Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 05 (p. 659-666) Obra Completa, Volume I · Capítulo 46 de 90
Obra Menu

Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 05 (p. 659-666)

INVIõNÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 659

nos limites da mata, roda as onças, urro em fogo das onças, onças indo com a montanha de fogo, mata em fogo, antas indo com o fogo, e o fogo indo.

Cortar caminho, vendo com os dois pé5, tirar ouro pra os outros pagar dízimos, zona de ipecacuanha, de mezinhas, não se liga matar os emboabas, quero posse de bispos e caciques, abolir o limite meridiano.

Tomar salsaparrilhas para o sangue. Predomínios de matas e de rios, solos salinos, pastos suculentos, eclesiásticos ambulantes, contas, e a viagem para o Norte, sol e sol, a fronteira não tem parido légua .

Comer, nós não comemos nenhum bispo, o branco mente muito, o corrompido, embaraça essa vida, o branco é assim. Comer nós não comemos nenhum branco, nem fumamos mentiras, fumo nosso, fumo de paz ou guerra, mas valente.

Vistosos os adornos do homem branco pras bodas do Delfim com a Infanta Espanha, eu peça pra pinturas e anarquias, pra trovadores, angos, gafaréis, eu mico de Nassau, topinambou, Sorô-bebé de insurreição, o nu.

Cravado de premissas e de olhares, de holofotes e cines, eis teu índio, grudado de tucanos e de araras, operário sem lei e sem Rousseau, incluído em dicionário filosófico, metáfora, gravura, ópera, símbolo.

Utopia de santo e de sem-Deus, teu índio, teu avô, teu deserdado Adão, perfeito Adão sem teus pudores

falsos, consciências, dúvidas, receios, Emílio bronco, pai de que Rousseau? De Que Montaigne? De que outra convivência?

Indio que te contém como moldura guardando personagens obrigadas, umas em rêdes, outras em gavetas, em redomas de prata, umas vestidas, outras despidas, umas tantas mortas, retratos desbotados, faces idas. Caveiras em museus; Pedro Segundo vendo estantes, fantástico barbaças! E ao lado as prateleiras com uma fauna de peixes empalhados, irmãos gêmeos de teu anfíbio índio mergulhado, dissolvido nos rios e nas febres.

E sua muda fala com os das águas que o rei jamais entende, fala sêca conservada nos álcoois ou moquém de sombra nas malocas devastadas pelos filhos do rei . Catalogados uns fiapos, umas tangas, uns chocalhos.

Cobre-lhe o asfaiLo a marca de seus passos tão bêbedos que ignora se morreu, sono de índio cansado dêstes séculos, dessa malícia branca, dêsses ópios . Teve lições de infância recordada; Como tu dóis, Timbira, nesses cantos! Não obstante o transporto a outros misteres, transformado em pretéritos de língua geral fossilizada, moqueada, urna de traças roendo mortos não chorados, hoje encontrados secos, igaçabas como empôlas do tempo latejando.

memira Mas como foi êsse índio'? Todos sabem. de E.le mora no vosso olhar já verde, lndio na vossa louridão, no vosso passo, na vossa descendência, partos simples

INI'T:NÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 661

como fumar, falar essas conversas, ou dizer que não mente se mentindo. Ou no riso cavado, na denúncia, na carência, na flecha inda enfeitada, no papeiro de louça, na moqueca, no caju, no cabelo cnxundiado, dessas coisas anciãs ficou um pouco de tudo, êsses anzóis pescando taras.

Ficou um tanto de dentro disfarçado em abelhas servis e aves-bonecas e cobras papa-ovos para os ratos. Ficou o abraço aberto para vós, ficou o mêdo de coisas caiporadas, de estrêlas corredeiras, de cometas. E êsse grande Gonçalves, vosso neto desapartado aos cinco, da mãe parda, pra rouxinóis, choupais, capas, mondegos; e a colina coimbrã c as travessias, e o pão do exílio sem sabiás timbiras, e Ana Amélia, meu Deus, tão impossível. Vossa vagabundagem pelo mundo, vossas mazelas, vossa volta à pátria, para morrer na praia, sob um mastro, sob uma quinta, sexta-feira ou sábado em veleiro de proa carcomida, sem vos curiosearem nem sequer. Sorte vossa, chifrados, como dói, no silêncio parado, paranado, sem nunca vos sarar, índio-mirim, lambuzado de idéias estrangeiras, passeado de formigas jaquitáguas, estrêla da manhã sem vos clarear . Nem matinado, sempre entardecido, nossos pipios já não chamam ventos; vossos enfaros, vossos borrachudos alargando o silêncio maresiado, abicado no escuro dêstes tempos, sem pau-brasil, sem ouros, sem espadas .

