Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 01 (p. 810-817)
CANTO VIII BIOGRAFIA
I
EsTANDO findo o cântico das ilhas chorei nesses janeiros flagelados marejados de chuvas ondulantes e tão cheios de ocasos e andorinhas e de várias paisagens que mudavam sob os ventos transidos nas folhagens .
Era nuns tempos quando imaginamos os seus dias calmosos, seus outeiros, umas ervas nascendo, rios indo, e os jardins dentro d'água transparente nascendo rosas para carpas plúmbeas, e em suas lianas raros peixes de íris.
As chuvas, sim as chuvas como as aves baixavam e subiam para as nuvens, c os grandes lírios úmidos c fundos inda entreabertos, inda prosseguidos, fechando-se com as asas dos insetos, mergulhados na morte dos ocasos . E outros reinos gerados em bonanças com seus ares, seus largos oceanos e seus montes ocultos sob as ondas, e outras ondas ocultas sob as águas da superfície que eram êsse vidro do olhar das gentes simples debruçndas.
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ú passadas vivências, dou-vos graças pela vaga aventura entre os assombros, pelo pranto cedido, pelas dúvidas. pela vida rasgada, pelas tréguas, pelos cantos ouvidos nos silêncios. ú passadas vivências, dou-vos graças! Se essas ilhas possuíssem vossos dons, seus outeiros teriam mais momentos, e seu pés correriam se corressem sem os corpos, os vossos outros magos, condições de querer em vários ângulos qui! se deslocam sempre nas presenças. Desta sorte teríeis pensamentos se os tivésseis concordes e tranqüilos, e se nossas distâncias terminassem nas pupilas contrárias dessas faces, ora corrutos, ora mesmo virgens, pensamentos dos dias acabados. Se a vós todos cedessem essas músicas, a canção escondida, os doces olhos veriam renascer novas medidas, novas terras nascendo inda molhadas sob um deus dadivoso que as emerge e após as guerras findas, continua. Nosso encanto é êsse constante renascer jamais por diversão mas sem querer, mesmo vagando nesses cardos duros, mesmo assim se assim fôsse, com certeza relativa que existe em vossos olhos, em minhas mãos, em vossas mãos, as nossas. O simples ar mudava as criaturas, e nós sensíveis faces ante o mago. Antigamente foram, não seriam mais fictícios porém êsses penedos. duros penedos, asas sem trabalho, essas canções tão várias como vós. E não somente o simples ar tornava um ser em outro ser; mas feiticeiros
com leves mãos urdiam realidades, inquietas realidades transformando nossos lábios em lábios apagados c os olhares já mortos; e nos víamos.
Depois sondas desciam. Vinham à tona das águas niveladas coisas vivas, medusas desgrenhadas, sêres, viscos, veleiros soterrados, lemes fundos, fagotes quase graves, terras-cotas, o cão do meio-dia e a tropa surda .
E se algumas surprêsas nos calmavam nenhuma nos levara à descoberta das terras não previstas e de mapas das doces afecções, porém aos túneis, decadências de heranças, febres tensas de prazeres, de tantos sentimentos.
Nós burgueses morremos adorando a vida estanque de lírios campesinos, somos uns gordos, somos pelos untos, . Burgue.~tl uns ricos de barrigas e de argentos, uns secos de servir, de compreender, somos um triste par que não tem filhos . Sentenciávamos, íamos calar nossos desastres, indo pelos versos, amando êsses formatos, essas peles, êsses encantos todos de epiderme, gozando êsses aviões, autos e telas, geladeiras e rádios, televisos . Em verdade acordamos transformados, braços em asas, pés em velocímetros, ventres em gozos bons, costas sem pesos, ôlho varando o espaço, frontes ôcas; e uns seios virgens, palcos das criaturas menos finais que as que reflete o espelho. E, de repente um hiato. Para além: pois cerrados os olhos êles viam e deliravam nomes liberados,
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números de momentos e de símbolos, soledades afins, nuvens em tardes, círios noturnos vendo mocidades . As longínquas manhãs, ó as manhãs! as mãos no lago, sôbre a tumba oculta: e a môça adormecida se acordando do desvaído sono gigantesco. Cai penumbra nas coisas, flor queimada. O fronte surpreendida desfolhando-se!
Mas, eis veracidades que chegavam: a inquietação, o olhar para o futuro, para o imprevisto, para a espera amarga: a surprêsa salobra das manhãs nascendo com as ameaças inflexíveis. Não participávamos nem íamos! -aramos sêres dúpliccs: libertos dirigindo a existência, éramos servos subordinados a acontecimentos, éramos poetas, tudo nos movia. Vésperas somos, esperamos dias e nos dias choramos esperanças . Quietações de condutas e roteiros, necessidades nossas, nossas fomes, abertos os compassos à acolhida e conformes aos tempos perdulários, queridas aventuras de acertar, de ter os fogos virgens e soprá-los.
