A Estrella de Absyntho - Bloco 16
Subiria ate la, a ver o que
desejavam fazer por ele.
Chegara ao Teatro Boa Vista, ia subir ao
andar superior. Um homm estava parado na
calcada: era ele, o desconhecido, na sua imperturbavel mocidade. Tinha um feltro claro,
o collarinho alto, um water-proof elegantemente enrolado no braco.
Invadiu Jorge uma vaga vontade de destruil-bo, estava armado..
Depois, como estacasse, teve medo de ser
percehido pelo outro. Escondeu-se a entrada
do teatro, com cartazes na porta. E ficou alli,
olhando para o homem, como para qualquer
coisa de enorme na sua vida, qualquer prodigio funesto e invencivel, contra o qual nem
pudera lugtar. Era como um raio, um castigo
supremo, uma forca obscura da natureza ou
do destino.
Na sua analyse angustiada, o esculptor
percebeu que ele era bello.
Teve uma vontade enorme de fazer parar os transeuntes, apontalo, discutifb, indagar se os outros achavam nelle alguma coisa
de sobrenatural que lhe desse o direito de
amontoar ruinas assim.
O homem despegou as pernas baloucantes, finas, na calca cinza; andou indifferente,
dobrou a esquina da Rua do Rosario.
Jorge seguiu pensando como encontraria
o outro, o assassino, Mauro Glade.
Na garoa vermelha, agcesas em focos irregulares, nos bicos de luz dos combustores,
o artista caminhava.
Trabalhara o dia todo, sahindo apenas
uma vez para comer num hotel das vizinhancas da Estacao do Braz
Desde a tragedia maxima de sua vida,
nao tivera um dia de tao grave labuta material. Haviam-no forcado a mudar de sala, por
causa da exposicao annual no Palacio.
Comecara cedo. o
trabalho brutal da
fransposicao das estatuas e dos cavalletes para
o pavilhao superior, o mesmo onde destruira
a estatua de Alma.
Interrompera tudo com o cahir funerario
da noite sobre a Varzea. E no crepe gelado daquelle bastidor de inverno extemporaneo, fora olhar, do alto torreao, as luzes encarvoadas
dos bairros interminos e, por cima, o paredao
encasarado do centro, com mil janellas bacas.
Permanecera em repouso no divan do atelier improvisado ate mais de dez horas. Sahira com frio no agasalho fraco do seu velho
capote de Roma.
Nao encontrou ninguem na Varzea. Mas
subindo, no desconforto do $cenaric pobre de
casas baixas de uma ladeira, passou por ele,
solucando alto num lenco, um vulto magro,
de casquette. Parecia um vagabundo adolescente de estampa.
Jorge parou, voltou-se interessado, vendo-o abrandar os passos.
Era um pequeno de grandes olhos e rosto
moreno. Tinha um braco em tipoia, duro e enrolado. Obstinava-se no choro falso que comecara:
O soldado nao quer que eu peca esmola... Disse que me prende...
No claro, Jorge percebeu-lhe a botca polpuda e vermelha de mulher, recortada sobre
dentes alvos e grandes, os olhos pestanudos e
canalhas:
- E esse braco?
Foi meu pae que me deu uma paulada. Eu cahi... Estive na Santa-Casa.
- Venha comigo.
O rapazola de casquetfe e o artista subiram. Um grupo de homens encontrou-os e todos os olhos se fixaram no adolescente iymmundo. Jorge sentia, inilludivel, crescente, vigtoriosa dentro delle, uma presciencia de diabolica ventura. Trancara todas as portas do
cerebro aos raciocinios. E caminhava ao lado
do mendigo como se levasse para o primeiro
encontro uma mulher amada.
Na Rua do Carmo, um typo de barriga e
bigodes, num sobretudo castanho, fitou-os
num espanto cynico.
Jorge affroxou a marcha. Veiu-lhe um absurdo ierror de se ver denunciade do aeto
que meditava. Passos resoavam atraz delle.
