimas subiu, estalou-

OsWALD DE ANDRADE

lhe nos olhos, na garganta.

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