Os Condemnados - Bloco 15
Em redor delle, o rio cantava e a floresta e O
vento, povoando o silencio de fogo.
Havia parado trinta e sete aynos k beira da
caudal fakirizante, onde nas noites o luar residia,
laminando as aguas puras dos igarapes. Idalia vinha
de Belem do Para, ele subira de Gogaz.
Alma crescera orpha, numa semi-nudez de pequena Ariel propicia, pelas mattas imoveis e incendiadas. E, com ele, nadava nas madrugadas diluvianas do rio solitario. Jacarés lodosos e sucurys
tentaculares vinham no rolo amarelo das aguas.
Na sombra do leito, o corpo vancido iniciava
a desorganisacao final, antes de ir purificar-se no
filtro imenso da terra. Pelos caminhos escleroticos
das veias, o sangue impotente coalhava-se.
Uma anfia de comodidade e de repouso movinentava-lhe os estertores. Pediu a vela num ruido
da bodca afflidta. Queria transpor, de cirio symbolico em punho, a porta das eternidades.
Appareceu sorrateiramente um padre gordo. O
quarto ficou uma capella de rogos.
glacialidade do fim estacou-lhe para sempre as canellas magras e jurntas. Bastiao urrou X
porta um choro barbaro que pog calafrios de odio
na impassibilidade de Seu Quincas.
E trouxeram-lhe a vela afinal, uma grande
vela agcesa e direita.
E appareceu no chapeul
Alma nao acreditara. E
de tafeta, para ver o corpo no caixao preto, ante
O espevitamento sensacional da rua.
Os seus olhos eram dois lagos verdes. Tinha
O gesto apalermado, os passos hesitantes.
Num espegtaculo mudo de soffrimento, calin
a uma cadeira do corredor, sem coragem de entrar,
e teve uma crise recurva de lagrimas.
Em redor, havia um mutismo choroso. Levantaram-na pelos hombros, levaram-na para a sala
de jantar, em silencio.
Mas, subito, ergueu-se supplicante, suffocada.
- Quero ver meu avo.
Foram com ela. Um cheiro de flores e de cera
espalhava-se entre gente.
Na meia-luz da camara mortuaria, os seus olhos
inundados buscaram o caixao cheio de dhalias vermelhas. Quedou-se alli,
segura por bracos compassivos. Mas, de repente, agitou-se, estremeceu e pediu meigamente ao vovo que falasse... para perdoaf-a..
Arrastaran-na para um sofa. E ela continuou
aos brados sonoros, numa declamacao rogatoria, a
supplicar.
Mas
um padre chegou. Era outro —— frio,
metallico, magro e impassivel. Levoui-a para dentro
intimativamente.
Haviam-lhe tirado tudo.Deixaram-na transportar a roupa,a boneca quebrada,a cama sem
lencoes.
Ela sabia que nao se pode parar com a mao
a roda gigante do destino.
Mas, dentro della, estuava uma conpensacao de
mocidade farta. Nas suas lagrimas, havia sorrisos
dle saude. Foi-se esquecendo de tudo, pelas ruas, sol
o ceu azul e benefico, até a casa de D. Genoveva.
namorando. Atrad
Um moco passou por ela
uma carroca levava vigtoriosamente a sua fortuna.
Houve um pequeno guignol na missa de 7.o dia.
Trouxera o caozinho pellido. A cozinheira levara o moleque, cestas e panellas.
D. Genoveva soffria da aorta e, pedalando a
ma&hina de costura, ao seu lado, na sala, queixava-se.
capitao sahia sempre num faiscar de galoes.
E seu Julinho, grosso e baixote, enternecia o am-
biente com os seus olhos de homem batido e as cordas solucantes do seu pinho. Ante a miraculosa
apparicao, fulva e fina, na casa enegrecida, redobrara a sua intuicao de poesia das coisas. Agora, do
quarto da frente vinham nas manhas, sons bambos, sons quentes, sons inquietos.
Calava-se o vialao dorido. Seu Julinho partia para a Secretaria, onde era continuo. Ia jantar
com pinga, num restaurante baixo da Rua Formosa.
E nas noites estrelladas la em cima, quando o
telegrapfista vinha para o casto noivado com Maria Magdalena, na sala atravancada de roupinhas
auguraes, o violao dizia a dor e o milagre e a ardencia daquella pobre gente, naquela pobre rua.
O ventre augmentava. La dentro a vida crqada
pulava, num trapezio inquieto. E a sua carnacao
aleitara-se, ameigara-se o seu tragico sorriso: num
reconhecimento os seus olhos eram da cor sentimental da esperanca.
O telegrapaista nao gostava que ela lhe falasse
Ela comprehendia, desviava o curso
instingtivo.
das ideas, clirava-o.
Passou a vender servicos de costura. O telegraphista pagava dedicadamente o quarto.
Por um cahir violento de tarde, ela sentiu, com
a vista escura, as primeiras dores.
Joao do Carmo avisado, accorreu, desesperou-se
e partiu para nao escutar nem saber. No trabalho
nogturno, tinha ouvidos longe, na casa, onde o drama
entre cobertas, ajudado
passava
creacao
pela paciente experiencia de D. Genoveva.
Aaaaaaa! Aaaaaaaaaaaaaa!
Na penumbra amarela de lamparina, o canto
materno resoou, bateu as paredes altas, ecoou.
A mulher de festivo chino, com os dentes para
fora da bogca, tinha preparado tudo. E disse:
E' agora. Forca, minha filha! Coragem!
Alma suava na geladeira dos lencoes. Tinha a
cabeca vermelha virada, a bogca entre-aberta, os
olhos roxos.
Aaaaa! Aaaaaaaaaaaaa!
E la no amago, no profundo do corpo, junto
as costas, arrancavam-lhe ossos vivos.
Forca!Faca forca!
Puxavam-lhe os rins, esticavam-lhe a colunhna
vertebral, estracalhavam-lhe as cadeiras, implacavelnente.
-'Tenha paciencia...
E a mulher de mao velyuidosa, passou o bleo
bento que trouxera, pela montanha empedernida e
alva.
Pouco a pouco, a dor se foi amortecendo, entrando. E ela sentiu a consoladora vontade de avistar o ser martyrizante que ia vir. Ia nascer o seu
filhinho...
-Aaa! Aaaaa! Aaaaaaaaaaaaaa!
A dor cresceu de novo, avassalou a natureza
que creava... Era a dor decisiva, inevitavel, firme,
sem respiracao, sem descango, sem tregua.
Faca forca! Faca forca!
Alma estagnara, as pernas em tesoura, num
umpeto indizivel, teso, de todas as suas vontades
dispersas. Queria afrouxar como nos intervallos anteriores, parar: nao podia... Uma imperativa enerconcentracao
gia macerava-lhe as entranhas
nuima
violenta de caminhos abertos.
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
O canto materno cresceul pelas parcdes acima,
em busca do ceu nogturno.
- Se-nho-ra-do-par-to!