A Escada - Bloco 11
Quis cantarolar. Mas uma subita tristeza
emudeceu-a. Teve uma subita queda de cabeca solucante. Tremia toda, pequenina, humi
lhada, numa imprevista confissao de miseria
integral.
Jorge olhou a mesa onde os objetos permaneciam.
Uma altercacao imprevista,brutal esperava-o no escritorio central do engenheiro Gar
cas. Negavam-lhe brutalmente qualquer indenizacao pelos custosos trabalhos da cripta que
fora recusada a pretesto de modernismo.
— Eu o conheco! berrou o homenzinho
entroncado.
Jorge zangou-se. O outro quis po-lo na
rua. Ele entao atirou-se, bateu.
A ESCADA VERMELHA
Empregados acorridos de toda parte
acudiam. O homem chorava. Tinha a cara
ensanguentada, os olhos feridos.
Jorge compreendeu que devia fugir.
Procurou a escada, saiu.
Sentia-se masculo, sentia-se homem.
Talvez a sua atitude o perdesse. Nao haveria mais recurso algum. Tomavam-lhe os
trabalhos sem pagar.
No regime capitalista, era assim. Ele se
endividara para produzir..
Mas sentia-se masculo, sentia-se homem.
Carlos Bairao fe-lo dormir na sua garconiere. E de manha, preparando uma viagem
OSWALD DE ANDRADE
as pressas, po-lo na sua Cadilac veloz. Mascarou-o com oculos enormes de excursao.
Foram buscar uma maleta de roupas no
Clarim, o que Castro atarantado emprestou.
Passaram os portoes do Caminho do Mar.
Desceram a serrania num panorama de calor.
Estavam em Santos. Chegaram a um hotel. Carlos entao contou-lhe que contra ele tinha sido dada uma queixa-crime. Os jornais,
vendidos as classes ricas, agravavam a agressao.Envolviam numa infame suspeita de des
honestidade o artista lesado.
Jorge acordou na manha do quarto desconhecido. E viu Carlos Bairao e um outro
rapaz, alto, elegante, forte. Era Claro Dutra
que lhe vinha propor como refugio seguro,
enquanto as coisas nao se aclarassem em
Sao Paulo, a ilha Verde em frente ao litoral.
Numa confusao de ideias que o cansaco
A ESCADA VERMELHA
amortecia, Jorge agradeceu o apoio que lhe
traziam. Os dois amigos falavam diante dele,
semi-acordado no leito. A ilha era quasP desconhecida. Frequentavam-na apenas os praticos que iam esperar os vapores na barra.
Gente fiel. Num pavilhao abandonado morava uma familia de pescadores que perdera o
chefe. O maritimo Quim Joao zelaria pela
sua seguranca.
A'Marina'trepidou na Ponta da Praia. Os
homens da lancha manobraram. Jorge chegou
mais para junto do banco onde ficara a maleta de Castro, minuscula, de tela, onde tinha toda a sua roupa. Uma alegria de esca
par a possiveis presidios, tomou-o. E sentiu
com felicidade o mar do exilio, baloucante,
liquido e imenso.