Invenção de Orfeu - Canto VI: Canto da Desaparição - bloco 02 (p. 783-790) Obra Completa, Volume I · Capítulo 64 de 90
Obra Menu

Invenção de Orfeu - Canto VI: Canto da Desaparição - bloco 02 (p. 783-790)

INVEN(,;ÃO DE ORFEU I CANTO VI 7HJ

de frios ümbos, de cruzes profanadas, pompa e decôro das futuras cenas. Ruge-se em fúria, tenebroso atando sob o despido escudo um cinto de ossos, alcança mais adiante espelhos fiéis, cspicaça com ira as flôres tenras. Pátria e raça feroz! Osso e haraço! Porém o Maro fiel que a ninguém cede pio e inteiro, valente e majestoso, mastros, remos anima e clavicórdios, rosais, doces ausências, operários. Eis atrás manietando alguns pastôres, com vozeria. Duende um môço traz. c ásperos ódios impudente afia, sempre em tortura, sempre com seus danos. Ncgreja o dia infausto: o rito enceta-se, cingem-se as vendas, ídolos aprestam-se enquanto às velas davam, se é que as deram. Nem mais espero ver meu ninho antigo nem meu querido pai, nem meus amigos, nem redenção nenhuma nesses peitos. Eternos jogos, invioláveis numes, mortal banda que a fronte me adornava aras e tules, que esqueci em cinzas: testemunha me sêde: os meus amei. Interrogo: ó deus sumo, há de um estranho matar a vossa grei desadvertida, poluindo as aras e o vital paládio, roubando do sacrário os ossos santos, conspurcando os missais com mão cruenta? Posta a efígie entre nós, dos hirtos numes fuzis despregam e o salso humor escorrem. Vitoriosas vitórias, o Grão-Maro, uma estrofe desfere - fôrça fraca contra a mole estupenda dos infernos. ó combate com os signos milagrosos! Acima os peitos e as sanguíneas cristas se enfrentam revolvendo o mar nauseado que começa a tremer como uma entranha. Mas degradada, e em sangue e fogo tinta

JORGE DE UMA I OJIRA. COMPLE'IA VOLUM/i I

jaz dizimada a frota incendiária. E agora surge horrível ser antigo de rubros olhos, e vibradas línguas: Vinha lambendo as sibilantes bôcas, e as sibilantes bôcas espumando. Tudo exangue se espalha. E eis que o espectro aprisiona o Grão-Maro: apaga os sóis das duas asas róseas que confunde

e transforma em cascalhos; o anjo-poeta parece sucumbir em hidra c ferro. De baba e atro veneno untado o braço, êle em romper os nós com as mãos forceja, c com horrendo bramido aturde os ares. Vai talvez resvalando. ó pátria. ó Abel, invictos muros, divina} estância, berço de ventos! ó Deus! Sete vêzes pára e sete restruge um rumor de armas. Ostentam flama a ré; de iníquos deuses desgraça-se a falange subsistente. E. deveras o sétimo círculo hiante. Debulhando-se em pranto, como outrora, do pólen negro e incruento, Alguém o livra, com a mão de luz eterna e numerosa. Ai! quão velado Aquêle Rei obrara! A cidade se afunda em grita e pranto; recresce mais e mais o horror dos ódios. ó claras combustões: Tal se um demônio soprando um bravo sul cai na seara, prostra o lavor dos bois, seca verdades arrebatando-as, como insetos mortos.

Pasma néscio o pastor que o ruído escuta; c os filhos do Grão-Maro se enternecem. Contai aos filhos meus como é tão grato morrer-se pelejando (à m

t\'1'/:N(ÃO DE ORFF.U I CANJU VI

as gargantas e, ruas pejas de armas'! O gume de aço agudo (pólen ácido). e Andrômedas de absinto. Jogo abatem nas portas os primeiros marechais. Foram-se todos; é a cidade acesa; tarde acorreis, morramos pelas armas, morramos. Salvação para os vencidos. Mas ninguém logra salvação nenhuma. Isto atiça os contrários quais rapaces Jôbos ardidos de faminta raiva entram por campos órfãos. corno demos, de goelas sêcas, são Lusbéis decerto. Quem poderá contar a cinza e o fogo'! Quem dessa noite as fúnebres tragédias, ou lágrimas terá que a dor igualem? A soberana antiga ínsula doce baqueia; e de cadáveres sem conto, ruas, casas, vestíbulos sagrados, tudo é luto e pavor, braseiro é tudo, multiplicando a morte em vária forma. E também no ar a mesma negra sanha, os tremendos guerreiros de Astarot refervem como fogos de fornalha, e fogo, ar, água, terra desagalham. Os pares infernais no teor dos numes em réprobos enxames atormentam as cidades abertas e os rebanhos. Irmã, tu me iludias? Dize irmã, que aras, tochas, fogueiras acendias? Lançam fachos aos lírios. E eis que Duende a machadadas racha êsses umbrais; c antro malsão descrava das correntes, traves descose. ferros e aços funde e cava ampla aflição. O interno fogo aparece, e átrios longos escancaram-se. Aparecem do Inferno os capitães. Mansões de grão-Beliais; e um monstro exangm~ cobre o limiar. A ilha é um pranto imenso, pranto, pranto; as abóbadas ululam com pânico gemido atormentado,

