Poemas Dispersos - bloco 03 (p. 959-966)
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POEMA DE NATAL
NuMA certa noite de Natal, aquêle homem de uma grande metrópole queria um abrigo para passar a noite; um reveillon, uma mulher ou mesmo um bar servia. Mas tôdas essas coisas tinham muitos corações por dentro delas . E, entretanto, tôdas essas coisas estavam muito vazias. O homem foi, então, passear pelas ruas; mas o povo era tanto que o homem já pedia um abrigo para se livrar dos outros . E o homem fugiu da metrópole c buscou os caminhos que vão ter às pequenas aldeias. Mas o povo que vinha nos caminhos para a grande metrópole esbarrou o homem sem abrigo. E foi então que os sinos de Cristo começaram a chamar o homem fugitivo para o novo caminho em que Jesus seguia. Excedente de A Túnica Jnconsútil. Publi- cado em Estado da Bahia, Salvador, 24 dezembro 1938.
ANO 2449
NÃo FOI NO passado nem no presente, ó brasileiros, mas no [ futuro que vi e ouvi reunidas sob grandes árvores várias gerações nascidas depois das árvores que hoje existem. Eram brasileiros, sim brasileiros: homens serenos e sábios c mulheres sadias com seus filhos sadios amamentando-os [ docemente. Havia adolescentes dançando sob as sombras amigas.
Havia môças enfeitadas de flôres que cantavam como se fôsacm [poetas. Nós os de hoje, nós os dêste século, já não existíamos. Estávamos todos mergulhados na morte, eternamente na morte, eternamente na morte. Mas êles nos amavam apesar de nossas faltas, de nossos [ de nossas ignorâncias. Já não se lembravam de nossos nomes e de nossas e confundiam no esquecimento a história de outros povos dis·tantltj que viveram lutando, que morreram lutando. Trouxeram para ali uma estampa de Cristo: somente esta face era a mesma inalterável e bela. Puseram-se a beijá-la: estavam bem próximos dela. Mas ninguém lamentava nem censurava a existência de e de assassínios em que vamos vivendo. O silêncio da morte havia abafado as nossas vozes, o pó de nossos ossos já não existia nas tumbas, a face da terra era outra, era outra. Mas êles nos amavam com uma espécie de piedade, como nós aos que há milênios vieram de Mesopotâmia. Eu os vi e os ouvi, ó brasileiros, eram como nós, sob as mesmas estrêlas, mas haviam nascido várias vêzes para nos esquecer, para nos esquecer e não nos odiar. d/)D Excedente de A Túnica lnconsútil. PubU.fC cado em Diário de NotEcias, Rio de .r.. neiro. 4 julho 1948. ·"
O DIA DO REGRESSO
A IMENSA metrópole tinha banido a poesia mas numa certa manhã, havendo nascido num albergue um menino assinalado, o poeta voltou. Vinha ainda com a sua longa capa e o seu rosto pálido com que o deportaram e vinha alegre e sem ódio de ninguém. E vinha montado no seu burro como um redentor. Então as janelas se abriram e inúmeras meninas, umas de [tranças e outras de flor, surgiram para jogar lírios aôbrc [ a sua cabeça.
