A Estrella de Absyntho - Bloco 16 A Trilogia do Exílio · Capítulo 43 de 87
Obra Menu

A Estrella de Absyntho - Bloco 16

Subiria ate la, a ver o que

desejavam fazer por ele.

Chegara ao Teatro Boa Vista, ia subir ao

andar superior. Um homm estava parado na

calcada: era ele, o desconhecido, na sua imperturbavel mocidade. Tinha um feltro claro,

o collarinho alto, um water-proof elegantemente enrolado no braco.

Invadiu Jorge uma vaga vontade de destruil-bo, estava armado..

Depois, como estacasse, teve medo de ser

percehido pelo outro. Escondeu-se a entrada

do teatro, com cartazes na porta. E ficou alli,

olhando para o homem, como para qualquer

coisa de enorme na sua vida, qualquer prodigio funesto e invencivel, contra o qual nem

pudera lugtar. Era como um raio, um castigo

supremo, uma forca obscura da natureza ou

do destino.

Na sua analyse angustiada, o esculptor

percebeu que ele era bello.

Teve uma vontade enorme de fazer parar os transeuntes, apontalo, discutifb, indagar se os outros achavam nelle alguma coisa

de sobrenatural que lhe desse o direito de

amontoar ruinas assim.

O homem despegou as pernas baloucantes, finas, na calca cinza; andou indifferente,

dobrou a esquina da Rua do Rosario.

Jorge seguiu pensando como encontraria

o outro, o assassino, Mauro Glade.

Na garoa vermelha, agcesas em focos irregulares, nos bicos de luz dos combustores,

o artista caminhava.

Trabalhara o dia todo, sahindo apenas

uma vez para comer num hotel das vizinhancas da Estacao do Braz

Desde a tragedia maxima de sua vida,

nao tivera um dia de tao grave labuta material. Haviam-no forcado a mudar de sala, por

causa da exposicao annual no Palacio.

Comecara cedo. o

trabalho brutal da

fransposicao das estatuas e dos cavalletes para

o pavilhao superior, o mesmo onde destruira

a estatua de Alma.

Interrompera tudo com o cahir funerario

da noite sobre a Varzea. E no crepe gelado daquelle bastidor de inverno extemporaneo, fora olhar, do alto torreao, as luzes encarvoadas

dos bairros interminos e, por cima, o paredao

encasarado do centro, com mil janellas bacas.

Permanecera em repouso no divan do atelier improvisado ate mais de dez horas. Sahira com frio no agasalho fraco do seu velho

capote de Roma.

Nao encontrou ninguem na Varzea. Mas

subindo, no desconforto do $cenaric pobre de

casas baixas de uma ladeira, passou por ele,

solucando alto num lenco, um vulto magro,

de casquette. Parecia um vagabundo adolescente de estampa.

Jorge parou, voltou-se interessado, vendo-o abrandar os passos.

Era um pequeno de grandes olhos e rosto

moreno. Tinha um braco em tipoia, duro e enrolado. Obstinava-se no choro falso que comecara:

O soldado nao quer que eu peca esmola... Disse que me prende...

No claro, Jorge percebeu-lhe a botca polpuda e vermelha de mulher, recortada sobre

dentes alvos e grandes, os olhos pestanudos e

canalhas:

- E esse braco?

Foi meu pae que me deu uma paulada. Eu cahi... Estive na Santa-Casa.

- Venha comigo.

O rapazola de casquetfe e o artista subiram. Um grupo de homens encontrou-os e todos os olhos se fixaram no adolescente iymmundo. Jorge sentia, inilludivel, crescente, vigtoriosa dentro delle, uma presciencia de diabolica ventura. Trancara todas as portas do

cerebro aos raciocinios. E caminhava ao lado

do mendigo como se levasse para o primeiro

encontro uma mulher amada.

Na Rua do Carmo, um typo de barriga e

bigodes, num sobretudo castanho, fitou-os

num espanto cynico.

Jorge affroxou a marcha. Veiu-lhe um absurdo ierror de se ver denunciade do aeto

que meditava. Passos resoavam atraz delle.

