Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 03 (p. 517-524) Obra Completa, Volume I · Capítulo 31 de 90
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Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 03 (p. 517-524)

l\1 \C'IAÇ..fO E ENCONTRO DE MIRA-CELI 517

mundo de infância, flauta distante e um som perdido como um sonâmbulo cortando a tarde de leste a oeste . Menino bôbo entra pra casa antes que a asma retire o sôpro do teu pulmão. T cus companheiros correm brincando; tu sufocado dosando o ar. criando as coisas com o ar da tarde. T cu pensamento correndo adiante das andorinhas. Há um som perdido como um sonâmbulo cortando a tarde de leste a oeste . I l\·lenino doente C'ntra pra casa li antes que a asma I roube o teu sôpro, teu pensamento I correndo adiante elas andorinhas. pela amplidão.

QIJATRO enormes ventanias seguem sempre alucinadas enterrando noite c dia comandantes e soldados.

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~18 JORGE DE LIMA OlJRA CO!IfPLt:T A I VOLUMI-: I

Quatro enormes ventanias roem o bronze das estátuas, comem todos os vestígios dos barões assinalados. A face da terra estéril fogem poeiras agoniadas: restos dos grandes impérios história c nome apagados. Agora baixam do céu quatro arcanjos operários: afogam num charco abjeto mil fabric;mtcs de armas. mil forjadores de guerra. Depois nada? quase nada: bichos soturnos boiando sôbrc o mar estagnado, - um mar sem curvas de ondas. E depoi~? depois vêm tontos Lucífugo c Astorot matando os outros demônios se cntrcdcvorando fcro7es. Mas nada disso consegue deter a rota perene. milênio sôbre milênio do ciclo de Mira-Celi.

ANTES dos reis fui senhor e clérigo; antes de Hamurabi e da deusa Istar. Dentro de Mira-Celi quero-me oculta;; senão pereço,

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c na mão dos reis vou-me aniquilar. Dentro de Mira-Ccli quero-me ocultar. Clérigo nasci. clérigo viverei, até que a morte venha-me levar. Fiz minha aliança com a ressurreição. crescem-me dois cetros, um em cada mão; dentro de Mira-Celi quero-me ocultar. Minha dinastia nunca findará; sou profeta e oráculo: a minha visão, nunca cegará. Vinde. meus pastôrcs. tristes não sereis, Mira-Celi. a louca, vos mudará em reis. vossa dinastia nunca findará. Fiz vossa aliança com a ressurreição; crescem-vos dois cetros, um em cada mão; dentro de Mira-Ccli vamo-nos juntar.

ANJO caído, Memória e cal, Galo sem Pedro Sempre negado. Face perdida, Canção sozinha,

De infanta jovem Defunta e santa Incorruptível. Poema ainda Desconhecido. Infanta imersa No sono claro Como princesa De Barba-azul. Constelação, Terra de estrêla, Raio tangível, Memória em vão.

As VÊZES nos acabrunha a rem1mscência de vários crimes, como a recusa do estado de criaturas, e de uma série de profanações cometidas depois da Queda. Vêzes inúmeras, ensangüentamos o jôgo da Criação; mas assistimos a, também vêzes inúmeras. · grandes poemas se elevarem da terra. Nascem apelos secretos de nossos membros, possuímos reminiscências de asas e a noção instintiva da direção para o alto; mas nos perdemos freqüentemente como vagabundos cegos: o nosso caminho não é sempre uma subida constante nem um avanço seguido, mas recuos pela treva escura, arrebatados pelos redemoinhos do sangue que nos irriga. Somos reis, mas o menor verme não reconhece jamais a nossa realeza nem a nossa origem divina. Paredes tumulares cercam-nos em seis direções; temos estampados na face signos de cativeiros; entre a carne mortal e a imaginação criadora impuseram-nos limites que nós não escolhemos. Encerramos milhares de gerações num pedaço de nervo ou num fragmento qualquer de recordações . Por isso, neste meu canto em louvor de Mira-Celi, se elevará pouca coisa em meu nome, mas em nome de meu anjo e das gerações que sintetizamos e que se reconhecem e se reconhecerão pelos lábios.

INIINCIAÇÃO E ENCONTRO DE MlRA-CELI 521

OS BANIDOS

NIINI'A FUI senão uma coisa híbrida ttll'lnde céu, metade terra, 111111 a luz de Mira-Celi dentro das duas órbitas. Att- onde chega a doce abóbada divina não sei; 11111~ sinto muitas vêzes os pés pisarem nuvens ' 11 hôca com um saibro de terra escura. ljuu, portanto, decaído dêste lume primitivo. lht\la olhar para os meus desgostos p11m se reconhecer que uma estrêla cadente ••• l'sfarela dentro de meu destino. ljuu, como vês, um mestiço de Sataná'l ' de Eva redimida. I' nndc podia descansar a fronte, '/"1·ima-a o lume estelar, iluminando a minha nudez. 11davia não me salveis, 6 vós que inventais grandes reformas '11111 melhorar o mundo. 1'1 1'1 iro ser êste aleijão celeste, l"l~'llir êstes farrapos de Rei-Saudade •· l'~tc fígado golpeado e êstes olhos 111111 seus pobres vidros mareados. l'rt'liro que não me salveis, grandes reformadores, 111'111 vos compadeçais de meus andrajos, 11'11' outrora foram esplendente nudez, 111'111 vos apiedeis desta humildade torpe, '1111' i'to é um resto do orgulho que me perdeu.

