Invenção de Orfeu - Canto III: Poemas Relativos - bloco 02 (p. 715-722)
se a pedra não fôsse o símbolo que era, pois tudo era um dia, um dia sem dia, porém com o poeta que um dia seria.
XV
De manhã estrêlas verdes na inocência do ar coleado, intranqüilas e veementes. Ao zênite e areia em sêde, asas das hastes pendidas, as nuvens-castelas altas como painas amealhadas. De tarde a visão das velas, nuvens baixas sôbre as verdes rosas das hastes fictícias; os desejos dissolvidos repousam abertamente; e êsse deserto de vozes, e êstes cabelos perenes de seus nervos para os dramas. Mas se as palmas fôssem isso, as fontes seriam pratas, e as pratas seriam o puro sonho de quem vive. Todavia o sonho é como as palmas dessas palmeiras. Eis as palmas.
XVI Os dois ponteiros rodam e rodam,
mostrando o horário irregular.
Horas inteiras despedaçadas, horas mais horas desmesuradas.
Com seu compasso, lá vem a morte pra teu transporte,
e com os dois braços: esta é tua hora, levo-te agora.
XVII . Um te exalou nessa incidência: céu, terra, mar; impermanência. Outro te andou te indo e te vindo pra te juntares, te convergindo. Quem te volou, êsse te deu o sono no ar. &se te entoou e te nasceu sem te acordar.
XVIII No dia seguinte: chamados da terra, o poema te leva
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te dana, te agita, te vinca de cruzes, te envolve de nuvens. Quem sabe aonde vai parar no outro dia?
XIX
Roteiros vencidos com passam a festa: a noiva está fria no véu lamentado. Três potros desfraldam-se três faces transcorrem no côche morrido, em vão galopado.
O nome do noivo? O nome da noiva? O nome do diabo?
Três nomes corridos, três sombras penadas no drama calado.
XX
Aqui e ali me encontrareis, entre um poema ou em seu curso, além e aquém, oculto e claro, vivo ou demente, ou mesmo morto, ou renascido como meu sósia, intermitente, ferida t6rpida, pulso de febre,
nesse cavalo, naquela tinta, naquele poema quase alicerce, quase êsse infante, êsse anjo surdo. Ia esquecendo: eu e meu s6sia somos momentos entrelaçados. Ei-lo veemente volta a seu palco, sobe a uma origem, desce de novo, envolto ou nu, êsse homem gêmeo, jamais verdugo, mas palma incerta, sendo meu pai, meu filho e neto e aquêle longe porém limiar, malgrado a clâmide aberta e alípede, foi argonauta, podia sê-lo se êsse jacinto não fôsse canto, canto de galo crepuscular, profusamente cedo se oculta por essas laudas sem perceber seu fácil ímpeto ante a palavra visualizada; mas de repente desaparece. Agora eu surjo naquela esquina, naquele pórtico falam de mim;
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ouço transido êsses vocábulos desconhecidos, emerjo em rios que vão passar, mergulho em rumos acontecidos, sucedo em mim, depois vou indo fundo e arrastado na correnteza que é de repentes. Morto incorrupto guardo meus naipes mais pressentidos, intercadentes, desordenados. não há atavios. não há disfarces, dissolução dos prantos largos manando laivos, lanhando aspectos; desacredito-me perante os leves, nem sabedor de alas longevas, ~;e o porvindouro é puro exórdio precocemente desencantado; se os seus presságios remanescidos, salvo-condutos manifestados; correm desvios vulgares trilhos, que todavia prossigo em mim. minha progênie, uns dementados, outros co-réus, reconciliando-me
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com os mutilados e êste glossário que é de meu sósia; abastecido alego dores, crescentes cargas; me patenteio, fico exaltado sem parecer; depois me espreito na curva adiante, simbolizado, metade em mim inda nascendo, a outra metade superlotada; então me sano excluindo as nucas executáveis; não evidente nem aberrante me envolvo de alma, doce alimária com alguns anexos aparelhados para colhêr belas paisagens e outros petrechos do sósia amado; quero sofrer-me, quero imitar-me, fico enpunbando meu corpo no ar, dependurado, meio aderido a alguns palhaços insimulados, portanto instáveis, muitos insossos, muitos até beatificados; ventos corteses bem-parecidos
vêm agitar nosso espantalho, enquanto as aves canoramente se desaninham de nossos braços, ossos atados a chãos deitados, chãos contestados por figadais, mas afinal chãos estrelados de algumas plantas ambicionadas por umas môças que andando s6s se despetalam e viram brisas, fagueiras asas, pelas janelas passam nos vidros, vão aos relógios, param os cucos, e a vila fica inteiriçada, dormindo dentro dêsse poema recomeçado por novo sósia .
XXI
As portas finais, os cantos iguais, os pontos cardeais sempre obsidionais . Os tempos anuais, as faces glaciais, as culpas filiais sempre obsidionais.
Os dois iniciais, as dores tais quais, os juízos finais sempre obsiqjonais.
XXII Era uma vinda, dadas as luzes. dadas as faces que ali se achavam, nenhuma espúria, nenhuma enfêrma, dadas as côres, dadas as falas que ali se achavam; dadas as provas dessas presenças, deu-se o milagre em aços doces, em gumes brandos em chamas graves; formou-se um gênio pentangular que começava com a estrêla Vésper, riscando a noite sem se acabar; formou-se um lirio na suave treva, gerou-se um grito de tantas vozes. criou-se um fogo correspondente, · jorrou-se um pranto desabitado . Era uma tarde: ninguém sabia o que no mundo ia acabar.