Invenção de Orfeu - Canto II: Subsolo e Supersolo - bloco 04 (p. 702-706)
JOf'.! ;F. IJI:. LIMA i OlJR.1 COMJ'LE1A 1 VOLVA/I< I
perpasso passos silvanos, dedos, plantas, calcanhares. A cabeça é que é brisada sem sucedâneos celestes, dons terrestres para cada, outros tantos sem as vestes. Mudo paisano. E a paisagem? Pura arcádia. Gôzo e tanto. Persigo aquela viagem. Às vêzes quero c me encanto. Libertado e em pura glória, vitrinado em ponto branco, nas fontes quase incorpóreas bebo água e a sêde estanco. Contente de ser paisano sem compromissos eqüestres, Casimiro aos oito anos, não atropelo os pedestres. Paisajado me reflito no poço que bem me apraz; dramas que eu sei não repito nem me apego a nenhum ás. Gôsto de terra possuo, grandes patas pelo chão. Faço ou não faço, ou não suo, faço ou não faço questão. Morrerei sempre paisano, os pés olhando a paisagem. Tão pequena a mão do irmano, tão imensa essa viagem! Sustenta-me, doce mano à beira dessa voragem. Paisados olhos paisanos, paisano morro teu pajem.
I!VVENÇÃO DE ORFEU I CANTO Il 703
XVII Hoje há uma mulher nesse sol-pôsto, ora não, ora meiga, ora alvadia. Ontem revendo-a, -muda-se o meu roslo assustado em cegueira, que não via. Certa vez a revi em findo agôsto: não era o mesmo canto que eu ouvia; o seu pranto expirava um outro gôsto, retinia o seu bronze outra alegria. Tendo vindo do céu chuvas antigas, essa ofélia dos ares semeou-se: houve joio e houve trigo sôbre o humo. E a semente do joio nasceu trigo, e uma parte do trigo transformou-se em sombra ou coisa menos do que fumo.
XVIII Os jovens mortos tocam campainhas de chumbo azul, os olhos descorados. O espaço sôbre as frontes, e o céu fímbrio com uma Vênus brilhando soledade. A madeira das mãos começa a arder a sombra quebradiça; resignadas verbenas sôbre os buços, lábios últimos como beijos parados em rosáceas, sem os ventos florais que vinham ontem plangendo sob as relvas, sob as chuvas, sob as raízes, sem os ventos soltos,
sem os ventos florais que vinham ontem viajá-los nos veleiros de altos lumes, hoje apagados nessa lauda de hôrto.
XIX Estavas linda Inês posta em repouso mas aparentemente bela Inês; pois de teus olhos lindos já não ouso fitar o torvelinho que não vês, o suceder dos rostos cobiçoso Musa Inês passando sem descanso sob a tez; que eram tudo memórias fugidias, máscaras sotopostas que não vias. Tu, só tu, puro amor e glória crua, não sabes o que à face traduzias. Estavas, linda Inês, aos olhos nua, transparente no leito em que jazias. Que a mente costumeira não conclua, nem conclua da sombra que fazias, pois, Inês em repouso é movimento, nada em Inês é inanimado e lento. As fontes dulçurosas desta ilha promanam da rainha viva-morta; o punhal que a feriu é doce tília de que fêz a atra brisa santa porta, e em cujos ramos suave se enrodilha, e segredos de amor ao céu transporta. Não há na vida amor que em vão termine, nem vão esquecimento que o destine. Não podendo em sossêgo Inês estar, foi preciso mudá-la, nesta lida, tão inconstante lida - mar e mar. Descansa a doce Inês na sombra ardida. Vem alta noite um rei peninsular amá-la em sua última guarida; pois que matar de amor bem que se mata para se amar depois a morta abstrata. Semelhante amor qual êsse Rei houve à dona Inês não é achado. Em vão! :e preciso louvá-lo, e que se louve o amor que além da morte é duração.
' I I 111 " " ORFEU I CANTO li 70S
c) dor ida paixão,acalma-te e ouve: Fui huscá-la alta noite em seu caixão. l(uubou-a à negra paz minha viuvez. Pajens, vive de novo a sempre Inês. I~ para que não finde a eterna lida ,. tudo para sempre se renove nessa constante musa foragida; entre Andrômedas e Orions alas move. A sua trajetória é tão renhida, tJUe a multidão celícola comove. Vui ser constelação de um mundo novo, csJlcrança maior de eterno povo. () paz, ó fim, 6 mundo inominado tlescansa doce névoa mensageira. Teu rosto primogênito gelado, tJUC pólen misterioso te empoeira?
Apenas obtenção, logo viuvez. Depois noviciaria. Antes remota. Agora sombra. Iluminada tez. Ontem forma palpável. Hoje ignota. Mas sempre linda Inês, paz, desapêgo, porta da vida para os sem-sossêgo.
XX E. a bela natureza com seus ouros, relembranças incertas, noviciados, fagotes bifurcados e barrocos. Quereis pleonasmos, grandes beija-flôres? Tereis de pré-memórias e pecados, tereis dessas palavras mas não loucas. Mas contra-sensos soltos vos são dados, filhos de ventanias, verdadeiros, idas e vindas, filhos de outros filhos. Só vejo referências e sigilos, que o mais é necessário esclarecer . em meio aos sedimentos dêsse breu. E é preciso dar fomes a êsses trigos, ensinar os casuais a acontecer, cantar de cantos como um novo Orfeu.