Sonetos - bloco 02 (p. 193-200) Obra Completa, Volume I · Capítulo 2 de 90
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Sonetos - bloco 02 (p. 193-200)

MEU DECASSILABO

A NATUREZA que seus filhos gera, e qual Saturno os próprios filhos mata, deu-te a noção a pouco e pouco exata, dêsse final que trãgico te espera I

Ser feliz por completo é uma quimera ... Ao lado d'alma boa anda a insensata, como às vêzes no Bom surge uma inata e atávica tendência de ser fera ...

Por mais indefectível que pareças, Homem, serás duma outra vida a imagem, pois justo é que tu nasças e pereças,

- herdeiro dos pavores do Selvagem e dos vícios, das dores, das desgraças originárias de milhões de raças ... O Norte, Maceió, 1913.

VILA DE LEOPOLDINA

A MINHA ALMA DE nômade, mestiça, vem por três raças, apagada e acesa, ouvindo trovas, escutando missa e descantes de quadra portuguêsa.

Por minha fé, meu Rei, é de justiça que eu dê três vivas à Imperial Princesa, e em meio ao gáudio, que a minh'alma atiça, tenha-a mais cheia da ancestral tristeza.

194 JORGE DE LIMA. I OBRA. COMPLETA I VOLUME I

Que é minha a sorte incógnita das frotas que despejaram nessa terra o Iôdo da escravidão do negro e dos ilotas ...

Daí promana minha nostalgia, com três nevroses que me abalam todo, qual três descargas de mosquetaria. Jornal de Alagoas, Maceió, 1914.

EPICICLO

ALMA, SÊ FORTE; corpo, sê robusto ! Nesse conflito atávico e instintivo Sê como o gênio que possante e altivo Constrói antes de morto o próprio busto !

Refreia o teu instinto e o doma a custo Da dor - da grande dor de sêres vivo ... Eu quero I - êsse presente indicativo Otávio a conjugá-lo fêz-se Augusto. . . ·

Mas nunca concretizes teu ideal ! Um ideal realizado é um transparente Fruto que ao ser provado sabe mal !

O artista é como o Errático do mito: Onde pensa que é o fim, surge-lhe à frente A estrada interminável do Infinito ! Renascença, Maceió, 1914.

B~LGICA (Distribuído durante a Grande Guerra.)

REUNIRA o mestre-escola a meninada: "Que me diz sôbre a Bélgica o primeiro ?" "A Bélgica morreu carbonizada no calor de seu ímpeto guerreiro ... "

.\• l.'if.TOS 195

.. A Bélgica afinal fôra imprensada ... " O segundo falou. Como o terceiro, o quarto, o quinto : quase o curso inteiro repetiu una voce a mesma toada. Entretanto o mais velho, um rapazola rebelde como Brutus, respondera : "que iria desgostar o mestre-escola, mas pensava que a Bélgica vencera; pois que vence o que paga o último preito, sucumbindo em defesa do Direito !"

A LÁGRIMA Ao DESGRAÇADO, ao réu, ao pecador, que importa! Es um alívio presto, um confôrto, um alento ! Quantas vêzes oh ! céus, a lágrima conforta O que diz a Saudade e o que fala o Tormento ! Do desejo que nasce, à Paixão que está morta, A lágrima completa o universal concento ... Atentai no meu estro: ela convence e exorta Qual se fôra um gemido, um soluço, um lamento ! Quando a voz titubeia, agonizante, louca, E a paixão quer falar e se constrange e cala, É a lágrima que diz o que não diz a bôca ...

A lágrima, meu Deus ! que não tem voz nem fala, É tão boa ! parece um confidente mudo Que, assim mesmo, sem voz e sem falar, diz tudo! 11 abril 1915.

O PENSAMENTO

UM DIA me ofertaste um terrível problema, E sigo a pesquisar-te em cérebros solares,

E todos têm de ti o complicado esquema Que sempre lobriguei em cérebros vulgares !

Mas certo, és como Deus um poderoso emblema, E se és micra na trama e junções celulares E se és núcleo e matéria e neurônio e sistema, E.s como Deus maior do que a terra e que os mares!

E vibras em mim próprio e êsses versos são teus, E me ditas sorrindo os teus sábios mistérios E é por isso que eu chamo os teus mistérios meus I ~s o meu próprio ser e minha Arte e meu Norte, E se vences o tempo e a paz dos cemitérios, Eu vencerei também como tu próprio - a Morte ! Frou-Frou, 1915.

MANGUE

COMO SE NASCE plátano ou carvalho Eu nasci mangue no meu pátrio solo. Enquanto alteio em meu louvor um galho Trinta raízes de alicerce atolo

Outros são glórias, eu apenas valho Esse rochedo humílimo que rolo : Viver comigo, para o meu trabalho, Fincar-me às ribas dêste meu Pactolo ...