O homem de barriga e bigodes, no sobretudo,
passou, olhou numa verificacao cheia de desaforos. Acreditara talvez ser uma mulher desfarcada o maltrapilho lindo sob a casquette.
Parou entre arvores, a entrada do Largo da
Se, por onde eles iam, para ver novamente.
Jorge adivinhou-lhe todos os pensamentos. E
a sua volupia cresceu.
Atravessaram o Triangulo distanciados.
O homem partira. Estavam em frente ao
Conservatorio. Jorge abriu a porta pesada. E
sem dizer palavra o vagabundo entrou.
Amanhecia.
Fel-o, calcar velhos sapatos, trazidos da
Europa. Ele embrulhou os outros, amarellos,
de elasticos, escarnados nas pontas. E partiu.
O esculptor deitou-se pensando em comeqar bem cedo, na manha gelada do novo atelier, a estatua monumental do seu “Santo Satyro" que projedtara uma vez em Roma, nos
o vagabundo volbons tempos idos. Depois...
taria, seria o seu modelo. Ele abrandar-lheia a carne aspera, laval-o-ia, fal-b-ia seu..
Na noite seguinte, mordido de remorsos
inuteis, Jorge deixou o Palacio mais cedo,
para nao encontrar o mendigo cynico.
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E ele la estava na ladeira, agora cortada
de transeuntes, sentado a uma soleira de porta confusa. Vendera de-certo os sapatos do
esculptor, pois tinha efcarrapachados sobre a
lama da calcada, os mesmos pes anarellos e
rasgados da vespera. Baixou repentinamente
a cabeca aos joelhos unidos, escondendo, sob
o escudo da casquette, o rosto lindo e o braco
partido.
+ Jorge d'Alvellos sentara-se ao fundo da
barca trepidante que conduzia os convidados
para a llha Verde, na noite rumorosa de estrellas.
Claro Dutra ficara em terra para levar as
mulheres em outra lancha. E alem dtlle e dos
homens do motor, iam naquella embarcacao,
Carlos Byron, Torresvedras, Lino de Albuquerque e Bruno de Alfenas.
A praia, em circulo de areia, despejava
laminas de claridade sobre o mar encrespado.
Havia milhares de estrellas, algumas enormes, ardentes, irregulares.
Os rapazes riam, cantavam. Apenas Jorge
d'Alvellos olhava num humor negro a phos-
phorescencia das aguas molles que iam recortando.
A costa esquivava-se ao longe com massas
de arvores.
E ate o silencioso Torresvedras se deixara
empolgar pela magia da noite scenica. Na sua
voz de harytono, lamuriosa, cantante, trauteava uma cancao do Brasil que compuzera.
Cessou. Houve um tumulto de risos. Bruno
tinha feito uma partida a Lino de Albuquerque, que protestava. Este agora lancara com
a voz anasalada, saudosa, uma cantiga gaucha.
Para Jorge d'Alvellos, humilhado, recurvo, amarfanhado no seu canto, tudo amargava. Olhou o amplo ceu e viu uma estrella vacillar, cahir sobre as aguas. Tinha uma alma
de losna: todas as fontes da vida estavam envenenadas para 'ele.
Sobre o mar, a voz de Lino cantava.
carnaval chegara com guinchos, pandemonios, de cornetas e bombos.
Pelas ruas, comecavam os atravancamentos de vehiculos adornados, anormaes, a impor a festa que o calendario marcava.
No domingo, Jorge saiu ao léb, de capa
sob o braco, receando a chuva que o ceu indeciso apnunciava. Desceu ao Palacio das Industrias, encontrando pelo caminho sujeitos
pingados de alvaiade, com narizes posticos,
flores berrantes de papel na botoeira, e serios,
casmurros, fechados, num andar de quem nao
admitte brincadeiras.
Era o Carnaval de Sao Paulo.
Por toda a cidade, havia de pairar qualquer coisa de heroico, de solemne.