A Escada - Bloco 20 A Trilogia do Exílio · Capítulo 75 de 87
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A Escada - Bloco 20

O navio, cheio de procelas, renovava travessias, impavido, grande, feliz, convidando-o

a segui-lo.

Ele ergueu o braco e disse um adeus fraternal a alguem que fosse talvez ali chorando

so a emocao da primeira partida.

O navio dobrava longe na direcao dos

morros extremos. Fazia rumo a Europa, como

quinze anos atras, pelo mesmo roteiro, a mesma hora triste do dia.

Jorge lembrou-se que ele continha o cerario de seu primeiro roinance, da sua primeira ambicao sentimental.

E sorria a historia extinta que entre pedras e arvores desaparecia nos mastros longinquos.

OSWALD DE ANDRADE

Saiu do chale que as meninas percorriam

rum alvoroco de limpeza. Levava consigo os

cigarros de Carlos Bairao, a rosa agreste, um

livro. No porto,a sombra da crestada parede

da casa, um barco virado estacava num convite. Em frente, a fonte perene do mar solucava nas conchas.

Sentava-se no costado do barco humano.

Sentia-lhe a rude construcao de desafio, as

chapas que o remendavam, os pregos que o

tinham. Fora talhado num tronco de floresta.

Um velho barco tem sempre uma grande historia, uma historia maior que a do oceano.

Quantas vezes o tronco arrancado da mata

pelo trabalho humano, ja sinuoso e agil, cavalgara o estuario ondulado na venturosa

cacada do horizonte. E varejara as enseadas

e os reconcavos, trazendo do misterio das

aguas o misterio dos peixes, do misterio das

baias, o misterio visional das praias desertas.

A EsCADA VERMELHA

E nas mares noturnas arfara as estrelas

achando pequeno o mar que o continha.

O coqueiral da ilha apontava-lhe o céu

vertical. O mar falava cancoes escutadas por

Homero e pelo Dante.

Uma necessidade de realizacoes apertava-lhe a alma desejosa. Mas sentia a impossibilidade dos altos contagios misticos. Dentro

dele o coracao endurecido resistia, silenciava.

A lancha nao vinha. Trar-lhe-ia talvez

noticias dos seus. Quem eram os seus? Nora de-certo e Gulnare e a familia

com quem

morava e dois ou tres amigos.

Uma agitacao sensibilizava-o. Se viessem

noticias!

Encaminhou-se para o porto. Um batelao negro passava numa pulsacao regulada de

maquina, procurando o mar largo. Uma silhueta de navio cortava o horizonte. Trazia o

ferreo casco carcomido de tempestades.

OSWALD DE ANDRADE

Gritaram por ele. A lancha aproava. Uma

aflicao suspendeu-o. Traziam-lhe um bilhete de Claro Dutra. Carlos telefonara de Sao

Paulo. Nao havia ainda decisao alguma.

Quanto tempo seria preciso ficar ainda

na ilha?

Sentia uma volupia de castigos para que

se cumprisse a purificacao comecada junto

ao leito de morte de Mary Beatriz e tantas

vezes evitada pela covardia humana de seu

ser.

Uma suspeita tomou-o. Os amigos talvez lhe ocultassem uma condenacao.

Vieram-lhe revoltas a lembranca do juiz

que o julgava em Sao Paulo, o qual ele entrevira uma vez pomposo e idiota nas ruas

da cidade.

Anoitecera com lua. Na escada do barracao as criancas brincavam de anel. O holo

fote possante de Itaipus varava o mar.

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