O homem de barriga e bigodes, no sobretudo,

passou, olhou numa verificacao cheia de desaforos. Acreditara talvez ser uma mulher desfarcada o maltrapilho lindo sob a casquette.

Parou entre arvores, a entrada do Largo da

Se, por onde eles iam, para ver novamente.

Jorge adivinhou-lhe todos os pensamentos. E

a sua volupia cresceu.

Atravessaram o Triangulo distanciados.

O homem partira. Estavam em frente ao

Conservatorio. Jorge abriu a porta pesada. E

sem dizer palavra o vagabundo entrou.

Amanhecia.

Fel-o, calcar velhos sapatos, trazidos da

Europa. Ele embrulhou os outros, amarellos,

de elasticos, escarnados nas pontas. E partiu.

O esculptor deitou-se pensando em comeqar bem cedo, na manha gelada do novo atelier, a estatua monumental do seu “Santo Satyro" que projedtara uma vez em Roma, nos

o vagabundo volbons tempos idos. Depois...

taria, seria o seu modelo. Ele abrandar-lheia a carne aspera, laval-o-ia, fal-b-ia seu..

Na noite seguinte, mordido de remorsos

inuteis, Jorge deixou o Palacio mais cedo,

para nao encontrar o mendigo cynico.

131—

E ele la estava na ladeira, agora cortada

de transeuntes, sentado a uma soleira de porta confusa. Vendera de-certo os sapatos do

esculptor, pois tinha efcarrapachados sobre a

lama da calcada, os mesmos pes anarellos e

rasgados da vespera. Baixou repentinamente

a cabeca aos joelhos unidos, escondendo, sob

o escudo da casquette, o rosto lindo e o braco

partido.

+ Jorge d'Alvellos sentara-se ao fundo da

barca trepidante que conduzia os convidados

para a llha Verde, na noite rumorosa de estrellas.

Claro Dutra ficara em terra para levar as

mulheres em outra lancha. E alem dtlle e dos

homens do motor, iam naquella embarcacao,

Carlos Byron, Torresvedras, Lino de Albuquerque e Bruno de Alfenas.

A praia, em circulo de areia, despejava

laminas de claridade sobre o mar encrespado.

Havia milhares de estrellas, algumas enormes, ardentes, irregulares.

Os rapazes riam, cantavam. Apenas Jorge

d'Alvellos olhava num humor negro a phos-

phorescencia das aguas molles que iam recortando.

A costa esquivava-se ao longe com massas

de arvores.

E ate o silencioso Torresvedras se deixara

empolgar pela magia da noite scenica. Na sua

voz de harytono, lamuriosa, cantante, trauteava uma cancao do Brasil que compuzera.

Cessou. Houve um tumulto de risos. Bruno

tinha feito uma partida a Lino de Albuquerque, que protestava. Este agora lancara com

a voz anasalada, saudosa, uma cantiga gaucha.

Para Jorge d'Alvellos, humilhado, recurvo, amarfanhado no seu canto, tudo amargava. Olhou o amplo ceu e viu uma estrella vacillar, cahir sobre as aguas. Tinha uma alma

de losna: todas as fontes da vida estavam envenenadas para 'ele.

Sobre o mar, a voz de Lino cantava.

carnaval chegara com guinchos, pandemonios, de cornetas e bombos.

Pelas ruas, comecavam os atravancamentos de vehiculos adornados, anormaes, a impor a festa que o calendario marcava.

No domingo, Jorge saiu ao léb, de capa

sob o braco, receando a chuva que o ceu indeciso apnunciava. Desceu ao Palacio das Industrias, encontrando pelo caminho sujeitos

pingados de alvaiade, com narizes posticos,

flores berrantes de papel na botoeira, e serios,

casmurros, fechados, num andar de quem nao

admitte brincadeiras.

Era o Carnaval de Sao Paulo.

Por toda a cidade, havia de pairar qualquer coisa de heroico, de solemne.

1/1
Menu

Fazer anotação