Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 01 (p. 875-882) Obra Completa, Volume I · Capítulo 77 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 01 (p. 875-882)

CANTO X MISSÃO E PROMISSÃO

I

"BARÃo sem chaves, e assinalado por umas naves" que sempre vão; vão como as aves sem provisão. Nesse baralho rei é barão,

barão ou ás, vêzes coringa que vale s6 junto a outro naipe.

Nessa viagem vai um coringa na embarcação: mapa cristão.

n Reconstrução total dos solos desiguais, dos ares e oceanos em rota para os olhos dessa propiciação;

memórias começadas, remorsos renegados, olvidos entre lutos de faces persistentes, retôrno sem lamentos, além dêsse poema, pernoitam olhos de aço, palavras compreendidas com as asas iniciais dessa propiciação.

III No bôjo dessa noite, passadas vão e vêm. Escuta: há um presságio ou nova rosa abrindo depois das rosas de tentáculos famintos. Há qualquer coisa abrindo corolas ou abraços; no bôjo dessa noite vão passos e vêm passos, palavras acendidas, casulos acordados ou há indícios de nascente orogenia no bôjo dessa noite.

IV Quem sopra essas montanhas? Quem voa êsse poema? Que pão se magnifica no bôjo dessa noite? Há qualquer coisa vindo, presságio amanhecendo-se, casulos desatando-se. Escuta: há passos, passos de qualquer coisa perto, ali, agora, aqui,

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X 877

ao cabo dêsse palmo de abismo entre as montanhas. Há qualquer coisa vindo além dêsse poema, no bôjo dessa noite, na esquina dêsse dia.

v Águas há subcelestes produzidas pelas chuvas das órbitas. E tudo é um mar. E jogos da água sublevada contra os largos invernos arrastando os peixes móveis, coisas patinando, nem há árvores ilhadas, só a água indo com os esqualos e as bóias e a tristeza vacum e o ôsso das sibas e a alga voando e a gaivota no índigo do céu líquido, e tudo é um mar. Inês veio e uma estrofe reconteve-a, que nada fica ilhado nem secantes nem âmbares nem leis, e os montes audam entre as águas do mar e as do horizonte, pois tudo é inverno e limo potenciais, velas, cereais dourados, versos, vinhos, buzinas se saudando, couros, cuecas, e as primaveras, águas incoerentes elas próprias são truques, ou são tardes com seus mapas de vidro onde meninas singram, se é que não nadam no azul, pois tudo é um mar. Amo os heróis do poema iguais ao canto em si, comunicantes, sôbre as águas, e mesmo informações de musas nossas, dançarinos nevados, naves, falo de tudo, de engenheiros, de maxilas, de vimes, vice-reis, Camões meu bardo, e os vivários, salitres, equinócios, êsse mapa venoso irriga os versos orogràficamente os montes máreos, selvas selvagens, dores fomentadas, atrizes, belatrizes, temos isso,

temos lutas e tosses pela noite, e êsse sangue escondido, explicativo, como os mares se explicam, como os versos se encachoeiram em ondas, em tormentos em mulheres de amor e vice-deuses pois tudo é um mar. Quero comer teus fenos, doces vacas, dourar um cogumelo ou estanhar-me, balindo pelos bosques ou com os vinhos fazer-me compreender pelos betumes, pelas sementes, pelos cães sutis, macacos, escrivãs, visitadoras, falar-me de saudades, compreender-me, dar adeuses, comer como se comem constelações maduras, acossar-me de crimes inventados, que aqui estou, oceanos subcelestes vos enchendo de lágrimas alegres, patinando-me com grisalhos genuínos e alfazemas no focinho brotando como aquêle penhasco imóvel, nem sequer centelha, que tudo é mar.

VI

Estava decorrido. E o remo leva-me. Nem sei como se deu. Mas arrastado de mim. Palavras . lndole. Deixai-me, indo sem mim. Depois nem mais consciência. Nem mais a minha mão nem rumo igual. A consciência de fora me solvendo. Enfim, tudo vazio, enorme ser, contendo-se divino no seu ritmo, voraz ritmo implacável, inconsciente, no gesto em que fiquei tocando as coisas, e as coisas desfazendo-se em mim próprio: o trânsito de Orfeu para a pureza, o trânsito de Orfcu para a inconsciência, superfícies perdidas, cantos virgens, fogos dourados de palavras vivas, sangue das luzes inundando o tempo. Havia essa presença que não há.

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X 879

Ego dormivi, Mira-celi estava a face sem contornos, tôda só. Tumulto silencioso a interrogava, ela falava em mente poderosa, a sombra de seus lábios derramada. na mais pura visão consoladora, metais desconhecidos palpitavam as vísceras entradas, mas floridas, pegava-os como em lírios, osculava-os, mudava-os em pequenos ramalhetes. Era sonora e triste, ao mesmo tempo igual à cabeleira que a cobria alumiada de insetos vespertinos . Alma gentil, silêncio repousado, concebida serena plenitude, noite perfeita, sono de acordada, Mira-celi ali estava e não estava senão a sua própria anunciação, a sua informe face de parábola, o seu afago longe, seu luar, seu girassol noturno entre as neblinas. Meu ser destituído era uma infância entre portos nativos arrastada, colada às outras faces não nascidas, agora refletidas nesse olhar, nessas mortas corolas florescidas, nessa outra geometria que eu tentava recompor traço a traço, mas vãmente, vôo rompido em meu trânsito silente. Nuvens-plumas tão baixas que me envolvem, testemunhas ungindo-me de ventos, e eu destroçado pela ventania contida entre as colunas extensíveis. Ah! Eu e alguém o mesmo ser reflete tudo o que há e que havia acontecido, como também aquêle regressado de diversas infâncias renascidas, e êste e aquêle outro e vários e mais tantos e tantos que também viram a vida desmoronar-se em nosso pensamento. Foram todos ao fundo dos infernos e voltaram de novo ao sol remido, à esperança florida na alma humana,

