Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 07 (p. 549-555)
I''I!N('[AÇÃO E ENCONTRO DE MIRA-CELI 549
-··1 que és uma Paixão mais funda que a sêde • mais funda que o sexo. llluo que Teu Espírito desce sôbre tôdas as águas • •llll' há charcos redimidos no meu canto de hoje. llllfo que a Vida é uma dança de bugres, 11111~ que me deste um barco para eu fugir de mim. IH·to que um ôvo de formiga 1~111 mistérios como um ôvo de sol. I'• \11 que as estrêlas se afnstem I'"'" l'U ver-Te a Face. O Deus, l'''''•l'ia teus amados pés ••'hll' a minha face morta ! ~- aves que vão sair de meu canto eram lírios outrora. 11••1•' são potros de ferro que retinem no ar. I'"lo~ os moldes são outros. ~•111i está uma janela aberta para o primeiro dia, ' uqucla rampa deserta tem escadas ocultas. ~llu noite surge a Fé ao fim da praça imensa, ~um o uma catedral envolvida de velas: ~~ ogivas retomam o meu canto que Abel entoava apascen- 1 tando ovelhas. 1 ""'' pedra possua o seu pêlo de musgo, •111•· 11 mundo repouse num só abraço centrífugo ~ que a humanidade seja uma imensa esfera inconsútil. l111 mntacto com os ventos ela soará meu canto 'I'"' ~ubirá a Ti como flechas saídas ',, 11111 São Sebastião vivo. llt•l que sou o limo em que semeaste o Trigo para Tuas ceias: 11111~ L'U cresço e amaduro sôbre Tua mão, • l•·u hálito ao descer sôbre mim. é o meu canto solene. 1111!" que sou um candelabro que se queima até à morte. ,.,., .. os que se apagaram e se reacenderam a Teus pés, , ,., que cobrirão os espaços desertos sôbre os pólos da terra. O Deus, ,•. ,, ···•a Teus amados pés '''""' minha face morta !
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~50 JORGE DE UMA UBRA. COMPLt.IA i VOLUM/1 I
O POETA, Deus dá e Deus retira; mas. quando pensares que tua solidão centuplicou. êle te ofertará a morte, porque só na morte é que resido • r grande alegria. Deus acaba de encostar-te às pedras de tua tumba: os teus olhos estão nevados, a tua voz estancou: nem te lembras mais de que pátria acabas de emigrar. Deus olha o osso triangular de tua fronte: Apenas i:Je toque as tuas pálpebras descidas. poderás ver entre as costelas poentas teu coração quieto e teu instinto como um pássaro assustado sem se poder ocullnr Teu orgulho milenar se reduziu a bolor. as flechas arremessadas jazem cravadas em teu ventre rcuo r quido. Mas estarás alegre. porque só na morte reside a grande alegria. Estarás vivo. porque só na morte se inicia verdadeiramenlf [a vida. Sll os mortos vêem. porque a sua visão não depende do olhnr. Somente êles é que ouvem, porque há sons novos que sllt• [ giram com a morte. Somente êles se movem. porque a levitação começou. Somente êles amam sem desejo de correspondência amoro~n. ~em a dor das grandes esperas e das grandes vigílias. Já não podem pedir nem se arrepender nem voltar. Só as suas presenças têm as medidas que êles alcançarnm [em vida, pois já devolveram ao cansado planêta as Jamttrias de suas próprias criações. tles têm em sua essêncir~ imortal a tranqüilidade de tudo o que foi predito desde l' primeiro din, a serenidade dos que nada têm que reclamar. As suas mãos temem o contacto dos contornos terrenos. O lenho de que foram feitos prefere a luz ou o fogo à lama da miséria abatida. Mas o poeta está alegre. pois só na morte reside a gra111h• [alegria.
