A Escada - Bloco 11 A Trilogia do Exílio · Capítulo 66 de 87
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A Escada - Bloco 11

Quis cantarolar. Mas uma subita tristeza

emudeceu-a. Teve uma subita queda de cabeca solucante. Tremia toda, pequenina, humi

lhada, numa imprevista confissao de miseria

integral.

Jorge olhou a mesa onde os objetos permaneciam.

Uma altercacao imprevista,brutal esperava-o no escritorio central do engenheiro Gar

cas. Negavam-lhe brutalmente qualquer indenizacao pelos custosos trabalhos da cripta que

fora recusada a pretesto de modernismo.

— Eu o conheco! berrou o homenzinho

entroncado.

Jorge zangou-se. O outro quis po-lo na

rua. Ele entao atirou-se, bateu.

A ESCADA VERMELHA

Empregados acorridos de toda parte

acudiam. O homem chorava. Tinha a cara

ensanguentada, os olhos feridos.

Jorge compreendeu que devia fugir.

Procurou a escada, saiu.

Sentia-se masculo, sentia-se homem.

Talvez a sua atitude o perdesse. Nao haveria mais recurso algum. Tomavam-lhe os

trabalhos sem pagar.

No regime capitalista, era assim. Ele se

endividara para produzir..

Mas sentia-se masculo, sentia-se homem.

Carlos Bairao fe-lo dormir na sua garconiere. E de manha, preparando uma viagem

OSWALD DE ANDRADE

as pressas, po-lo na sua Cadilac veloz. Mascarou-o com oculos enormes de excursao.

Foram buscar uma maleta de roupas no

Clarim, o que Castro atarantado emprestou.

Passaram os portoes do Caminho do Mar.

Desceram a serrania num panorama de calor.

Estavam em Santos. Chegaram a um hotel. Carlos entao contou-lhe que contra ele tinha sido dada uma queixa-crime. Os jornais,

vendidos as classes ricas, agravavam a agressao.Envolviam numa infame suspeita de des

honestidade o artista lesado.

Jorge acordou na manha do quarto desconhecido. E viu Carlos Bairao e um outro

rapaz, alto, elegante, forte. Era Claro Dutra

que lhe vinha propor como refugio seguro,

enquanto as coisas nao se aclarassem em

Sao Paulo, a ilha Verde em frente ao litoral.

Numa confusao de ideias que o cansaco

A ESCADA VERMELHA

amortecia, Jorge agradeceu o apoio que lhe

traziam. Os dois amigos falavam diante dele,

semi-acordado no leito. A ilha era quasP desconhecida. Frequentavam-na apenas os praticos que iam esperar os vapores na barra.

Gente fiel. Num pavilhao abandonado morava uma familia de pescadores que perdera o

chefe. O maritimo Quim Joao zelaria pela

sua seguranca.

A'Marina'trepidou na Ponta da Praia. Os

homens da lancha manobraram. Jorge chegou

mais para junto do banco onde ficara a maleta de Castro, minuscula, de tela, onde tinha toda a sua roupa. Uma alegria de esca

par a possiveis presidios, tomou-o. E sentiu

com felicidade o mar do exilio, baloucante,

liquido e imenso.

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