que as fontes vivas secam. Desgrenhadas andam mães pelas vastas galerias. E ofertam beijos aos missais que abraçam. Bafos de bombas, hálitos de infernos sete vêzes rodeiam os oceanos. E que direis dos signos escudados? Insula em ruínas, naves conspurcadas, a orfandade das flôres seviciadas. De pesada armadura, um velho o ventre trêmulo veste, inútil gládio à cinta, e entre o torpe inimigo a morrer parte. Quem de cidades cem reinou soberbo é cadáver; nas ruas o último ato corre. exangue, dos crânios decepados. Agoniado procuro os meus pastôres. Todos l1!5sos e em campo me deixaram, despenhando-se em treva ou sôbre as chamas. S6 nos olhos ou peito a insone fúria não colhe a noite: os espiões não dormem. Alguém me diz: Que mágoa, ó filho meu; ou que funda paixão te desatina? Diz, e na sombra envolve-se. Aparecem de impuros numes cataduras tôrvas os flamejantes lábios agitando, brasas ardentes cospem sôbre as aras. Que cruz, que deus eu acusei, demente? Que houve de mais cruel no excídio horrível? Os tesouros da ilha em montões vejo Os tetos prostituídos, templos rotos. O Manes, Thecel, Phares, vem de novo, redime as pobres mães, e seus meninos! E eis que a sombra da musa, imagem triste maior que dantes se me avulta aos olhos: Louca, hirta a coma, a voz prêsa à garganta vai noite velha por desertas praças, e outros desterros e desertos climas, chamando pelos nomes sepultados entre cruzes e cascos combalidos. Fabricamos as naus de fado incerto de rumo e pousadia duvidosa.

1.\'J'f,·Nç:IO DE ORFEU I CANTO VI. 787

Nelas doce agasalho e amigos lares tereis tristezas minhas, doces lágrimas. Pois assistimos certa noite vir um veleiro mais alto que uma igreja. E eis que a proa se abriu em duas fauces, e essas fauces um grito estertoraram fendendo o mar, jogando para o alto como líquido facho transparente. Nesse facho desceu Pessoa em Três que falou uníssona em Três Vozes: "Vem, ó Maro que Eu era antes de ti, e fôste meu, aquém, aquém daqui." Depois os trinos lábios estancaram Cri."o em/e.~ ele Virgíli" o mar daquela face sôbre-humana banhada de suor da poesia tão semelhante às Suas Próprias Faces.

IX Morus utópico, querido amigo, Tomás após Maro acendeu Luz amorosa; M orus - l/Ira Virgílio Maro e para continuar &se estro antigo, Dante a glosa nasce, surge vossa glosa. Em urânio se queima o velho abrigo sem picos vai nascer a nova rosa. Despovoou-se a ilha, o campo é vil mendigo: Quantas guerras na paz dificultosa! Quantas desgraças no ouro e no suor, lutos nas vidas, prantos na canção, ódios nos sangues, dores no redor! Há um martelo que bate num caixão Martelo papal. e outro que bate numa porta santa. A lrova cancão 0 IIOVO pOtnul Morus e Maro! e há uma voz que canta!

78!1 JORGE f)f: LIMA I OBRA COMPLETA I VOLUMii I

X Nessa derrota entre mouros, mora em mim essa memória corporizada e constante de coisa que eu não defino e nem sei como extingui-la. Mas nessa estrada de mar quero mesmo recalcá-la, desmontá-la e libidá-Ja: inesá-la, lenorá-la. Morram-lhe as flôres e veias, desespere-se falsa e ôca, vasando os olhos vidrados, as mãos do lar separadas, seus álbuns todos manchados, as janelas arrancadas pelo fel que ela me há dado. Seu nome? Quero varrê-lo dêste navio deserto, as brisas que a enfunavam recolham seus vôos salgados, arda seu ventre mostrado em silêncio à marujada, fôlhas lhe sejam raspadas, sombra lhe seja estuprada, mas não quero ouvir-lhe os modos nem seu cabelo, in extremis-, nem seu púbis dissecado. Tenho mêdo de chorar olhando o seu sacrifício, sua língua alfinetada. Antes quero prorrogá-la, pisar seu chão soterrado, andar de bôrco a seu lado, silêncio nas camarinhas, os anjos vão recitá-la. Eu não sei se é minha musa, meu silêncio ou minha irmã,

1\'VENÇÃO DE ORFEU I CANTO VI

ilha. gaivota ou maleita ou quase tudo, ou menina enteada e foragida. criada dentro dos becos, tempo ou data ou nome ou algo em salinos ventos idos. O mais. seus passos me levem. suas naus me cruzem lumes, seus coveiros me segurem, seu cadáver me perdoe. Depois ficou ressurreta, espinhou-se pelas urzes, lumes doidos homiziou, ardeu em núpcia, fendeu-se. Ah! rumor antigo e poço tão bafio, tão espectro, tão infância, tão bloqueado, entretanto não a ameis, vinde ajudar a despi-la, retirar-lhe véus e seios, vergonhas aeetinadas, sargaços e maravilhas, pomos redondos, corais, sombras insôssas, conveses, capitães que a defloraram, nautas loucos que a cegaram, gaivotas que a debicaram, pestanas que a adormeceram, ventos novos que a emprenharam. Esta é a mulher, esta a coisa, a musa, a vela desviada, a proa desarvorada, a andorinha de seu ventre, a onda que nos criou, essa menina ancorada, a porta da casa aberta, morto o tempo que a violou, a madrasta que a enterrou, os cabelos que brotaram do chão que tudo guardou.

Xl

Um momento há na ·vida, de hora nula, em que 'd poema vê tudo, viu, verá; e a si mesmo, na cêra em que se anula, sob o fogo dos céus, consumir-se-á. Há nas fomes dos tempos, uma gula, umas vicissitudes, fados, ah! Há tempos em que o canto se modula sob o sibilo de cassandra má. ... ,_-·

Vejo morrer, ó céus, em dura lei, meus membros, minhas vísceras, meus ossos sob as rosas de lava que inventei. Antes que os lábios, amanhã, ó poema, hirtos se calem, vossos, serão vossos, êsses cânticos de renunciação.

11·

1/1
Menu

Fazer anotação