Invenção de Orfeu - Canto III: Poemas Relativos - bloco 03 (p. 723-726) Obra Completa, Volume I · Capítulo 55 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto III: Poemas Relativos - bloco 03 (p. 723-726)

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Sei que houve portas escancaradas, sei que houve apelos antiencarnados . E houve um dilúvio, mas era um fogo desabrochado.

XXIII Quando menos se pensa a sextina é suspensa. E o júbilo mais forte tal qual a taça fruída, antes que para a morte vá o réu da curta vida. Ninguém pediu a vida ao nume que em nós pensa. Ai carne dada à morte! morte jamais suspensa e taça sempre fruída última, única e forte . Orfeu e o estro mais forte dentro da curta vida a taça tôda fruída, fronte que já não pensa canção êrma, suspensa, Orfeu diante da morte . Vida, paixão e morte, - taças ao fraco e ao forte, taças - vida suspensa. Passa-se a frágil vida, e a taça que se pensa eis rápida fruída . Abandonada, fruída, esvaziada na morte, Orfeu já não mais pensa,

calado o canto forte em cantochão da vida, cortada ária, suspensa lira de Orfeu. Suspensa! Suspensa! Ária fruída, sextioa antes da vida ser rimada na morte. Eis tua rima forte: rima que mais se pensa.

XXIV A sextioa começa de novo uma ária espêssa, (sextioa da procurai) Euridice nas trevas, O Euridice obscura, Eva entre as outras Evas. Repousai aves, Evas, que a busca recomeça cada vez mais obscura da visão mais espêssa repousada nas trevas. Ahl difícil procurai Incessante procura entre noturnas Bvas, entre divinas trevas, Eurídice começa a trajetória espêssa, a trajetória obscura. Desceu à pátria obscura em que não se procura alguém na sombra espêssa e onde sombras sio Evas, e onde ninguém começa, mas tudo acaba em trevas. Infernos, Bvas, trevas, lua submersa e obscura.

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Aí a ária começa, e não finda a procura entre as celestes Evas a Eva da terra espêssa .

Eurídice, Eva espêssa, musa de doces trevas, mais que tôdas as Evas musa obscura, Eva obscura; sextina que procura acabar, e começa.

XXV A Musa A barba tão preta que era azul, morta que as amantes tão ruivas que eram nulas . •·~m de 1111tros Amara onze e mais uma, numa só li•·ros morta, em alma, sem cadáver, sem tumba, e que amara - morta, morta, morta.

XXVI

Sombra encantada, declinara num vago dia, incerto dia. Eis uma deusa, pelos gestos, por sua dança, sua órbita. Era preciso compreendê-la, mas quando nós a avizinhávamos, a deusa arisca recuava. Se nós recuávamos, voltava ao nosso encontro, sem tocar-nos. Então corríamos, devassos, quase enlaçando-a: ela fugia. Era uma deusa pelos modos com que mentia e se ausentava. Mas outro dia, vago dia, abrutamente a aprisionamos. O que tu és, deusa, ignoramos, mas desejamos, qualquer coisa fazer de ti, terror ou júbilo ou nossa vênus favorável

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ou nossa esfera de vocábulos. Ela chorava, não queria; e o pranto logo a dissolvia. Então descemos, ventre abaixo e renascemos de seu sexo, - trânsito virgem de palavras. Era uma deusa, pela fúria com que nós todos a ultrajamos. Era uma deusa e não sabíamos se cada qual mesmo a violou. Era uma deusa, pela dúvida que em cada um de nós, deixou.

XXVII Contemplar o jardim além do odor e a mulher silenciosa entre semblantes, e refazê-los todos, todos antes que o tempo condenado os atraiçoe.

Porque eu quero, em memória refazê-los: flor longínqua, mulher não pertencida, substância inexistente, móvel vida, intercessão de nadas e cabelos . E meus olhos ausentes me espiando entre as coisas caducas e fugaces a minha intercessão em outras faces . Orfeu, para conhecer teu espetáculo, em que queres senhor, que eu me transforme, ou me forme de novo, em que outro oráculo?

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