Novos Poemas - bloco 01 (p. 291-298)
ESSA NEGRA FULO
ÜRA, SE DEU que chegou (isso já faz muito tempo) no bangüê dum meu avô uma negra bonitinha chamada negra Fulô. Essa negra Fulô ! Essa negra Fulô ! O Fulô ! O Fulô ! (Era a fala da Sinhá) - Vai forrar a minha cama. pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô l
Essa negra Fuló !
Essa negrinha Fulô ficou logo pra mucama. para vigiar a Sinhá pra engomar pro Sinhô !
Essa negra Fulô ! Essa negra Fulô !
O Fulô ! O Fulô ! (Era a fala da Sinhá) vem me ajudar, ó Fulô, vem abanar o meu corpo que eu estou suada, Fulô !
vem coçar minha coceira, vem me catar cafuné, vem balançar minha rêde, vem me contar uma história, que cu estou com sono, Fulô I Essa negra Fulô I
"Era um dia uma princesa que vivia num castelo que possuía um vestido com os peixinhos do mar. Entrou na perna dum pato saiu na perna dum pinto o Rei-Sinhô me mandou que vos contasse mais cinco." Essa negra Fulô I Essa negra Fulô I ú Fulô? ú Fulô? Vai botar para donnir êsses meninos, Fulô I "Minha mãe me penteou minha madrasta me enterrou pelos figos da figueira que o Sabiá beliscou." Essa negra Fulô ! Essa negra Fulô ! Fulô ? ú Fulô? (Era a fala da Sinhá chamando a Negra Fulô.) Cadê meu frasco de cheiro que teu Sinhô me mandou ? - Ah! foi você que roubou! Ah! foi você que roubou I O Sinhô foi ver a negra levar couro do feitor. A negra tirou a roupa.
NOVOS POI!MAS 293
O Sinhô disse : Fulô ! (A vista se escureceu que nem a negra Fulô.)
Essa negra Fulô ! Essa negra Fulô !
ó Fulô ? ó Fulô ? Cadê meu lenço de rendas cadê meu cinto, meu broche, cadê meu têrço de ouro que teu Sinhô me mandou ? Ah ! foi você que roubou. Ah ! foi você que roubou. Essa negra Fulô ! Essa negra Fulô !
O Sinhô foi açoitar sozinho a negra Fulô. A negra tirou a saia e tirou o cabeção, de dentro dêle pulou nuinha a negra Fulô. Essa negra Fulô ! Essa negra Fulô !
ó Fulô ? ó Fulô ? Cadê, cadê teu Sinhô que nosso Senhor me mandou ? Ah ! foi você que roubou, foi você, negra Fulô ?
Essa negra Fulô I
------------.................... .. . ~
SERRA DA BARRIGA
SERRA da Barriga 1 Barriga de negra-mina ! As outras montanhas se cobrem de neve, de noiva, de nuvem, de verde ! E tu, de Loanda, de panos-da-costa, de argolas, de contas, de quilombo1 !
Serra da Barriga 1 Te vejo da casa em que nasci. Que mêdo danado de negro fujão !
Serra da Barriga, buchuda, redonda, do jeito de mama, de anca, de ventre de negra ! Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu ! Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos ? Serra da Barriga, Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga, cheirando a maconha, cheirando a Iiamba ? Os teus meios-dias: tibum nos peraus! Tibum nas lagoas !
Pixains que saem secos, cobrindo sovacos de sucupira, barrigas de baraúna ! Mundaú te lambeu ! Mundaú te lambeu ! De noite : tantãs, curros-curros e bumbas, batuques e baques ! E bumbas! E cucas: ô ô! E bantos : ê ê ! Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos ! Aqui é Zumbi ! Barriga da África ! Serra da minha terra ! Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi ! Depois, minha serra, tu desabando, caindo, levando nos braços Zumbi !
COMIDAS
CoMER efó, pimenta, jiló ! Iaiá me coma, sou quimbombô ! Cobrei sustância com mocotó I laiá me diga, nessa comida você botou mulata em pó '! laiá me c-oma sou quimbombô! Ai Bahia de Todos os Santos, até nos pecados das comidas, você botou nome santo ? Papos-de-anjo, Pc1tinhos-ue-frl!iia, Quindins-de-convento, Fatias-da-sé !
Ai ! Bahi
Baba-de-môça, Olho-de-sogra, Levanta-marido, Fatias-paridas, Trouxinhas, Suspiros, e Mimos-do-céu !
Bahia, estas comidas têm mandinga ! Bahia, êsse tempeiro tem mocô !
.,
Lá vem tabuleiro ! Cocadas, pipocas ! Lá vem verdureiro : Pimenta, jiló ! Lá vem Frei Tomé : Barriga-de-freira, Toicinho-do-céu .
Bênção, Frei Tomé I Moqueca, dendê, Arroz com efó, Pimenta, jiló !
Me coma Iaiá que eu sou quimbombô! que eu sou quimbombô! Lá vem tabuleiro de amendoim ! Comidas gostosas mexidas por mim ! Me compre Iaiá por São Bom Jesus Senhor do Bonfim !
MALEITA
LÁ VEM maroim, lá vem carapanã, lá vem muriçoca sambando com pium. A terra está suando poças d'água, a lagoa está dormindo, o caboclo está tremendo, está sambando com pium. Minha madrasta Maleita foi você que me enterrou. Quem sabe se por um figo que o destino beliscou ? Manda um rabinho da sêca de 77, meu São Sol, pra secar estas lagoas, pra esquentar esta maleita .
NOVOS POEMAS 297
Mas vem correndo um vento frio e até a água se arrepia.
O caboclo está tremendo, está sambando com pium I
INVERNO
ZEPA, chegou o inverno ! Formigas-de-asas e tanajuras ! Chegou o inverno I Lama e mais lama, chuva e mais chuva, Zefa ! Vai nascer tudo, Zefa I" Vai haver verde, verde do bom, verde nos galhos, verde na terra, verde em ti, Zefa, que eu quero bem I Formigas-de-asas e tanajuras ! O rio cheio, barrigas cheias, mulheres cheias, Zeta I Águas nas locas, pitus gostosos, carás, cabojcs, e chuva e mais chuva ! Vai nascer tudo : milho, feijão, até de novo teu coração, Zefa ! Formigas-de-asas e tanajuras I Chegou o inverno I Chuva e mais chuva I Vai casar tudo, môça e viúva I Chegou o inverno I
Covas bem fundas pra enterrar cana; cana caiana e flor de Cuba ! Terra tão mole que as enxadas nela se afundam com 61bo e tudo I Leite e mais leite pra requeijões ! Cargas de imbuI Em junho o milho, milho e canjica pra São João I E tudo isto. Zefa ... E mais gostoso que isso tudo : noites de frio. lá fora o escuro, lá fora a chuva, trovão, corisco, terras-cafdas, corgos gemendo, os cabarés gemendo, os caborés piando, Zefa ! Os cururus cantando, Zefa ! Dentro da nossa casa de palha : carne-de-sol chia nas brasas, farinha-d'água, café, cigarro, cachaça, Zefa ... . . . rêde gemendo Tempo gostoso I Vai nascer tudo I Lá fora chuva, chuva e mais chuva, trovão, corisco, terras-caídas e vento e chuva, chuva e mais chuva !