I

21 il I I I I ·• 11 I}UE vmo acompanhar-me saiu dos primeiros séculos .I , 11111 'uas vestes características de andarilho. t~IIIJ',uém o havia anunciado, 111 111 óiVl's prenunciadoras vieram dizer que êle vinha; "'•''·· lJliCm quer que olhasse para trás um momento,

o haveria de enxergar muito antes das profecias. como um primevo ser solitário e sem teto. ~ste que veio acompanhar-me passou adiante de [vêzes; li muitas vêzes ao meu lado caminhou silencioso, [i: I andarilho, mágico ou simplesmente operário, é um homem que perdeu as asas, como eu perdi as minhas. 1:. um palhaço tristonho, vindo dos vales próximos c expulso, como eu fui expulso, fi I e marcado, como eu sou marcado. 'I. Afinal, não sendo rei. nem aspirando a ser claunc. ,, pode-se dizer que êle é faroleiro náufrago, pelos modos de homem quase afogado que vê apagar-se a luz que lhe pertenceu . Na pátria de Mira-Celi, êle é apenas o homem, o companheiro do poeta, , ou o poeta êle próprio, transfigurado aqui e ali pelo ambiento,. Cabe-lhe a tarefa tremenda de colaborar com o Senhor 1 e continuar a criação, já que Deus descansou depois do sétimo di111 1 pertence-lhe Mira-Celi, Mira-Celi pertence a nós ambos. Passo aos outros êste dom, à comunhão, à unidade, aos outros sêres irmãos, pois eu sou o ser que se dá, como o Pai se deu ao Filho, e o Filho se deu ao Pai para um dom sempiterno que é o Espírito. Dou-me ao Espírito, como me restituo à Terra à gloriosa Terra - parte da cidade de Deus; dou-me a todos os espíritos sequiosos. Entrego Mira-Celi a todos os sêres criados, mesmo aos que perseguem o Cristo, c que estão sujos da cabeça aos pés. Esta oferenda impalpável é tão viva, como trigo c uva, ou como sangue e carne que se mastiga ou se toca.

VEIO UM DIA, de qualquer solidão, o raro amigo - duplo de mim - o poeta. Eu já o havia pressentido e esperado: mas ninguém me tinha dito que era êle.

I\ I :\'CIAÇ.f(J E I:"NCOS r/(0 /Jt: .\/IRA-C UI

I nln:tanto é um homem tatuado. til' ~inais invisíveis e rituais. '>•·u~ olhos são tão claros diante dos meus ,. 'cus gestos são tão homólogos aos meus gestos, qm· êlc deveras é a minha semelhança. ti 'cu corpo esguio é crivado de facêtas cristalinas r dl' pequenas pálpebras que ficam abertas noite e dia. I 111 vão a metade dêste ser IJIIÍ' resistir à sua dupla fascinação; tn;l\ quedou integrada em si própria. 1'111110 carne real irrigada de luz. 1'111 i~so, nunca paramos nas tentações de passagem. I .• inda somos. como no Início. ven.ladeiramente selvagens. l'11i~ nos dessedentamos indiferentemente 1111, orvalhos noturnos. l ,. nas flôres que conseguem brotar sôbre as neves eternas. I, I n·qiientemente amedrontamos com ressurreições sucessivas 11, que caminham distraídos no ocaso. tt11w inflexão de nossa voz repercute em Mira-Celi; tll.i' quem negará que as nossas vozes não são as vozes de [nossos seguidores'! l'111\ se ouvem neste recanto do parque ~ttlos que nos precederam, "''''1ando séculos atrás de nós.

lltr.,s DE SUAS IRI\tÃs são inteiramente loucas. "'''ras três ainda não nasceram neste parque do céu. ~" longínqua e misteriosa luz vejo apenas seus braços, ,. nas noites serenas os olhos desta extraordinária estrêla. I lma das minhas solidões repousa no lácteo mar de seu ventre: 11"" os olhos dos pastôres c dos nautas .. ,·mprc se alimentaram dela. lkm sei que os Ptolomeus a quiseram prostttutr; ptl'l"eriu entregar-se à5 serpentes sagradas ,, 'cr uma constelação inútil. I la queria a vida eterna, meu Deus! I m determinados ocasos eis que se muda em navio, '''11 cabeleira ou em Ofélia: ,, I

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penso que me vai trair ou enlouquecer ou que está representando neste vasto teatro. Na verdade é apenas uma constelação cristã formada nos primeiros dias, com a aparência de cisne, de chama ou de duna em que se ostenta um de meus horizontes. Ela aspira à vida eterna, meu Deus! Se a tiveres de tran~formar. transforma-a em Águia ou em pérola de teu manto ou em poeira de prata para teus pés! Se a queres extinguir, adormece-a primeiro, para que o reflexo de seu cadáver sempre ilumine " terra. Se a queres mudar de posição. aproxima-a de meus lábios. Se a queres possuir, nada te posso negar. Porém ela aspira à vida eterna, meu Deus! Sei que não compreendo tuas experiências; mas, se a quiseres apagar, podes muito bem apagar os meus olhos, decepar minha cabeça ou transformar-me, simplesmente num [corvo. Mas nunca no teu esquecimento, sempre na tua memória, na tua visão, no teu pensamento!

AS PESSOAS DE MIRA-CELI

RosEus é uma que se livrou do exílio entre os mercenários e tem os cílios embebidos do mais puro ungüento. No seu olhar há indícios de grandes poemas e em seus quatorze anos ela é uma promessa de carne e de lu1 Em sua permanência entre sórdidos escravocratas conseguiu deixar intacto êste orvalho divino que lhe cobriu os seios, quando era menina; e há no seu andar certo orgulho inocente, como o orgulho da noite iluminada de estréias. Roselis liberta ofereceu-se para constituir-se em marco, de uma laguna estelar. porque ela é meio ondina até o ventre ou pouco acima. O certo é que vão renascer nos seus peitos de neve

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