Os Condemnados - Bloco 21 A Trilogia do Exílio · Capítulo 21 de 87
Obra Menu

Os Condemnados - Bloco 21

Luquinhas ganhara imunidades. Na casa rica,

propunha a toda gente' esconde-escondes e cavalgadas. Quebrava tudo. Batia com a colher cen

vezes regulares na mefa. Um bulicio reinava por

onde apparecessem os seus cachos loiros. Quantdo

Alna se demorava, chorando de soyno, no collo

compassivo da governante siguda, queria trocar de

mae.

Outras vezes, ela nao sakia. E brincavam juntos, num renovado paraigo de surpregas, de beijos

e de gritos.

Ee ogcultava-se atray

de uma bandeira de

porta e gritava.

Ela, sorrateira, estava ali ao seu lado. Descerrava o esconderijo. E, num deliciado susto, éle

tombava-lhe nos avidos bracos.

Ensinaram-no a ler num grande livro de figuras: A-za, E-ma, I-lha, O-vo, U-va.

O bicho caratetu vinha nas noites tetricas esCrescia. E, crescendo, tentava o mysterio de

todas as portas, de todos os moveis, de todas as

gavetas; buscava o inedito de todas as janellas;

explorava a floresta florida do jardim. E procurava,

além do portao, a rua que levava aos mundos longinquos dos parques.

Davam-lhe todos cs brinquedos, todos os doces.

todos os livros bonitos.

E, parado, ouvindo a grande pponola qule c

engenheiro comprara no dia de seus afnos, era

um padre de camisola, sacrificando ante a missd

musical dos discos.

Ela pusera o seu chapeu cor de maravilha.

Tinha encontrado Mauro no Triangulo. Estava

mais alto, mais forte. E falara-lhe com a voz metalica, num velho desembaraco. Ia velHo.

esperava-a na Praca da Republica, entre

hermas cinzentas e repuxos japonezes de flores

vermelhas.

E eha convidou-o a ir ate o longinquo bungalow

das Perdizes.

Tomaram um yelho taxi. Estavam cerimoniosos, bons, alegres. Elye entrou, como muma fita de

cinema. Admirou o gosto das lacas, dos tapetes, dos

cretones.

Ela mostrou-lhe o quarto de Luquinhas, todo

branco. E levou-o para o hall, onde havia convites

de poltronas macias.

Fumavam conversando. Uma animacao comecou a agitat-os. Telles Mello partira para Uberaba:

voltaria dahi a dez dias.

Mauro andara pelo Rio. Falou-lhe das inulheres

que tivera, numa naturalidade. Ela relatou-lhe a

vida rica e facil. Mostrou-lhe uma pulseira delgada

de sappiras e brilhantes que ganhara no Natal.

E, subito, ele levantou-se excitado. Achava-a

diversa, outra. Libertada do chapeu de passeio, ell

parecia esplendida na inteira toilette, em crepe tete

de negre com punhos fartos de skunks e a gola provocante no contraste do cabello acaju.

As pernas revelavam-se ate o ouro das ligas

moncgraihmadas nos fechos.

Ele baixou-se. Beijou-lhe a testa alva de creme, depois sugou-lhe cs labios entreabertos e carminadlos.

Ela tinha os bicos dos seios duros, de pau.

Veip-lhe um grande riso, hysterico e desigual.

Uma curiosidade criminosa, naquelle ambiente,

onde um extranho reinava, impeNlia-os um para O

outro, juntava-os.

Excitaram-se, disfarcando com vozes altas. De

dentro, vinha lim barulho de creados...

Partira o grande macho retornado, risonho e

desmantelo de toilette, a

recurvo. Deixara-a num (

bodca inchada de lascivia, sentada numa seriedade

de crime, os olhos fumdos nas olheiras lutuosas, a

carne vencida de gozo.

ergueu-se na sala deserta. E foi descoE ela

brindo a cor de tudo, o santido espedtaculoso de

tudo.

Mauro tomou um bonde do Braz. A voz dos

cantava-lhe vigdtoriosamente nos ouvidos

cabareys

alegres. Lembrava-se de uma noitada no Rio. No

tilintar das fichas, gritavam: trinta e cinco! Era o

numero da casa antiga de seu pae.

Encontrou apenas a creada da infancia, morando perto. Estava velha, toda branca. Po%-se a

chorar ao vel-a. Tinha perdido os dois filhos num

ayno. O destino estracalhava-lhe as uiltimas escoras

da vida. Queixou-se lamentosamente. Sentia-se lavada em agua fria, nas costas, nos Kombros. Pediulhe um agagalho. Ele deu-lhe dinheiro e partiu.

A queda rapida de Alma fazia entrever um

futuro favoravel ao caften, onde a fortuna de Telles

Mello rodava.

Voltou imprudentemente ao bungalow das Perdizes.

Uma tarde, o engenheiro, avisado, chegava

quando elye sahia. Os dois homens advinharan-se

entrada do jardim, rodaram como dois boxeurs na

arena, perscruutando-se.

Ele partiu num sorriso de desprego soberano,

os muisculos tesos e promptos.

outro entrou: tinha uma psicologia insultada de capenga.

Numa $cena dilacerante e rapida, fez a amante

confessar e expulsou-a.

Ela ia sallir, serena, linda, acostumada a festa

tragica da vida. Prexentia a existencia com Mauro,

a ruina, o descalabro certo. E achava natural aquele

repentino desamparo da sorte. Era o ser humano

na queda abysmal, sem fundo.

Vestira Luquinhas. Tirou-o da cama rica de

pau laqué, nevada de filo.

E ele procurou levar nas maozinhas gordas um

bebe de celuloide, o balde e a pa com que revolvia

a terra fofa do jardim.

Ao sentir aquela tenacidade, o homem pensou

em tornar atrag.

Tentou agarratfa.

Eillaquis

dar-lhe uma bofetada, nuum despreeo de olhos verdes.

1/1
Menu

Fazer anotação