l'tWMAS DISPERSOS 96S Muitas mães com seus pimpolhos nos braços o saudaram [chorando. Mulheres que haviam há pouco se encontrado em suas camas [ com os amantes, vieram para os portais para fixar o rosto do poeta nos filhos [ que iam ter. Os homens que conspiravam nos porões deixaram os planos [ tenebrosos e disseram: l á tardava o libertador. ! o sábio que cultivava num tubo um micróbio imortal largou [ a experiência " disse: êsse é o grande descobridor. ,\lguns inteiramente alucinados tiraram as máscaras de gases as- [ fixiantes e exclamaram: um novo hálito baixou na cidade. Vltrios que se entregavam à descoberta dos elixires da longe- [ vidade vieram pura a rua gritar: o que não morre chegou! As rainhas rasgaram as vestes e cobriram o rosto de cilício. Os reis amassaram as coroas com os pés e ficaram feíssimos . Os fabricantes de armas imediatamente se mataram em duelo. Entretanto o cortejo aumentava e o poeta sôbre o seu burro [ saudava as meninas das janelas, as flôres, os adolescen- [ tes e as crianças. E o poeta l'la frente deixava o seu burro pisar nos ramos, nos [lírios, c nos tapêtes riquíssimos: meus irmãos eu nunca saí daqui, [ meus irmãos eu nunca voltei, meus irmãos eu apenas pairava sôbre as águas, meus irm.ãos [ eu estava onipresente. E alguns profetas tiraram as flôres das lapelas e murmuraram [entre si: "Há uma nova parábola e nós precisamos compreendê-la". Assinalemos que antes do poeta chegar aos pés do menino [ predestinado, nlguns traidores cegaram-lhe o burro e apunhalaram pelas [ costas o onipresente. Debalde, porque o recém-nascido tinha o estigma! E então os canhões foram fundidos para fazer sinos e as me- [ tralhadoras se transformaram em velocípedes para as meninas órfãs. Excedente de A Túnica InconsútU. Publi- cado em Diário da Manhã, Niterói, 9 abril 1939.
AS G~MEAS E O POETA
A DIREITA do Escorpião, a dez mil metros de tempo as duas gêmeas, as duas belas gêmeas estão.
Para vê-las e tocá-las tenho que galgar meu telhado e equilibrar sôbre êle um armário e um violão. Sôbre a umidade das telhas lanço uma semente e aguardo que os pássaros venham cantar e comer insetos nos
Se me debruço um instante para medir a altura contemplo-me como num espelho pois meu relógio parou. No picadeiro dão vaias, eu pulo sôbre os centauros. Subo no mastro do circo: as gêmeas onde é que estão? Sou apenas um palhaço entre as estrêlas e a arena. Mas subo. Que noite pura e serena! Minha janela está
Pulo de órbita em órbita: o espaço é pura ficção. Existe sempre um poema entre dois astros distantes. Mando na ponta de um cabo uma lanterna encarnada para que minha meninice acerte a porta de casa.
A minha sombra errradia treme nos pólos: é de frio. Oh como as gêmeas são frias, como sou uma exaltação! O circo vibra em delírio. As gêmeas vêm de saudar. Eu pulo sôbre os centauros, galgo os telhados dos tempos. Entre um século e outro século há sempre um poema: o tenutelll [ é mera ilusão.
Não sei se o que chega aos meus olhos é o pó dl terra se
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Não alcanço violoncelos.
1\ massa está satisfeita: Sou anão. Um burguês me dá a mão. Fico rico, vendo armas, negocio com canhões, pianos a prestações. Esqueço as gêmeas e esqueço que fui xifópago um dia; que me exibi pelos circos, que caí fingidamente. /\gora a queda é real. Eu tinha linhas nas mãos. Um dia à beira do cais Baleia me amamentou. Eu precisava do mar! Virei pirata, parti, em Casbah fui habitar. Vivi ali dois anos amando várias touristes.
Um dia vi duas gêmeas, alta noite nas esquinas. Os cães ficaram latindo para o sereno luar. Vou me evadir de Casbah: nasci entre a terra e as estrêlas. Sou anfíbio, de meus flancos saem ramos, beija-flôres! (Apesar disso tenho alguma coisa insubmersível: as penas de [minha alma.) Excedente de A Túnica Inconslllil. Publi- cado em Diário da Manhã, Niterói, 28 maio 1939.
A OUTRA DOR
ADORCOMUM tem muito gesto vão, muito cenário, muito grito, muito queixume, muito mêdo, muito. O homem fica pequeno,
o homem clama por pão como quem clama pela salvação.
