Invenção de Orfeu - Canto VII: Audição de Orfeu - bloco 03 (p. 807-808)
/,\'J'ENÇÃO DE ORFEV I CANTO Vll 807
XI
Interroga-me o Rei . E eu em voz gasta: Minha mão artesã pertence à lei. e com ela registrei nas colun:ttas: O inatingível céu, enfim cansei.
Fiquei então ao alto, nesses frisos. (Eis um pastor oculto me rondando.) Meu ânimo querido dos estilos olhava do alto o chão e o pastor, quando
a vida era contínua; e as sombras n'água tremiam o reflexo das ruínas. Decidi-me de cima dcs:1har-me.
E desabando-m e eis que ainda escutei aquela voz tão grave e tão divina: fui teu céu: c teu chão sempre serei.
XII
Com todo o amoroso ódio e a angústia mansa há na face um desânimo latente; qualquer coisa exaurida na distância para dar à paixão, outra vertente .
Entristeço-me ao ruído persistente do tempo para trás como a memória, permaneço ora ileso ora ilusório. Que segrêdo tão árduo eu êsse doente!
E entre temeridades e temores dou às coisas irreais nova constância sob o pêso dos sêres meus e vossos.
Pois de todos os grandes desatinos que possuem densidades diferentes, diante de muitos sou sozinho e ossos.
XIII
E êsse velho e atroz poema? Quem acaso o arquitetou? Que mão sem braço o escreveu? Que Lenora o mereceu? Que mulheres vivem nêle? Que loucura o escureceu? ú tecido de memórias recuadas de meu tempo que a eternidade comeu! ú noites claviculares, epopéia sem guerreiro, humana sobrevivência das lembranças recalcadas, cem avós em cada cântico prévio nunca amanhecido . Deixai-me nêle.
XIV Maduro pelos dias, vi-me em ilha, porquanto, como conhecer as coisas senão sendo-as? Como conhecer o mar senão morando-o? As coisas Deus um dia nos recuou. Contemplo as nuvens. Elas me rociam. Refletem-se em meu sangue: nuvens e aves. A sombra de meus pés reptam-se serpes. Quantas selvas escondo! Sou cavalo, corro em minhas estepes, corro em mim, sinto os meus cascos, ouço o meu relincho, despenho-me nas águas, sou manada de javalis; também sou tigre e mato; e pássaros, e vôo-me e vou perdido, pousando em mim, pousando em Deus e o diabo. Nasço floresta, grasso grandes pestes, porquanto, jazo em mim mesmo, rejo-me, reflito-me.