a êsses bosques brotados da desgraça. Contamos todos nossos negros sonhos. paramos a entreolhar-nos novamente. Sramos tantos num só ser radioso! Fomos ao mesmo tempo. Fomos como. Todos havíamos sofrido juntos, juntos voltamos todos, e seguíamos. Recordamos os nossos e os seus tempos que eram perto de nós, foram há pouco, e foi há pouco que o universo em nós, sentimos raças, povos desunidos, e os dias desiguais irem passando. Refletimos, amamos e odiamos as eras divididas pelos homens, abarcamos a vida e a morte juntas, contamos nossas lutas e reveses, nossas visões de dores renovadas. Mas iras se esgotaram, hidras foram-se, e nos chumbos levados renasceram flôres de criptas de ouro e outras radiantes corolas afetivas. Somos novos. Outra vez a charrua, o bosque, o poema, as mãos nas mãos, as vísceras unânimes, o consôlo partido, regressado, e a teia interior recomeçada. Restauramos as tôrres demolidas, replantamos os trigos e os jardins, aspiramos boninas, meditamos. Os braços mutilados renasceram, as crateras fecharam-se. Construímos. ó mágicas da paz, ó formas puras, ó fontes espontâneas, refletidas. Vêm as imagens livres sôbre os olhos, e os lábios podem hoje pronunciar a voz entrecortada pelas guerras. Retomamos as reais clarividências, participamos, 6 participamos, meu Deus participamos e existimos, inerimos em nós o que há de vir, em verdade inerimos zonas reais, mares, florestas, astros, amplidões. Crescemos os pomares invisíveis, somos gerais e próprios. Penetramos.

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X 881

O sono nos põe noites sôbre as frontes, ó mãos de mãe, macias como as noites. Semear agora para quem virá a variedade da árvore ramada e um arado inventar para bisnetos, guardar a oliva eterna para os filhos, deixar nuvens paradas amanhã, que irão com os touros pelas terras juntas, com o ferro infenso e as luas debruçadas, contra as ervas nocivas que dão setas. Nas entranhas dos ares patos bravos e os cardumes celestes - peixes, híades estaquem o vôo manso sob as tardes, que nós sêres adiados alentamos, arar o trigo azul das serranias e nas eiras geladas alumiá-lo. Tôda essa voz - intento de poesia, guarida de poesia, aventurança. Nós somos um contágio de asas mansas, anunciações após infernos vivos, após êsse hoje amargo prolongado. Quando a manhã caminha é assim que falo que a minha fala apenas a entonou. O branco verbo é visto vindo desde as portas que represam trevas rubras . Mesmo a memória já criou seu tempo em que faces sem rictos acontecem e as côres deflagraram recém-vozes, há portos de vertentes esposadas sob as mãos enlaçadas pela vida . Atravessa êsse espaço uma bandeira silenciosa e presente como a paz . Porque ali estão as túnicas iguais lembrai-vos que as teceram nossas mãos.

VII

Nos cimos estacou. Parou seu canto cirrou-se alvinitente. ú meu Senhor! Livre e grande. Capazes são seus ângulos, seus punhos são um pulso luminoso .

Volveu a conjurar os elementos. Reconheceu-se. Dúplice cotejo. Pôs as mãos sôbre os olhos: fôra sempre dócil aos juramentos mensageiros . Notar, ninguém notara em sua face rumo sem fé, anseios evadidos ou luzes que não fôssem persignadas ou zelos que não fôssem comovidos. Aquêle aceso amor inconsuntível era-lhe ação (a ação assim lhe toma e lhe concede o dom pregresso e ritmo e essa reminiscência que alumia) . Em verdade, recorda-se do inicio, entre as águas, e o teto dos espaços entre os dias e as noites quase à trilha das desobediências renegadas. O permanência dolorosa, 6 dúvida, 6 irmãs atraindo a horda ignava! E que serenos olhos, ordem muda, da substância indecisa se apossavam! Da perene amplidão do som constante provinha: interminável revivência de tudo o que alcançaram suas mãos agitadas no sumo movimento. Assistira a monstruosa corpulência elevar-se da queda vertical, e infiel desafiar rangendo os dentes o ser em si, por si, na luz gerado. Como dantes agora coexistia em verbo o pentagrama e prisma alado, 6 eterno itinerário, 6 alegria, 6 divina aventura reiniciada. E agora chega o poema preferido e os dias mais sutis, e os frutos ázimos e as promessas mais claras e felizes e os nascimentos justos e as jornadas.

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