Invenção de Orfeu - Canto II: Subsolo e Supersolo - bloco 01 (p. 678-685) Obra Completa, Volume I · Capítulo 49 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto II: Subsolo e Supersolo - bloco 01 (p. 678-685)

CANTO Il SUBSOLO E SUPERSOLV

I

1:! PRECISO falar-se das criaturas, verdadeiras criaturas animadas, das vivências totais, arbítrio e tudo, alma, corpo funesto e essa imortal

perpetuidade além, Deus nas . alturas,AI"em d o Te1ur • 1cu nomes de terra e nomes eternados, 0 preter anjos, demônios, sonhos acordados e o sobre1wtu"ll e as profecias, fúrias, posses, tudo

que um poema pode ter: êsse clamor, essa indefinição, êsses apelos, - sonho de rei Nabucodonosor,

que depois de refeito e decifrado é a condição do bicho: carne, pêlos, e sangue breve do homem desgraçado.

Dentro do solo impossível, do possível supersolo, ou das corolas lunadas, sempre fôste a imaginada que na face nunca im6vel acenas lenço constante.

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Contra muralhas, as unhas gastei-as cavando os nomes com que sempre te insculpis!e - mconstância e persistência, ré de amor e testemunha, pólen da vida perdida, nau de luzes apagadas .

'•'"'I'"' a ú suma clarividência ... h,,·l'in}ncicl ,,,, '"'e f'erdida procurada em campo móvel, soledade acumulada, vens e não vens clara vida, hoje seta desgarrada, amanhã chorado abril, e depois nina encantada em céus de terras passadas.

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Vinha boiando o corpo adolescente, belo pastor e sonho perturbado. Deus abaixou-lhe os cílios alongados para que êle dormindo flutuasse.

Ressuscita-o Senhor, essa medusa de sangue juvenil em rosto impúbere, desterrado da vida, flor perdida, irmão gêmeo de Apolo trimagista.

Seca-lhe a espuma que lhe inunda o peito e as convulsões mortais que o imolaram às sodomas ardidas em seu leito.

Anjo adoecido, alheio dançarino que dançaste em Gomorras incendiadas, Sodan1a estás cansado; deita-te, menino! e Gomorra

IV Se me vires mumero, através dêsse poema, entre as coisas e as criaturas,

como se eu próprio fôsse o que outrem é, dissipado nas páginas impuras,

arrebatado pelo próprio poema, possesso, surpreendido, fragmentado, travestido de herói ou de réu, em quase todos os versos degredado, negarás meu irmão, a alma que vive perdida na ansiedade de si mesma sonhando a paz, querendo a paz; a paz

mas nas tormentas em que a paz revive mas nos silêncios em que a paz se lesma e se intumesce. Eu enlouqueço! Mas até na álgida paz da insânia, Deus me busca para ser seu convulsivo e amado filho em tôrno de quem crês morar a paz que êlc destina viva a todo aquêle que lhe faz perguntas. Eis as re!ôpostas nessas vozes gêmeus, deblaterando sôbre teu defunto, sôbre teu louco, sôbre o teu recente corpo hoje inda nascido e já julgado e já descido, e já movido nesses campos da morte, sob os passos, pássaros, aos ventos indo, sob as noites gastas, passos sob as caliças, sob os gessos, sob as bôcas sem choros, em seus nadas.

v Neste sepulcro de secreta lava jaz formosa mulher, governou sua casa, fiou lã, seu filho era marinho, e seu homem uns sonhos fabricava.

/tJmflia Os três bailavam sempre narcisados; A boa sabiam fazer cantos e navios.

111 I I.NÇ.iO DE ORFEU I CANTO /I 681

Os nomes dêles eram de afogados. ú família de pélagos sombrios! Casou-se o filho, teve um par querido, e dêste par vingou um marinheiro. Fundador de oceanos foi seu filho.

Ele é que dorme nesse mar combusto. Saem de seus flancos asas de veleiro, canta-se em búzio pelo mar sem bússola.

VI Iam bem juntos, iam resolutos, olhares cúmplices mas não impuros; andavam devagar, indissolutos num vago andar feroz e quase inútil. E.le rodou-a. Tarde de uns outubros. Era por uns desvãos. Amado estupro. O umor brutal Pegou-a em cheio. Júbilos c frutos. Carinhos se chocaram. Testas, púbis. Só me podes gozar feito ser bruto? Teu ser me dói em mim. Por que produzes as tatuagens'? Queridas urzes. E êle: Pariste os filhos que hã em ti íncubos? Ela mostrou-os. Partiram mudos na escuridão. Surgiram bugres. Ela ofertou-lhes seu ubre. Estava pura, outra vez núbil. Filho, filha, mútua pendência em tudo, a mesma arena e cama. Olhou as mãos, as mãos da doce luta agarradas as duas a outra nuca.