- Quero alimento, quero morfina, quero carne para comer, para me esfregar. Mas um grito da Outra Dor quando reboa, o ar fica parado, as águias fogem, as cortinas do templo se estraçalham: Deus sopra o hálito da renovação. Excedente de A Túnica lnconsfltil. do em Rio Magazine, Rio ele Janeiro,
POESIA
ENFORCADOS que vos balançais como. frutos anificiais. Casais que morrestes juntos furando peitos, golpeando punhos, 6 desgraçado João Balbino que vos afogastes inda menino, Marianita, Marianita no último dia do ano: -cocaína. Vós que usais frases: tiro no ouvido, bebi veneno, não culpem ninguém. não culpem ninguém, viver sem ela não podia, rezem por mim uma ave-maria, adeus, adeus é curta a ausência era demais meu sofrimento. g preciso partir! Tenho pressa!
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Desculpe os erros gramaticais, Mamãe perdão, até breve, até ... Não quero retrato nos jornais, amor não tenho, não tenho fé, nem inimigos pessoais, só acho tudo muito pau. Deixo cartas pra polícia. Tinha de ser assim, sou fatalista, salto o último obstáculo!
E vós suicidas que ninguém reconhece, de tão desfigurados e horrendos, sabei todos que a vida vai de mal a pior, vai de mal a pior, vai de mal a pior! Excedente de A Túnica Inconsútil. Publi- cado em Diário de Pernambuco, Recife, 9 agôsto 1942.
LA MUERTE DE SAN SEBASTIÃN
I' ARA MATARTE vinieron sagitarios de las constelaciones de Lucifer; mas las saetas se transformaron en abejas mhre la miei de tu sangre cristiana . llajo tus ojos agonizantes los centauros se suicidaron rrr el mismo mar en que los alados navíos parten para la lejanía. l'odían venir águilas a roerte el higado,· f/referiste, empero, desplomarte, sangrando bajo los ojos del Pez. A ti, querido seíior, cubre la sombra original de un triángulo. A ti, querido seíior, querido cadáver santo, 1'1 aire de las alas de una Paloma 110 deia aue se corrompan las manos agujereadas ni las piernas [partidas. {)entro de la sangre coagulada, tu coraz6n brilla como una rosa [ de espejos. l' las medidas de tu cuerpo las envidiarán las ióvenes atletas, .1· tu sudor de agonía disipará las pestes dei oriente. Querido seííor: tus claros ojos sirven de sustitutos 11 las 6rbitas de los ciegos. Manda a este sol aue condecora tu cabeza pendida que ilumine las o/antas de los mendigos.
Basta Que tu mano ooses en mis hombros para que los pájaros diezmen regimientos de hipop6tamos. Negros jinetes. sin embargo, arrastran en direcci6n del océano la cabe:r.a truncada del orgullo. ;Cien millones de espadas cai!lan a tus pies cuando yo mande que caiganl Excedente de A traduzido para o es~•an:no1 veiros. Publicado 22 junho 1952.
POEMA A NOITE E A AMIGA
DEIXEI tudo para vos esperar, 6 noite que baixais! Meus olhos nada possuem para vos oferecer senão esta ânsia de quem não esperou em vão. Fechei todos os livros, tôdas as páginas coaguladas, e longe da obsessão do número e do limite ofereço-vos as minhas pobres mãos perfuradas: tocai para sentirdes que o perpassar do tempo foi como um espelho apagado e órfão de qualquer solltlor,..,~ E agora que as trombetas ressoam e satanás se revela, o século já não precisa de meus cantos nem de um culto morto que só Deus compreende. Amiga, pousa em meu ombro teus pulverulentos braços. Estamos cansados, e a noite é úmida: eis o momento do salto. Excedente de A Túnica lnconsútU.
MENINA
MENINA MORENA de saia encarnada de calça no chão o sangue da terra