1\1'\'( /AÇÃO E E1VCONTRO DE AllR.-t-CH/
llii>O HAVERIA de ser ass1m. para contemplar-te sereno, ó I morte, '' 1111cgrar-me nos teus mistérios e nos teus milagres . .\f'"' a vejo os Lázaros levantarem-se 1· loodos os mutilados recomporem-se como as estrêlas do mar. '-uhlt' teus oceanos os sêres caminham sem a gravitação da carne. \ •11111\~ vestidos com o manto da graç01 que cobria o primeiro pai. \ 111111\S unidos e iguais neste êxodo para a verdadeira pátria. "' nossas sombras se tocam e se confundem em cada I encruzilhada. """" enxergamos aqui c acolá as pcg01das de Deus. 1••·1\amos para trás as ruínas de Bahcl: a língua que falamos ,. l'omo o nosso hábito comum. l'•"ll'lários. frades, artistas. mendigos, soldados, f, 1111'' os olhos dentro da mesma órbita. , IIH'IIS cotovelos tocam os dest01 princesa cnfaixuda há milênios. ''"'' êstes sete mil Jcgraus e estas sete mil colunas nos dei- 1 xaram passar. l'ona Irás já ficou a órbita de Mim-Celi. ,,,.,rcrio~as luzes prenunciam outros sete mil degraus. •111 qtH! apenas começaremos a divisar indícios oi•·· lrl:s Presenças divinas. sem princípio e sem fim. I 111do deveria ser assim para que eu voltasse à Eterna Tríadc, "" Número Inicial. ao Verbo. à Plenitude. \ .nuo-; unidos c iguais para a grande Epifania. \h' como somos leves c vivos nestas terras verídicas! I 1n.dmcnte ressuscitamos como o filho do Homem. •,,,uos movimento, luz. calor. fogo de Deus. germes incorru- ltíveis. \·, crianças 4UC viveram e morreram sem luz ' ~11cm vestidas das sete côres. \ ·, 'de vogais dos que nuncn conseguiram articular um nome ,, .. , 'de escalas 1mra a mais pura poesia. I ollneçamos há pOUCO a iniciar OS sábios, • "'"' duplos pareciam sombras de lôbos entre mulheres frágeis. '.umos uma procissão de mágicos.
uma turba de cadáveres vivos que entoam o hino da ressurrciçllu Vamos agüentando jejuns de séculos, sem ter fome, e, embora haja, pela estrada. fontes que nascem em vo1 [ tical, do alto, a nossa sêde já não é de água. Tudo haveria de ser assim para descrermos do mundo e suportarmos esta longa jornada nté à aproximação infinita das Três Imensas Pessoas que nunca tiveram princípio nem nunca terão fim.
Os GRANDES POEMAS começam com a nossa v1sao desdobrad11 Aqui já não sofremos a contingência de escrevê-los, e notamos que a mais alta significação da poesia quase nunca pode ascender da terra. Aqui todos os sêres têm fisionomias familiares e nossos corpos comunicantes transparecem a unidade inconsútll, Sentimos uma dilatação total que nos torna infinitos, abrigamos os galopes das várias vidas que cruzam os do· [ sertos do mundo. Os nossos dedos são chaves de mistérios; perpassa sôbre as nossas frontes a linha de flutuação da memória desde o Início; tudo começa a nascer neste berço amoroso. Saem larvas de chama de dentro de nossas bôcas. Só a eternidade é virgem e está sempre nascendo sem hiatos. sem pausas. sem o perpassar dos dias. Sentimos milhares de irmãos acariciando nossos lábios. Sentimos as nossas noivas e nossas espôsas aos milhares acariciando os nossos ventres. As nossas mães aos milhares estão súcubas em nossos flanco": Os mais puros poemas brotllm de nossos sopros. Através de nossos olhos. através de nossos peitos, através de nossos pés passam os meridianos da Imortal Trindad_,, Subimos em espiral. e em cada volta descrita nos encontramos de novo, frente a frente. mais puros. As leis da gravidade foram quebrarlas sôbre as pedras das tumba~. Superamos o homem e o iugo do horizontal: o sentido da Trindade Perfeita é para cima, para cima, para cima.