Deixar que os outros sejam leito e altar, Ostentem galas pomo grato às gentes, Ornem a fronte dos que vão casar;

Para meu gôzo, quero ser raiz, Ser galho tôsco, distribuir sementes, Conquistar solo para o meu país. 1916.

SONETOS 197

SONHO DE FARAO

"TREZENTos e sessenta e seis mil braços erigem as pirâmides do Egito, para que eu, Faraó, vença os espaços, e através dos espaços o Infinito ...

E, terminando o meu labor, medito: Gravei de mim perpetuadores traços. Hão de cem povos repetir meu grito, e o mundo inteiro eternizar meus passos.

E quando em Tebas renascer, Amon, dobra as cem portas nos sagrados quícios !"

Feliz quem tem o transcendente dom

de ter um sonho, - nem que seja um só - pois tem a chave de ancestrais auspícios, que abre cem portas como Faraó ! 1916.

LAMPARINA

PõE AZEITE na tua lamparina Para que a treva eterna se retarde. A tarde há de ensombrar a tua sina E a Morte é indefectível como a tarde.

Observa : a sua luz não tem o alarde, Que as combustões de súbito confina. O fogaréu indômito ilumina, Mas, quase sempre, em dois instantes arde.

A lamparina, entanto, muito calma, - Luz pequenina, que parece uma alma, Que à Grande Luz celestial se eleva - ,

Espera nesse cândido transporte, Que, extinto sendo o azeite, chegue a Morte, Que a luz pequena para a Grande leva. Jornal do Comércio, Maceió, 26 se- tembro 1917.

CORURIPE " •.. a vila de Coruripe é o refúgio dos habitantes do interior durante as sêcas e é rico celeiro da Província. Além disso, fornece de suas oficinas e fábricas sinos para tôdas as igrejas das outras vilas." (Geografia de Espfndola)

Para CASTRO AZEVEDO

PARA QUE A TUA glória se antecipe nas demais vilas, com que tu te igualas, herdaste mais que as outras, Coruripe, de Ceres um destino, outro de Palas !

Dos dois, porém, um, só, não te emancipe, - Rute patricia, de sonoras falas, em tua sina de altaneira estipe de frutos doces e de verdes galas.

Pois é preciso que aos estranhos crentes, os teus mesteres, tua dupla tiara sirvam de norma para infaustas gentes.

E, decidida (que jamais vacilas), contes aos sinos tua história, para ser repetida pelas outras vilas ... Jornal de Alagoas, Maceió, 1917.

\ll.VHTOS 199

RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTO

~O QUE ME LEMBRA: minha mãe dizia, quando eu apenas meus seis anos tinha, Nossa Senhora, em seu altar, havia sido quando nasci minha madrinha.

Depois . . . (eu bem o sinto) , que alegria esta santa nos olhos entretinha ! ... - Uns olhos verdes, como verde eu via minha Esperança, que nascendo vinha. Vinte e dois anos passam, desenganos afloram, com a perfídia dos abrolhos, que as naus aventurosas desarvoram;

e eu me recordo então dos meus seis anos, e noto que no luto dos meus olhos, os Olhos Verdes de esperança choram. Jornal de Alagoas, Maceió, 24 julho 1921.

A DANÇA DO GUERREIRO

ToMo o COCAR e bato o meu trocano. Vibro com fôrça a minha tangapema. Trema de susto o peito lusitano, e o seio d'Eia de desejo trema !

Meus ataques mortais, o amor insano, canto-os os dois na minha toada extrema: Que o valor do guerreiro seja o plano mais alto, mais agudo em que êle gema I

E danço e giro como um remoinho; com mel saúdo a paz doce e clemente, e vinho eu tomo, em honra à minha tribo I Não caio, que mais fortes que o teu vinho, e mais doce que o mel, guerreira gente, é o vinho, é o mel que aos lábios d'Ela eu libo I Estado das Alagoas, Maceió, 7 agôsto 1921,

WMBI

EM MEU TORRÃO natal - Imperatriz - , nas serras da Barriga e da Juçara, um homem negro, muito negro, quis mostrar ao mundo que tinha alma clara. E tem o sonho que Platão sonhara : - que um sonho nobre não possui matiz. (0 sol d'Egina é o mesmo sol do Saara, da Senegâmbia, de qualquer país). Em mil seiscentos e noventa e sete, galgam o tôpo da montanha a pique, os homens brancos de Caetano e Castro. E o negro her6i que não se curva e inflete, faz-se em pedaços para que não fique Com os homens brancos, o seu negro rastro ... Estado das Alagoas, Maceió, 14 agôsto 1921.

VOLTA D'AGUA

NAS DUAS ALAOOAS, por três fozes, jorra a corrente, que a bramir se alteia, - A conquista do mar! ruge e pateia o desafio das três rudes vozes.

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