Poemas Dispersos - bloco 06 (p. 983-990) Obra Completa, Volume I · Capítulo 89 de 90
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Poemas Dispersos - bloco 06 (p. 983-990)

POEMAS DISPERSOS 987

Há um jasmim velando entre as flôres quando tu sonhas na luz arroxeada e eu te quero e sou; e desgarrada a noite dá a memória suas côres. O sonho é um rosa!, cuja agonia é por seguir sonhando enquanto vive como o perdido som da alegria.

E a seus pampas me vou, como vencido. a desterrar o tempo que incline para minha bôca um hálito de olvido.

IlHA DE SEMPRE

Tu CHEIRAS a canela e a rocio, a laranja vista na primavera; névoa do beijo de que antes era alaúde desperto ao manar um rio.

Um choupo a procurar, sombrio, a nostalgia perdida em sua ribeira e há vidas; e um mundo e uma fogueira deixa teu nome ao redor do meu.

Quer o destino um bosque alucinado, sua condição assim, a planta obscura, açucena que ao raio havia convocado.

E êste quis sua ilha sempre viva como trevo gemendo na planura de que é amor e chama pensativa.

JA NEM A MORTE

A CRUZ do sul em sua grinalda encerra como espadana ou como nuvem louca,

êste desejo e canto que convoca minha destruição para semear tua terra.

Alma que nem na morte se desterra é rubra sombra por mirar tua bôca; Jume que o peito no azar sufoca como o laurel que pela água erra.

I á o amor chovendo nos espelhos como essa noite de onda cinzenta, quase o olvido, volta de tão longe.

Que por morrer quero morrer contigo, com o sangue escava e movimenta de áspero vento e convertido em trigo.

ALEGRE SOMBRA

QuERO um pinhal para marcar o vento ou o pranto que por nada se levanta; e a açucena morta na garganta, desvanecida, quase em desalento. Quero o ar, talvez um pensamento, o rio alegre, quando sua planta de vivas sombras no sonho canta desembocando alegre por teu alento. E o fundo breu de sombra fugitiva, e o sino já com meu segrêdo soando a flor, a nuvem decisiva.

E a teu peito gemendo sob o meu; e a alma que separa o esqueleto, quando o amor, com braço de rocio .

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ALAMO SOU

E1s o trevo que chega, vida minha. quando o pampa. solidão certeira, suas terrestres calhandras sem ribeira deixa rodar ao vento que as encaminha.

Céu para conter como agonia caladamente amarga na tapera, traz sua raiz de amor que reverbera devastadora. eterna, todavia.

Lívido e só, volve ao sentimento, c o ·campo quebra, quase angustiado. perdidamente meu por meu alento.

E álamo sou de puro enamorado. entre a vida que por mim desfolha seu tremular do peito transbordado.

AGUA SONORA

VÊ SURGIR a solidão em sua nascente que é a do mar, por nuvens coroada. sôbre a verde graça derramada com sua tez de jasmim c ar recente.

Já de sua bôea o hálito veemente evoca-te em prodigiosa labareda, e é a paixão que pulsa em sua morada, dentro de ti a voz resplandecente.

Púrpura é hoje; amanhã já cinza. Desligada do pranto em seus alvores pelo vento desnudo se desliza.

E ao peito vai; seu cântico ressoa reclamada por sonhos e em amôres; pássaro e água sonora quando voa.

DIA NO MAR

CoMo UMA tromba-dágua se precipita, torrencialmente, na distância obscura, o dia que nas ondas aventura a úmida rosa que o sangue habita. Ávido estou nêle, em sua infinita desolação de eterna singradura; desejoso de querer como planura quando sua terra em amor crepita. De sua côr para morrer levanto o coração oceânico, gemendo, com a espada da alma sôbre o canto. Minha voz e minhas mãos são despojos do céu submarino, a que descendo com duas campinas vivas nos olhos.

DEUSES TALVEZ A DANJEL J. DEVOTO

PAMPEIRO, zune, ventos que tão bem soprais da alma ao pãramo de um dia, 'I quase jã coração, alto vigia dêste mar destroçado em sua margem. I Veja só sua pista: desespera entre o sangue rubro todavia, exasperada ainda por sua agonia no vazio do ar que vencera.

