A Escada - Bloco 24
Enquanto
trabalhava recordacoes e debates voltavam.
Resolveu passar a obra para o marmore.
Vinha-lhe a memoria minuciosa do tem
po, os mesmos dias como aqueles, interminados, e as tragedias revivem de minuto a mi
nuto, a cruz prego a prego. Os contactos com
Gulnare eram o canto da felicidade, de novo
A ESCADA VERMELHA.
pressentida. As flores rubras do sexo, os seios
abotoados.
Os acontecimentos da existencia tinham
tido sempre para ele um sentido espetaculoso.
Nas horas de angustia, ele se sentia desdobrar numa instintiva curiosidade da propria tragedia. Raras vezes soubera defenderse. Numa dadivosa entrega, fora sempre a
oferta vitimal de se mesmo.
Brincara com o mais doloroso dos destinos, e achara nele o seu infantil divertimento.
Visitou Nora. E ela contou-lhe que estava para se casar. Queria dar-lhe a despedida
do amor.
Jorge conservava-se imovel, sem crer, no
OSWALD DE ANDRADE
diva do grande quarto, sob as janelas cerradas, acariciado pela seda do pijama dela.
Encontrara a vitima definitiva de seu torturado caminho.
Tem fortuna?
Nao tem.
Teras que restringir as tuas necessidades de luxo. Diminuiras a tua vida?
— Por que nao? O luxo é necessario para enganar a desgraca. So para isso.
Ficou parada, recurva, fulva, os olhos
de mostarda num ponto.
Quem é? murmurou Jorge.
Um homem que alugou um quarto
na casa ai do lado. Um homem magro, esgueirado. Nem nome tem. Mas tem um caso como
eu. E' uma ruina.
Havia um piano na noite.
Que doloroso coracao o seu!
A EsCADA VERMELHA
Seria possivel que o mundo nao tivesse
mudado? Seria possivel que tudo existisse
como antigamente, numa eternidade de coisas e de gestos? Os mendigos das estradas, O
medo, os beneficios inesperados, o assassinio
e a dor como em todas as hislorias de todos
os livros?
Ou era ele que estagnava inutil, idiota,
amesquinhado?
Toda a sua revolta do inicio que o fizera um out-lav, fora afinal atenuada, desviada, amortecida. Chegara ao catolicismo. Chegara ao panteismo na ilha.
Era o morador burgues daquela chacara
burguesa. Tinham-lhe imposto um carater
sentimental e timido. Tenazmente, disfarcadamente. A pouco e pouco, lhe haviam quebrado o impeto dos pulsos herculeos.
Embebedara-se do meio cretino e frouxo, a sua vida tinha sido uma imbecil domesticacao, uma reducao do ser revoltado, imposta por tudo e por todos.
OSWALD DE ANDRADE
Mas no fundo guardava ainda energias in
tactas. Ir-se--ia embora. Quebraria de qualquer maneira o exilio que sentia crescer agora, na maturidade. O infinito abrir-se-ia ainda
a chave da vontade.
Refugiava-se avidamente no plano esteti
co. Dava-lhe um grande sentido vocacional,
pensando em sua mae que havia olhado para
o futuro com aqueles mesmos olhos seus daquela noite.
Gulnare prendia-o, mediocrizava-o. Acabaria casado e corno como toda a gente de
boa sociedade. A sua concentracao sentimental espedacava-se num beijo lubrico contra o
marmore da menina.
Parava assombrado ante o nu que acordava na obscuridade.
La dentro ia um desmantelamento. E o
rosto? Como estaria o rosto naquele minuto,
a mascara?
Parava ante a misteriosa angustia da
obra realizada. Fizera aquilo sem pensar, jo-
A ESCADA VERMELHA
gando numa brutalidade de formas o nu adivinhado e palpitante que desejava. Agora, de
subito,aquelas carnes falavam, clamavam
nas dobras, nas linhas, nas incriveis ondulacoes.