A Estrella de Absyntho - Bloco 19
De novo, numa syncope, o cortejo parara.
Aecendiam-se fachos estridentes em torno do
primeiro carro: tomando o horizonte, num
enleamento de cores, dragoes mantinham até
o alto ccrpos de badchantes. Bem ein frente a
Jorge, os clarins impacientes esperavam. Eram
nove figuras trajando de arautos, mulatos sem
dentes, italianos gorduchos - a escoria philarmonica da cidade. Ouviu-se um apito e pa-
rados ainda os tres da frente, num movimento
egual, puzeram as trombetas a boeca.
As cornetas cantavam metallicas, marciaes.
Agora, os seis outros empunhavam os instrumentos curtos, direitos, para cima: e de
novo, um sopro sonoro inundou de epopea o
quadro rumoroso e extatico. Naquella dezena
de notas, cortantes e claras, passavam evocacoes de batalha. Os cavallos tinham clhos tristes, olhos supplicantes, como se num fundo de
ancestralidade nervosa temessem o mortifero
fragor das cargas heroicas.
E rolando por entre gritos e extases, entrelacados de serpentinas, coloridos de luzes
maravilhosas, conduzindo nus morpheticos de
papelao e nus de carne, os carros desfilaram.
Espezinhado mas iyhmortal!
Numa ultima offensiva de optimismo,o
seu optimismo secular,amazonico,invencivel,
Jorge d'Alvellos entrou numa casa de mascaras para alugar uma phantasia.
Agora, vamos ver a Santa Casa. Foi oultimo caminho que ela fez, o ultimo passeio.
O pierrot preto que tinha a cabeca cor de
luar, pulando de um tufo rubro de gaze e
rodellas vermelhas de botoes, parou.
Nao vou. E’ o cumulo da tortura!
Tens medo de soffrer?
Tenho.
Deixara roupa na casa de pnantasias.
Trazia apenas comsigo o medalhao com o retrato de Alma, o seu pouco dinheiro, um lenco e o revolver Browning.
Continuava a andar pelo Viadugto de
Santa Ephigenia, rumorejante ainda de povo,
com pyramides rolantes, ca e la. Espiou para
a festa de luzes que estrugia no Casino Antartica. E o incubo lhe disse:
-Se te atirasses, cahias de ponta-cabeca
la em baixo.
Era um companheiro intimo que o tomara pelo hombro: sabia os seus mais dissimulados segredos, era vago, subtil e tinha a mania de convencel-o.
Nao vaes ao Cemiterio ha muito tempo...
Era longe e triste o Araca: entretanto,
ele obcdeceu a suggestao. Estava em frente
jardim extranho da Memoria. Entre
arvores antigas, num arranjo colonial, uma
escadaria erguia-se em voltas ate o obelisco
secular.
Uma vez, paraste aí, com ela, vendo...
O pierrot preto desviou o olhar. Pelo centro, incendiando as mais altas fachadas, de
vermelho, de verde, os prestitos iam ainda.
Chegava ate ele o canto das cornetas heroicas.
Voltou. Andou em tropelias, em subitas
quietudes. Foi por travessas desertas tropecando.
E de repente viu que tinha sido conduzido a Rua da Boa Morte. No silencio, havia
lampeoes espacados de enterro e, la em baixo,
no Braz, um fervilhamento parado de luzes.
Defrontava a casa baixa. A sala tinha ficado aberta e escura. Uma mulher elegante,
moca, de chapeu, chegou a janella... O pierrot preto voltou, de hombros cahidos, a cabeca
cor de luar para a frente.
E o incubo lhe disse outra vez:
Agora, vamos ver a Santa Casa..
Havia horas ja que ele seguia o rastro
invisivel de Alma, pelas ruas onde ela anda-
va, pelas casas de armarinho, fechadas em cobertas ondeadas de ferro, pelas confeitarias
onde se haviam sentado juntos.
Ia agora rever o caminho amado da Rua
Scuvero. Mas um homem e um domino fizeram-no parar. O homem dizia-lhe:
-Senhor esculptor, como vae? Entao...