POEMAS DISPERSOS 991

Vinde quando a sombra está chorando junto com a solidão que o sul encerra, com suas fôlhas de luz entrevoando.

E arrasa-me a voz, êste lamento do temporal que brota de minha terra, como deuses talvez; e só é vento.

CARDO NO OUTONO

TAL COMO uma pomba o cardo mira pampa és tão só e mar ensimesmado, o tempo àsperamente desvelado que entre a flor e a raiz delira.

Como um anjo deserto em mim respira o outono que cobre minhas costas, aquêle de onde um zorzal alucinado em uma eternidade de sangue gira.

O cardo e a pomba no mais profundo de um furacão levantam seus sinais de cal perdida e som meditabundo.

Meus olhos como caules sem memória. lhes entregam meus duros minerais; que apenas são de lume transitório.

O PAMPA :e O AMOR

HÁ AREIA no pampa como olvido e montanhas de estranha arquitetura, quando a sombra dá sua mordedura de mar distante e de juncal ardido.

Digo simplesmente que tenho vivido nessa terra de palavra obscura, de onde a perdição e sua formosura deixam cair o campo amortecido. O pampa é o amor e me destrói, trevo de urdume silencioso e só, vento que ao vento como vento aflui.

E assim quero suas águas e distâncias trigais de onde ergue sua corola para incender as palmas de minhas mãos.

ERA O OLVIDO

CoM o OL vmo vão as andorinhas (quando outra voz como a sombra move sua distância desfolhada em neve) as tôrres da alma, peregrinas. Pairam sôbre os ventos como ruínas; e àvidamente a soluçar se atreve esta faixa de névoa, que tão breve, morre e nasce em ti, se em mim te inclinas Já não querem o olvido nem sua pista; nem seus muros de ausentes maripôsas errando como dunas ou faisca. Nem sequer seu antigo labirinto; que em ti minha vida acaba entre as cousas por um lírio arroxeado e um jacinto.

AREIA ARDENDO

As DESTRUl.DORAS ramas cardinais hão de cortar a um tempo meus sonidos~-

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seus ecos fundamente repetidos em um entrecortar de litorais.

Hão de refulgir então os metais que abandonando foram meus sentidos, como raios em vertigem caídos ou alamêdas de ventos estivais . Uma ferrugem de musgo lamentoso, a enamorada condição de fogo me irá arrasando em hálito amoroso . Se há de morrer, talvez, uma açucena e ainda hei de cantar-te, amor; e logo serei uma única rajada de pena.

TORRENTE ABANDONADA

UM TABACO de braço silencioso morenamente morde tua cintura; e eu estou adorando-te e fulgura o ar já como desdém gostoso. Torrente única, sol esplendoroso névoas que se desatam com loucura, desmaias e renasces e perdura um torvelinho ferido e prodigioso.

E uma guitara soa prisioneira, poço com água viva, cintilante, desordenada obscura, em primavera.

E eu mesmo me queimo; e a cinza tem tua mesma voz e teu semblante de asa de fogo e sombra quebradiça.

994 JORGE DE l.IMA. I OBRA COMPLETA i VOLUMIJ I

PEDRA NA ALMA

A PEDRA em tua côr como de estio colando-se a meus ossos decisiva, como uma água mortal, definitiva, desnudadamente vai buscando o rio. Relâmpago de pétala sombria acha sua vala em mim; e rediviva tua nuvem de pomba pensativa sôbre minha bôca deixa no rocio . E sobe por tua pele de madrugada e se cinge ao amor, quando o vôo seu é como uma grinalda desatada.

E até por mim, muro de triste pedra, deixa uma flor mordida pelo céu como teu verde resplendor de hera.

ZONA DE SONJiO

CoMo TE DÁS em fôlhas, suspirada, como centelha sendo já neblina, ao litoral ardendo que extermina uma água como um deus desmoronad.a.

Pousa tua cabeleira derramada como um feto que a sávia inclina; e uma calhandra estala, repentina, quando quer voar alucinada. O fogo está lavrando suas sementes, dentro da funda luz de onde sais desnudadamente verdes e sem margens.

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