A Escada - Bloco 20
O navio, cheio de procelas, renovava travessias, impavido, grande, feliz, convidando-o
a segui-lo.
Ele ergueu o braco e disse um adeus fraternal a alguem que fosse talvez ali chorando
so a emocao da primeira partida.
O navio dobrava longe na direcao dos
morros extremos. Fazia rumo a Europa, como
quinze anos atras, pelo mesmo roteiro, a mesma hora triste do dia.
Jorge lembrou-se que ele continha o cerario de seu primeiro roinance, da sua primeira ambicao sentimental.
E sorria a historia extinta que entre pedras e arvores desaparecia nos mastros longinquos.
OSWALD DE ANDRADE
Saiu do chale que as meninas percorriam
rum alvoroco de limpeza. Levava consigo os
cigarros de Carlos Bairao, a rosa agreste, um
livro. No porto,a sombra da crestada parede
da casa, um barco virado estacava num convite. Em frente, a fonte perene do mar solucava nas conchas.
Sentava-se no costado do barco humano.
Sentia-lhe a rude construcao de desafio, as
chapas que o remendavam, os pregos que o
tinham. Fora talhado num tronco de floresta.
Um velho barco tem sempre uma grande historia, uma historia maior que a do oceano.
Quantas vezes o tronco arrancado da mata
pelo trabalho humano, ja sinuoso e agil, cavalgara o estuario ondulado na venturosa
cacada do horizonte. E varejara as enseadas
e os reconcavos, trazendo do misterio das
aguas o misterio dos peixes, do misterio das
baias, o misterio visional das praias desertas.
A EsCADA VERMELHA
E nas mares noturnas arfara as estrelas
achando pequeno o mar que o continha.
O coqueiral da ilha apontava-lhe o céu
vertical. O mar falava cancoes escutadas por
Homero e pelo Dante.
Uma necessidade de realizacoes apertava-lhe a alma desejosa. Mas sentia a impossibilidade dos altos contagios misticos. Dentro
dele o coracao endurecido resistia, silenciava.
A lancha nao vinha. Trar-lhe-ia talvez
noticias dos seus. Quem eram os seus? Nora de-certo e Gulnare e a familia
com quem
morava e dois ou tres amigos.
Uma agitacao sensibilizava-o. Se viessem
noticias!
Encaminhou-se para o porto. Um batelao negro passava numa pulsacao regulada de
maquina, procurando o mar largo. Uma silhueta de navio cortava o horizonte. Trazia o
ferreo casco carcomido de tempestades.
OSWALD DE ANDRADE
Gritaram por ele. A lancha aproava. Uma
aflicao suspendeu-o. Traziam-lhe um bilhete de Claro Dutra. Carlos telefonara de Sao
Paulo. Nao havia ainda decisao alguma.
Quanto tempo seria preciso ficar ainda
na ilha?
Sentia uma volupia de castigos para que
se cumprisse a purificacao comecada junto
ao leito de morte de Mary Beatriz e tantas
vezes evitada pela covardia humana de seu
ser.
Uma suspeita tomou-o. Os amigos talvez lhe ocultassem uma condenacao.
Vieram-lhe revoltas a lembranca do juiz
que o julgava em Sao Paulo, o qual ele entrevira uma vez pomposo e idiota nas ruas
da cidade.
Anoitecera com lua. Na escada do barracao as criancas brincavam de anel. O holo
fote possante de Itaipus varava o mar.