VII Tudo é lícito aqui nessa Sumatra. Lícito desmontar-te, Lys, teus seios

e nêles pôr teus olhos renegados, desacertando a glória que Deus fêz;

e depois desconstruir-te, Lys inata, carne subterfugida e doces veias, restituindo-te à noite desgarrada nos baíxios submersos do teu leito. A amante E adorar-te anjo meu reproduzido, que iti vem de biografado dos anJ·os parricidas, Mira-Celi sem sentido de lógicas estrofes,

pois meu grito danado é o mesmo grito encerrado no ventre dos ouvidos, repercutido pelos céus que sofres.

VIII Em Zozilhar, ao sul, nascemos nós, habitantes nativos da água pia, olhos soprados pelas bôcas frias das luas do ocidente, e os pés velozes

sôbre raízes duras mergulhadas nas ondas quase aos joelhos, entre os trigos arborescentes que põem palhas tíbias sôbre as línguas trementes, despedindo

palavras salitrosas como as pedras emersas e habitadas pelos pássaros marinhos, repousando sôbre as vagas

insofridas ao norte, ao sul, a leste, a oeste, e pelo ar subindo e pelo chão descendo, sempre e sempre, e para sempre.

IX

ú Memória dos mares, Taprobana, sou da raça de nautas submergida. E êste monstro! Que monstro tão antigo!

1\'ILNÇÃO DE ORFEU I CINTO Il 6!!3

Tão puro Adamastor, tão rcversivo, tão grosso deus, tão pura geografia! Não quero exatidões nem astroláhios. Ontem se arou a terra, rcplantou-se a progênie dos sêres indivisos.

Denomino-vos, chamo-vos de novo úguas descomunais, estrêlas virgens, peixes vivendo em aves, anjllS de antes, sem cartas de vigiar. tão doces sumos derramados nos ares pressentidos. Desejo lavar tudo: o fogo. a úgua c o ar, - sêres antigos que o homem corrompeu: desejo ver de novo. andar de novo,

dormir nas pedras duras, renomar-me, reemendar-me dos erros mutilantes. Reconheço essa mão fossilizada entre lianas e as quedas estacadas; quero descoagular-mc e deixar-me ir. Filho pródigo quero regressar. ó descuidada infância desigual! Onde, ó meu Deus, a dança sôbre a ardósia,

em palimpsesto c cinza sotoposta? Onde os passos da amiga, onde o seu rosto? Sei vosso sal, saliva inominada embebendo meu ser de sonho e cal.

E o arcanjo vigiador reconhecendo-me, designando-me, tão memória aguda, tão aparência minha, ó doce espelho terrível, demasiado, numeroso.

Contemplai êsses vales insulares escancarados às fecundações. As pedras suam, lêsmas se diluem nos pistilos das flôres indormidas. Ouvi gemer os partos, e calai-vos. O reconquista, ó alma suma, ó vida, ó sóbria companheira castigada, vejo teu rosto lento, uoce infanta

esbofeteada em plena festa maia. Banida irmã recosta-te em meu ombro. Subsolo Há passos pela noite: os filhos lutam. d• Caim O pastor sucumbiu. Coisas chorai : o crime floresceu em plumas novas. Essa noite haverá novas fogueiras. ó lágrimas de prantos enxugados! ó cânticos herdados, 6 memórias!

X

Nasci de mortos, ontem ou hoje, viva camisa sôbre êsse corpo subserviente. Bêsta de plumas, concordaremos. todos hão sido muito plausíveis dementemente. Agora e sempre, continuaremos, pêlos de febre, mortes perfeitas, mêdos et coetera. No mais e em tudo são choros íntimos e mais os dentes, vulgaridades, sem que eu consinta. Mesa esfer6ide, n6s conversamos; e há mãos bem nossas, de manequins, nos tateamos. Tudo é memória, meu ser não houve nem amanhece; contudo nunca ninguém nos ouve nem faço gôsto, porém recalco, Biografia lpica sou soterrado punhal civil. Ah! biografia! Caminho e corpo de olhos vidrados dentro das horas recuperadas em tempo a dentro;

1\'I'I:NÇAO DE ORFEU I CANTO 11 685

a vida minha, tutela c~tranha, carne surprêsa, pão salivado, trigo secreto, perto horizonte. canto sem côr,

olhos exatos, presença dada, permanecida. Os meus comparsas: há um com musgo~. há um com mirras, há um que é só e outro longínquo. Horas, orai. Orar? Horei-me; rotina ausente, semblante calmo baixado ao livro. Tudo se dá, tudo se muda, ser um milhão no sempre vácuo, talvez, talvez. Carinho alheio, mole tangente, tôrre narrada, flor descontínua, alienam ente. Monte vazio, través e em tôrno; será meu ser? Já não me lembro onde o encontrei. E como iria torná-lo vidro, atrás do sono, contigo e o láudano? Ai fardo em mim. De fato um gôsto, sou como os outros; vou mas voltei, xara chorada ricocheteia. Porta de laca com inseto atrás, com móvel passo, com igual remorso recrudescido. Dentro da barba dorme êsse neto, arco c momento, vida una e sempre: Fem me s:111s tête com essas palavras

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