A Estrella de Absyntho - Bloco 23 A Trilogia do Exílio · Capítulo 50 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 23

Em um irhmenso ecran de

ein lettras

cinema,escreviam e apagavam

cruas: “Arte e Delinquencia".

E o velario desapparecera. Era uma descommunal planicie, onde esppinges douradas

e longas paravam com olhos vasados e expres-

sivos. Eran harpias enroladas no fundo, onde despencava do alto, tenuemente, uma poeira de asas minusculas e egypcias, de ouro. A

chuva ie ouro crescia, entupia-lhe a garganta, onde placas jorravam, abertas e ardidas.

E uma mulher andava pelo quarto, abatido de penumbra. A mulher ia e vinha; tinha-se despido e viva como uma estatua, dos

seios em pera, dos olhos claros, fizera-se dia

de novo, dia azul, num quarto azul, de paredes infinitas. A mulher tinha as formas de

bronze, com os cabellos ouro-vermelhos de

Alma.

Ele viu faiscarem

unhas cor de

suas

agua, e ela

crescer no azul, extinguilo em

jogos ageis, gigantescos e terriveis.

No fim da segunda semana, o musico Torresvedras que viera todas as tardes, obstinado e mudo, foi admiytido afinal a vel-o. Penetrou na penumbra do quarto.

Um homem de barba crescida e nariz afilado de morto tinha a cabeca enterrada para

o lado nos travesseiros do grande leito.

A irman que o conduzira approximoucurvou-se sobre ele, arranjou

se do doente,

uma dobra do lencol e disse:

E' um seu amigo que tem vindo sempre...

Jorge d'Alvellos continuava imovel.

Havia sobre o leito, almofadas coloridas, festivas, trazidas do atelier e do quarto.

E Torresvedras sentiu a necessidade de

falar, de expandir-se, de dizer o que lhe ia

por dentro. Achegou-se. Um soluco grosso ficara-lhe na garganta. Encostara-se ao leito e

perguniou:

-Conio foi, meu amigo..

Sem voltar a cabeqa, o doente murmurou

numa espacada algaravia lamentosa:

--Arran... caram... o co... racao..

Voltara a mulher de unhas cor de agua.

Jorge apenas nao via que ela tinhx um casaco grosso de la, europeu,e chorava.

Era a mae da artista de Roma que, sem

presentir a catastrophe de Jorge d'Alvellos,

esperava sorrindo a sua volta do Rio no leito

branco do quarto 21. Haviam-lhe dito aquillo

e ela acrcditava.

Quatro dias depois do desembarque em

Santos, fora agcommettida de febre violenta e

resolvera passar os dias do Carnaval num Sa-

natorio. Havia feito uma travessia r:cabrunhada e dolorosa. Quatro mezes atraz, esmagando

as cores na palheta, no seu atelicr de Via

Margutia, sentira um subito mau gosto na botca. Fora a primeira hemoptyse. Uma pleurocongestao declarara-se pela segunda vez. E

depois disso, Mary Beatriz desfallecia lentamente.

Os medicos haviam-lhe aconselhado a

Suissa, qualguer villazinha de chalets, na

Jungfrau, ou mesmo em haixo, Vevey, sobre

o lago.

Era preciso deixar Roina. Como estivesse

teriminado o pensionato do governo de Sao

Paulo, ela convencera a mae angustiada de

que deviam voltar ao Brasil. Faria uma exposicao e se fosse preciso iria traiar-se nos

Campos do Jordao.

Nac avisara Jorge, num desejo infantil de

surprellendelo na grande blusa de linho, na

sacra paz do atelier que havia de ter, sob o

ceu caliginoso de Sao Paulo, quem sabe se na

terminacao gloriosa de um relevo para o Monumento do Ypiranga.

E na quarta-feira de cinzas, pela madrugada, sua mae que nao pudera dormir por

causa dos gritos da uremica do quarto 7 e sa

hira a busca de caldo, voitara paliida, aterrada, sem o alimento da enferma. Tinha assisti-

do la fora, a entrada do corpo em sangue de

um suicida.

A doente adormecera entre os fartos cabellos, a luz do abat-jour inteirico. A senhora

saiu de novo, voltou. E nunca mais deixou de

acompanhar, como se fosse um filho que lhe

negassein, o operado do quarto 11.

atao

Abrira-se dias depois com Carlos Byron

que imediatamente viera visitar a artista no

seu leito e dizer-lhe que recebera dc: Rio uma

carta en que Jorge d'Alvellos lhe pedia para

informato se era verdadeira a noticia da imprevista chegada de Roma. Fora a residencia

de seus primos a Rua Aurora, e la lhe haviam

dado o endereco do hospital.

Sorrindo mais ainda, a tysica pediu-lhe

que nao dissesse nada a Jorge de sua doenca.

Viera para alli apenas repousar da travessia.

E os medicos a haviam prokibido de sahir.

Pediu-lhe que fizesse tudo para que o esculptor regressasse depressa. Nao tinha ninguem

para conversar so a mamae. O velho tio

regressara ao interior, os primos eram ogcupados.

Carlos Byron que confiava ja na resurreicao de Jorge, viu, naquelle encontro inesperado, um estimulo sobrehumano para a vida do ainigo e prometleu trazel-b na proxima

semana.

Nessa manha, haviam carregado dificultosamente o doente do quarto 11 para uma

cadeira de rodas.

E ele ficara alli, animalizado, barbudo,

indifferente, com o tronco enrolado e enorime.

O medico prohibira a mae de Mary Beatriz de vir vel-b, pois ele podia reconhecel-a e

ter um trauma fatal.

Mas Jorge d'Alvellos nao reconhecia senao a dor que lhe rondava implacavelmente

pelas galerias do corpo.

Deitada no grande leito da sua esperanca, ela pensava nas tintas com que refaria

a vida...

E como nao melhorasse, sua mae e Carlos Byron angusliados, procuravam obter do

Dr. Braulio, sempre ligeiro e attento, a possibilidade de fazel-os se verem.

O medico de Mary Beatriz era c Dr. Carlos Pinheiro. Tinha a velha cara cheia de

sulcos e bossas que lhe davam um aspecto de

seriedade monstruosa. Manifestara-se de opiniao contraria ao encontro. A tuberculose afinava a sensibilidade, a sua marcha dependia

muitas vezes da affedtacao dos centros sen-

siveis. Ela devia partir quanto antes para O

Campos' do Jordao. Mas a doente, apefar-d

tosse que lhe rachava o peito, recalcitrou

nao sajiria dali sem rever Jorge.

Disseram-lhe que o esculptor estava doen

te, de um ferimento enorme que recebera n

atelier, quando evitava o desabamento de um

estatua.

Ela chorou, pensando que ele sc recusas

se a vir vel-a..

Carlos Byron annunciava-se todas as ma

nhas, pela enfermeira rolica e risonha, man

dava-lhe flores. E foi preciso a intervenca

mazorra e honesta de Torresvedras, para di

minuir a affliccao da doente. Ela acredito

afinal e agora, a noite, esquecia de resar po

se a Madonna Del Giglio, para pedir a boa se

nhora que curasse de-pressa o seu amor.

Porque vendo-se mal, o sentimento defi

nitivo de sua vida de mulher, viera-lhe num

subita invasao, por todos os poros

alma e do corpo. Ao approximar-se da

costas brasileiras, cahida na sua chaise-lon

gue, a contemplar, nas tardes vasias, nuven

sobre o mar, ela vira partirem, uma a uma

todas as antigas restriecoes, as antigas reser

vas.

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