A Estrella de Absyntho - Bloco 19 A Trilogia do Exílio · Capítulo 46 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 19

De novo, numa syncope, o cortejo parara.

Aecendiam-se fachos estridentes em torno do

primeiro carro: tomando o horizonte, num

enleamento de cores, dragoes mantinham até

o alto ccrpos de badchantes. Bem ein frente a

Jorge, os clarins impacientes esperavam. Eram

nove figuras trajando de arautos, mulatos sem

dentes, italianos gorduchos - a escoria philarmonica da cidade. Ouviu-se um apito e pa-

rados ainda os tres da frente, num movimento

egual, puzeram as trombetas a boeca.

As cornetas cantavam metallicas, marciaes.

Agora, os seis outros empunhavam os instrumentos curtos, direitos, para cima: e de

novo, um sopro sonoro inundou de epopea o

quadro rumoroso e extatico. Naquella dezena

de notas, cortantes e claras, passavam evocacoes de batalha. Os cavallos tinham clhos tristes, olhos supplicantes, como se num fundo de

ancestralidade nervosa temessem o mortifero

fragor das cargas heroicas.

E rolando por entre gritos e extases, entrelacados de serpentinas, coloridos de luzes

maravilhosas, conduzindo nus morpheticos de

papelao e nus de carne, os carros desfilaram.

Espezinhado mas iyhmortal!

Numa ultima offensiva de optimismo,o

seu optimismo secular,amazonico,invencivel,

Jorge d'Alvellos entrou numa casa de mascaras para alugar uma phantasia.

Agora, vamos ver a Santa Casa. Foi oultimo caminho que ela fez, o ultimo passeio.

O pierrot preto que tinha a cabeca cor de

luar, pulando de um tufo rubro de gaze e

rodellas vermelhas de botoes, parou.

Nao vou. E’ o cumulo da tortura!

Tens medo de soffrer?

Tenho.

Deixara roupa na casa de pnantasias.

Trazia apenas comsigo o medalhao com o retrato de Alma, o seu pouco dinheiro, um lenco e o revolver Browning.

Continuava a andar pelo Viadugto de

Santa Ephigenia, rumorejante ainda de povo,

com pyramides rolantes, ca e la. Espiou para

a festa de luzes que estrugia no Casino Antartica. E o incubo lhe disse:

-Se te atirasses, cahias de ponta-cabeca

la em baixo.

Era um companheiro intimo que o tomara pelo hombro: sabia os seus mais dissimulados segredos, era vago, subtil e tinha a mania de convencel-o.

Nao vaes ao Cemiterio ha muito tempo...

Era longe e triste o Araca: entretanto,

ele obcdeceu a suggestao. Estava em frente

jardim extranho da Memoria. Entre

arvores antigas, num arranjo colonial, uma

escadaria erguia-se em voltas ate o obelisco

secular.

Uma vez, paraste aí, com ela, vendo...

O pierrot preto desviou o olhar. Pelo centro, incendiando as mais altas fachadas, de

vermelho, de verde, os prestitos iam ainda.

Chegava ate ele o canto das cornetas heroicas.

Voltou. Andou em tropelias, em subitas

quietudes. Foi por travessas desertas tropecando.

E de repente viu que tinha sido conduzido a Rua da Boa Morte. No silencio, havia

lampeoes espacados de enterro e, la em baixo,

no Braz, um fervilhamento parado de luzes.

Defrontava a casa baixa. A sala tinha ficado aberta e escura. Uma mulher elegante,

moca, de chapeu, chegou a janella... O pierrot preto voltou, de hombros cahidos, a cabeca

cor de luar para a frente.

E o incubo lhe disse outra vez:

Agora, vamos ver a Santa Casa..

Havia horas ja que ele seguia o rastro

invisivel de Alma, pelas ruas onde ela anda-

va, pelas casas de armarinho, fechadas em cobertas ondeadas de ferro, pelas confeitarias

onde se haviam sentado juntos.

Ia agora rever o caminho amado da Rua

Scuvero. Mas um homem e um domino fizeram-no parar. O homem dizia-lhe:

-Senhor esculptor, como vae? Entao...