Jorge reconheceu o critico que o fizera
destruir a estatua de Alma e lamuriou um
bom dia sem sentido.
-Esta se divertindo tambem? continuou
O outro. Imagine que massada! E' prohibido
entrar nos bailes con mascara, depois de
meia-noite e eu nao posso desvendar este mysterio..
O domino que recobria um corpo de mulher, permanecia direito, inteirico. O critico
despediu-se. Jorge dizia-lhe num lamentoso
sorriso:
Sinto muito... Sinto muito..
E poz-se de novo a caminhar.
Bateram-lhe as costas com forca. Ele teve medo. Voltara-se andando sempre. Era um
sujeito de nariz enorme que chalaceava com
senhoras, a porta de uma tabacaria.
Que pierrot delicado!
Jorge, num subito tumulto de rua, dera
um encontrao numa mocinha de cabellos fartos e dcsfizera-se nervosamente em desculpas.
E ela ria com outra, comentando.
Chegou automaticamente ao Largo de Sao
Francisco. Um acampamento barbaro otcupava-o. Ao lado da estatua, no fundo, com as
engrenagens phantasticas paradas, as boleas
nuas, um irmmenso carro desdobrava-se na
feerica composicao de sua montagem. Pares
de mulas adornadas esperavam, atadas as redeas. Gente passava retirando-se. Taxis com
colombinas de gaze nos toldos faziam voltas
suaves; pierrots ornamentaes, em adaga que
se abria no tufo do pescoco, corriam galantemente; cavalleiros do prestito morto trotavam
pelas pedras. Atra do grande carro, outros
carros destacam-se, abandonados na desorganigacao final, processionaes e imensos. Os
ultimos folioes desciam para o chao. E Jorge
viu alguem agitar-se dentro de uma abobora
monstruosa. Estava de pagem. Tinha as pernas della, sob o busto apenas diminuido. E a
voz de Alma repetiu-lhe o nome inteiro.
Ela deixara o carro; andava pelas pedras
com o mesmo andar... veiu para o seu lado:
ele teve um impeto de levar as maos a cabeca e gritar. Quiz sapatear ali, com os olhos
engastados na que voltava. Era Milagre.
Parou no Piques. Bondes partiam apirhados. Subiu, andou. No centro, a festa terminava. Prestitos desciam ainda as ruas, de vagar,
na desorganizacao suada do fim, com boleas
vazias, cavalleiros a pe, a caminho dos Avernos. A banda montada de um, remexeu um
maxixe pulado, picadinho, bem marcado de
sons.
Uma maltrapilha que ia conduzindo a cabeca um molho monstruoso de fitas coloridas,
juntadas do chao, gingou. Riram em redor.
Empurraram o monte de ca, de la. O peso
enorme vacillou, calfiu —- e ela ficou apatetada. olhando Jorge d'Alvellos que passava.
-Bruto destino! Ruidos surdos dentro
da alma! Sao os ultimos desaterros que estrondam... Mas porque me doem tanto os
olhos? Parece que querem sahir fora das orbitas..
Ele ia ao Palacio das Industrias. Parou
na ponte de pedra sobre o Tamanduatehy que
transbordava em lago, depois dormia em canal para as bandas da Luz. Havia olhos vigilantes de torres, fixos, longe. E lampeoes e a
cidade e estrellas.no ceu... E a correnteza em
baixo, redobrada e murmurante.
O incubo disse-lhe ao ouvido :
- Se te atirasses, ias sahir na excrementeira da cidade..
Ao atravessar a palissada, pela primeira
vez o esculptor leu numa tabba, sobre o portao, em lettras pretas "Palacio das Industrias"
Contornou a imensa e muda construgcao em
acabamento. Penetrou. No corredor impreciso
e largo, erguiam-se maquettes alinhadas como
monumentos funereos.
O pierrot preto subiu tacteando as escadas. Eutrou no atelier, riscando um phosphoro.
Ao inesperado clarao vacilante, as estatuas tiveram
gestos recuados de ameaca.