1•\'I'!VCIAÇÃO E ENCONTRO DE MTRA-CELT SS3
QuE É QUE sinto em minhas pálpebras cansadas da vida vã ? Que é que me arrasta e me alarga a visão turva de lágrimas ? Decomponho-me afinal em linhas que correm juntas. Para onde vão tão ligeiras estas alegres defuntas ? Que é que vejo de onde me acho? Gelos eternos ou mar ou é somente a mortalha com que andei acima e abaixo ? Nem a experiência ganhei de equilibrar-me no espaço. Reconheço que fui menos que dois ramos de um compasso. Que é que sinto em minha fronte ? Asa de inseto ou a mão daquela que nunca estêve nem nos vales nem nos montes ? Quem foi que apagou as velas e interrompeu o banquete ? Foi o vento ou foi aquela derradeira Bem-Amada ? Pendo a cabeça em que ombro ? Do meu Mestre ou do Antimestrc? Ou apenas dou um tombo dentro do último abismo ? Cismo ainda ? Penso ainda ? I Vou extinguir-me outra vez ? I, I Que vento é êste que passa como o sôpro que me fêz?
.fORGE DE LIMA OBR.·I COMPlLTA J!Ol.UA#
Nós os POETAS, dentro da morte e libertados pela morte, somos os grandes alquimistas, os únicos achadores da ptd [ filosofai, porque nos transformamos a nós próprios em périplos verdadeiros e imperecíveis . .I á possuímos todos os fios em nossas mãos. e ordenamos com sabedoria os nossos próprios avanços c as pausas dentro de tôdas as distâncias que correspondem à mesma órbita divina. Tudo vem repercutir em nosso pulso: c nosso largo sôpro comum circula do mesmo modo entre os blasfemos que estão embaixo, os que se depuram nas chamas. gemendo neste plano do molo,-, os bem-aventurados que estão acima 1 e a pequena humanidade de incrédulos da realidade da morllt ·1 Assistimos. pois. dos vértices em que adiantamos os pés . a caminho da Imensa Trindade, nos sempiternos cais misteriosos. ao embarque c desemb
~\1'\1 /.1('.40 E ENCONTRO DE MIRA-CEU 555
CI INESPERADO ser começou a desenrolar as suas faixas em ~111• c'tava escrita a história da criação passada e futura. I 'ontinuava incluso na eternidade; por isso podia ver-se tlt~nlrn da morte, como dentro da vida. f(1·rncontrou-se amiúde com todos os amigos e amigas que ~1111aram a sua órbita. Amou Mira-Ccli como o último segrêdo do absoluto ou a 1ltun~a ígnea mais íntima da Substância. l·ni seu eremita e seu dançarino. C)ucrcndo os déspotas que êle investisse o hábito de cantor •·ll'll"tl c glorificador, recusou-se. Martirizaram-no sob o olhar vago de falsas divindades. Mas êle aspirava à vida eterna sem se dar conta da contínua llh'l""ão do nascimento, da velhice, do martírio c da morte: a 11111 mla se dirigia às Três Pessoas que nunca tiveram comêço I IIIIIICa terão fim. I l iuc~pcrado ser caminhou para elas: :l/ia esl enim persona Patris. alia Fi/ii, alia Spiritlls Sa11cti. l111'rcmu.\· Paler, increaws Filiru. i11crea1us Spiritu.~. l111111ensus Pmer, immensus Fi/ius, immen.ws Spirillls. klt•rmt.\' Paler, aeternus Filius, aeternus Spiri111.ç. I 1 tamen 11011 Ires aetenri, sed 11111/S aeternus. l'alt'r a nu/lo e.rt jacttu, nec crealus, 11ec ge11itus. I iliu.1· a Palrt• solo esl: 11011 factus. nec crt•atus, secl ~::e11illl.r. ,.,,irilu.ç a Palre el Filio: 11011 jactu.1·, m:c creatus. 11ec ge- 111111\, .1·etl procedens. ''""·1· ergo Paler, 11011 1re.1· Pmn•s: 11111/S Filiu.~. 11011 Ires Filii: lllltH Spiritus, 11011 Ires Spirilus Sancli. I 1 iu lwc Trinilale nihil prius aut pos1erius. nihil majus aut 111111111: sed lotae Ires [Jerso11ae coaeternae sibi sullf. e/ coaequales. '''' 111 per omnia, siclll jam mpra dictum est, et unitas in /1 iniltllt', et Trinitm in uni Iale veneranda sit.
1'11\1 DF "".\NllNCI.... (,'ÃO E ENCON IIW I>E MIRA·CEU"