Jorge reconheceu o critico que o fizera

destruir a estatua de Alma e lamuriou um

bom dia sem sentido.

-Esta se divertindo tambem? continuou

O outro. Imagine que massada! E' prohibido

entrar nos bailes con mascara, depois de

meia-noite e eu nao posso desvendar este mysterio..

O domino que recobria um corpo de mulher, permanecia direito, inteirico. O critico

despediu-se. Jorge dizia-lhe num lamentoso

sorriso:

Sinto muito... Sinto muito..

E poz-se de novo a caminhar.

Bateram-lhe as costas com forca. Ele teve medo. Voltara-se andando sempre. Era um

sujeito de nariz enorme que chalaceava com

senhoras, a porta de uma tabacaria.

Que pierrot delicado!

Jorge, num subito tumulto de rua, dera

um encontrao numa mocinha de cabellos fartos e dcsfizera-se nervosamente em desculpas.

E ela ria com outra, comentando.

Chegou automaticamente ao Largo de Sao

Francisco. Um acampamento barbaro otcupava-o. Ao lado da estatua, no fundo, com as

engrenagens phantasticas paradas, as boleas

nuas, um irmmenso carro desdobrava-se na

feerica composicao de sua montagem. Pares

de mulas adornadas esperavam, atadas as redeas. Gente passava retirando-se. Taxis com

colombinas de gaze nos toldos faziam voltas

suaves; pierrots ornamentaes, em adaga que

se abria no tufo do pescoco, corriam galantemente; cavalleiros do prestito morto trotavam

pelas pedras. Atra do grande carro, outros

carros destacam-se, abandonados na desorganigacao final, processionaes e imensos. Os

ultimos folioes desciam para o chao. E Jorge

viu alguem agitar-se dentro de uma abobora

monstruosa. Estava de pagem. Tinha as pernas della, sob o busto apenas diminuido. E a

voz de Alma repetiu-lhe o nome inteiro.

Ela deixara o carro; andava pelas pedras

com o mesmo andar... veiu para o seu lado:

ele teve um impeto de levar as maos a cabeca e gritar. Quiz sapatear ali, com os olhos

engastados na que voltava. Era Milagre.

Parou no Piques. Bondes partiam apirhados. Subiu, andou. No centro, a festa terminava. Prestitos desciam ainda as ruas, de vagar,

na desorganizacao suada do fim, com boleas

vazias, cavalleiros a pe, a caminho dos Avernos. A banda montada de um, remexeu um

maxixe pulado, picadinho, bem marcado de

sons.

Uma maltrapilha que ia conduzindo a cabeca um molho monstruoso de fitas coloridas,

juntadas do chao, gingou. Riram em redor.

Empurraram o monte de ca, de la. O peso

enorme vacillou, calfiu —- e ela ficou apatetada. olhando Jorge d'Alvellos que passava.

-Bruto destino! Ruidos surdos dentro

da alma! Sao os ultimos desaterros que estrondam... Mas porque me doem tanto os

olhos? Parece que querem sahir fora das orbitas..

Ele ia ao Palacio das Industrias. Parou

na ponte de pedra sobre o Tamanduatehy que

transbordava em lago, depois dormia em canal para as bandas da Luz. Havia olhos vigilantes de torres, fixos, longe. E lampeoes e a

cidade e estrellas.no ceu... E a correnteza em

baixo, redobrada e murmurante.

O incubo disse-lhe ao ouvido :

- Se te atirasses, ias sahir na excrementeira da cidade..

Ao atravessar a palissada, pela primeira

vez o esculptor leu numa tabba, sobre o portao, em lettras pretas "Palacio das Industrias"

Contornou a imensa e muda construgcao em

acabamento. Penetrou. No corredor impreciso

e largo, erguiam-se maquettes alinhadas como

monumentos funereos.

O pierrot preto subiu tacteando as escadas. Eutrou no atelier, riscando um phosphoro.

Ao inesperado clarao vacilante, as estatuas tiveram

gestos recuados de ameaca.

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