A Escada - Bloco 24 A Trilogia do Exílio · Capítulo 79 de 87
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A Escada - Bloco 24

Enquanto

trabalhava recordacoes e debates voltavam.

Resolveu passar a obra para o marmore.

Vinha-lhe a memoria minuciosa do tem

po, os mesmos dias como aqueles, interminados, e as tragedias revivem de minuto a mi

nuto, a cruz prego a prego. Os contactos com

Gulnare eram o canto da felicidade, de novo

A ESCADA VERMELHA.

pressentida. As flores rubras do sexo, os seios

abotoados.

Os acontecimentos da existencia tinham

tido sempre para ele um sentido espetaculoso.

Nas horas de angustia, ele se sentia desdobrar numa instintiva curiosidade da propria tragedia. Raras vezes soubera defenderse. Numa dadivosa entrega, fora sempre a

oferta vitimal de se mesmo.

Brincara com o mais doloroso dos destinos, e achara nele o seu infantil divertimento.

Visitou Nora. E ela contou-lhe que estava para se casar. Queria dar-lhe a despedida

do amor.

Jorge conservava-se imovel, sem crer, no

OSWALD DE ANDRADE

diva do grande quarto, sob as janelas cerradas, acariciado pela seda do pijama dela.

Encontrara a vitima definitiva de seu torturado caminho.

Tem fortuna?

Nao tem.

Teras que restringir as tuas necessidades de luxo. Diminuiras a tua vida?

— Por que nao? O luxo é necessario para enganar a desgraca. So para isso.

Ficou parada, recurva, fulva, os olhos

de mostarda num ponto.

Quem é? murmurou Jorge.

Um homem que alugou um quarto

na casa ai do lado. Um homem magro, esgueirado. Nem nome tem. Mas tem um caso como

eu. E' uma ruina.

Havia um piano na noite.

Que doloroso coracao o seu!

A EsCADA VERMELHA

Seria possivel que o mundo nao tivesse

mudado? Seria possivel que tudo existisse

como antigamente, numa eternidade de coisas e de gestos? Os mendigos das estradas, O

medo, os beneficios inesperados, o assassinio

e a dor como em todas as hislorias de todos

os livros?

Ou era ele que estagnava inutil, idiota,

amesquinhado?

Toda a sua revolta do inicio que o fizera um out-lav, fora afinal atenuada, desviada, amortecida. Chegara ao catolicismo. Chegara ao panteismo na ilha.

Era o morador burgues daquela chacara

burguesa. Tinham-lhe imposto um carater

sentimental e timido. Tenazmente, disfarcadamente. A pouco e pouco, lhe haviam quebrado o impeto dos pulsos herculeos.

Embebedara-se do meio cretino e frouxo, a sua vida tinha sido uma imbecil domesticacao, uma reducao do ser revoltado, imposta por tudo e por todos.

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Mas no fundo guardava ainda energias in

tactas. Ir-se--ia embora. Quebraria de qualquer maneira o exilio que sentia crescer agora, na maturidade. O infinito abrir-se-ia ainda

a chave da vontade.

Refugiava-se avidamente no plano esteti

co. Dava-lhe um grande sentido vocacional,

pensando em sua mae que havia olhado para

o futuro com aqueles mesmos olhos seus daquela noite.

Gulnare prendia-o, mediocrizava-o. Acabaria casado e corno como toda a gente de

boa sociedade. A sua concentracao sentimental espedacava-se num beijo lubrico contra o

marmore da menina.

Parava assombrado ante o nu que acordava na obscuridade.

La dentro ia um desmantelamento. E o

rosto? Como estaria o rosto naquele minuto,

a mascara?

Parava ante a misteriosa angustia da

obra realizada. Fizera aquilo sem pensar, jo-

A ESCADA VERMELHA

gando numa brutalidade de formas o nu adivinhado e palpitante que desejava. Agora, de

subito,aquelas carnes falavam, clamavam

nas dobras, nas linhas, nas incriveis ondulacoes.

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