Sim, reconciliação, sim, solitude a fim de embalsamar a asa perdida, confessionais os crimes praticávamos, que eram ninhos de equívocos perfeitos, embora as transcendências, muito embora! Vós obras temporais tão orgulhosas! Que sois em frente ao sobrenatural? Seiva· cristã, subi pelos meus lábios perecíveis tocados de atros pomos sem vestígios de Deus em suas polpas.
fl4 JORGE DE LIMA I OBRA COIHPLETA I VOLUME I
Quero de vós, ó árv9re, captar dons retirados sob a vossa fronde , ó divina ambição de congregar contra o Príncipe cálido do mundo; deixá-lo nas fronteiras, livres ilhas, alegóricas ilhas, ilhas nossas, figurativas ilhas conformadas, por antecipação, podridas ilhas , Escolha vigilante, narcisismo de quem nos apontou para canções, convite à eternidade, erva d'Aquêlc contra o deliberado orgulho, contra a nostalgia negra dos danados, contra a especiosa dúvida dos sêrcs , Inda queremos mundos ignorados, ilhas surgindo d'água, mar unindo-nos. angélicas espécies comandando fruições intemporais; somos seus metros consoantes, esvoaçam ventos sôbre, e ninguém sabe para que êles vão, Nós somos ilhas rasas e acolhemos a sombra das montanhas e dos pássaros . Tínhamos que esquecer queridas nossas musas cantantes, musas silenciosas, restrições violentando essas montanhas, formas sonhadas dêsses mesmos pássaros. Antevíamos ventres posteriores, recalques sôbre os bustos dêsses deuses, e o espanto ante êsses mármores tão frios com as dádivas paradas, impossíveis. Procurar fixidez, ah! como dói essa mudez das formas consagradas! Ao lado dessas pedras milenares, ventanias vestidas de mulheres metálicas cortando o firmamento, cabelos desgrenhados nos cometas, levando montes em seus pés divinos, pelas estradas, invisivelmente.
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Vamos comunicar nossas visões! dizíamos, e logo os olhos míopes ficavam marejados, mas com os ruídos, mas com as serpes de fogo devorando-os. (Oscilações, tibiezas, lutas grandes sôbre as montanhas móveis dessa fé!) Recordávamos: houve muitas guerras, muitos cantos de sangues e agonias, os terrores cruzaram os caminhos, os séculos estercados dêsses homens, dêsses heróis sem brilho, dêsses ruins, dêsses côncavos, dêsses mutilados. Muitas planícies foram. ódiozinhos entre povos irmãos. Sangue inútil para a medida unânime, grandiosa, para as mãos sem descanso revoando, como pássaros loucos. como fôlhas que do pino do orgulho se esfarelam. Para desvendar fomos. Não colhemos lírios de mel nem manto das infâncias. Escarcéu nos oceanos, nas distâncias, nenhum cetro, nem bússola nem lei . Pregaram-nos as mãos. Foi êsse rei. É melhor repousarmos nossas sombras.
Encontrar uma ilha, encontro fácil, encontrar a verdade, organizá-la, reachar os pedidos enterrados, reencontrar Mira-celi inatingida, comunicar-se, dar-se. dividido, poeta, artista, santo distribuidor. A água que pôde ser até dilúvio recircunda-nos de ilha. A água tem sêde da verdade que eu sou, ilha de Deus; plantada sôbre os mares, sou montanha, somos montanhas, vós irmãos em Pedro, pedras falantes pelo verbo em Cristo. Falaremos palavras. pensaremos pensamentos, e então nós subiremos
para cima vestidos de vestidos, tocaremos as carnes, sentiremos a verdade fugir de nossas mãos, e nossas mãos cingirem outras mãos. Descansai pedras leves sôbre nós, sôbre a nossa quietude, nossa vida tão curta, e vós tão grandes, tão idosas, tão esperanças, sempre, e eu caridade inquieta, transitória, mas capaz de consolar-nos dessa espera eterna . Falo por vós às vêzes pedras e homens nesse jôgo de prantos e de flôres: qualquer frase porém é uma s6 frase. Andamos com uma s6, s6 solicitude, s6 uma estrada andando sôbre nós, existimos poetas sem nascermos. A luz que antes passou virá nos olhos fulgurar as pupilas relativas . Assombro-me de vós, desse pai jovem, primeiro pai liberto, e eu tio velhíssimo, ancianias tremendo minhas mãos, curvando meu bordão antes de mim. Resolvemos destruir distincias entre. Já me falais sem sôpro se eu vos ouço, somos mudos futuros e presentes. E se o passado fala é que o passado era a voz predizendo, pregustando o pranto deglutido com a palavra. Mas não sejamos trágicos nos tédios, gozemos êsse som sempre monótono, essas florestas tôdas, êsses rios com êsses mesmos espelhos fatigados, e durmamos o sono refletido dessas coisas sonhadas e mentidas . Encantos diurnos, sombras projetadas dos ossos sôbre as carnes flageladas, dos olhos entre os cílios ensombrados,
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da luz inexistente, onde a cegueira enxerga a flor com os dedos, ou com as ventas, e o mar é apenas o murmúrio da água. E não sejamos cegos, nós videntes, noturnos enxergados, antevistos por olhares tão rentes que parecem a treva nos fitando, fria treva que nos fixa com os olhos e com o sono. que nos faz móveis, nós os sêres hirtos .
E, não sejamos fúnebres e espessos, sejamos gaios, todavia leves, as mãos unidas sôbre ramilhctes, sem tanger môscas, cêras ogivais, parados cogumelos em que houve óleos de perpétuas unções e extremas preces . Nesse poema informe e sem balizas recria-se uma ilha repetida com seu tomo de pedra adormecido. Seu rochedo de sono é tão fechado que êle vale na vida como um fado, sete cordas caladas em seu gole . Ilha de infâncias idas, hoje achada, virada para todos os quadrantes, inícios de ontem, hoje renovados, mas inconsútil corpo religado pelo umbigo celeste às Três Pessoas, presentes na precária geografia .
A mão tangendo as ondas adjacentes, e as ondas afogando o homem cansado sôbre a roda perene, lenta, lenta a mão girando como flor de morte, porém mão de amanhã, mão entravada que nem pára a foiçada que a decepa. Em que distâncias e climas vos modulo mundo de relativos compromissos onde os membros em vós e em mim conspiram e a que me içaram, bôbo, pela gola?