Capital da República habitais com chinelos, pensões, nomes de tudo, carapanãs, estádios, urupemas, pensamenteando idéias, feriados, batalhas de confetes, constituintes, leis de trabalho, vaga-lumes, fordes. Pois vaga-lumes, sim, relumeando vossos caminhos, câmaras, senados, com vossa proteção paragrafeada, habitações e luz de quem cedestes êste cerrado bosque de brasis com doces firmamentos e cruzeiros .

Vamos nos consolar nos coletivos, sentar juntos, beber nossos orvalhos, olhar mansas coxilhas, nos coçar, gozar praias amenas, filas, bondes, nomearmo-nos chefes-de-seções, conseguir sinecuras, nossos índios. Vossos índios ocultos, ranchos dêles, tecendo teias sôbre vossos olhos, e no pino do dia o calorão, a tristeza do sol dormindo esperta, tudo largado aí com os nossos índios, com o pino do meidia, com as sezões. Quem vos mandou inventar índios. . . Morus, ilhas escritas, Morus. utopias, Morus, revoluções, Morus, ó Morus? Os índios se esconderam no homem branco, nos seus assombros, êle se invadindo de ocasionados índios, de outros índios. E nós nessas salmouras ou pilando ou comendo mixiras, tracajás, temporizando fogos brandos, lenhas, pirões precipitados, mandiopubas; e nossos columins sobressaltados pelos juruparis de importação. E em nós os nossos índios federando sabedorias íntimas, vontades,

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 663

caprichos devastados, confissões contidas sob os pêlos enroupados, madornas de urucus, noites suadas, coceiras de frieiras e desejos.

Padres-mestres vigiando rêdes fundas, jiraus estremecendo, castidades moles, as cunhatãs de sono leve, os pecados voando pelo escuro, maripôsas paradas esperando, por maripôsas ou por lagartixas. Enfieira rés-a-rés de som pobrinho, nós ilhéus engasgados com of -clides esquecemos mandingas, pajelanças, com êsse canto planando para danças pra Tupã e morenas se entregar. Catimbó. Catimbó, na noite imensa. :lviões Há piranhas aos cachos, hoje aéreas, tingindo os arrebóis, de sangue humano; é bem melhor babar ternuras que violências, escutar qualquer cantiga, que aturar êsses bichos, onças pardas, onças pintadas, onças disfarçadas.

Assuntamos os cismas aninhados, aprendendo, imitando os guaçus chefes, para dêles zombar, (os famanados!) Que as saudades arrulhem. Nós de novo, queremos secundá-Ias, nos flecharmos, nos clarinarmos com cauim, dormindo.

Moremos êsse doce papiri, sem maliciando ações, sem cancerando, sem desejar as terras dos vizinhos, banhando-nos nas chuvas de janeiro, sem desgastes no juízo memoriado, sem preparos de flechas e de chumbos.

Graça da vida, e marca de horas boas, caminho alumiado, arco de adventos, carismas e outros dons mais compreendidos,

psicologia dilúvios de branduras, indolências, do preguiças planizadas, gozos quietos, brafileiro. quereis a mão na mão, quereis sofias?

Conhecemos jesuítas, se os conhecemos! Com êles andamos pelos megaís, pelos jequitinhonhas, grãos-mogóis; a corcova do padre ia na frente, a batina em velame. pés descalços, A11chl1t1 · cantochão ponteirando êsscs mundões. Criamos cascos, galopando, firmes. Dromedários de Cristo com êsses montes nas costas calvarinas, navegamos entre jaguatiricas, suçuaranas, enrolados de cobras como cordas, cascavéis chocalhando guizos fúnebres . Recalcando saudades caducadas pelo arrôcho da vida mal-querida, calcanhares mordidos de saúva, existimos, fugindo de boiúnas. Mas, esquecemos muitas dores, muitas. Faz-de-conta, Timbiras que esquecemos. Tradição de indianada, tudo isso. Timbira ausente entrando pelas testas como um remorso bom, saudade leve, pranto constante, sempre nos poemas. Podeis frechar-nos índios atuais, e mesmo detestar-nos, devorar-nos. OJ índio.~ Já não estais, timbiras, já não sois. reai.• J:. preciso andar sertões pra encontrar-vos, verter íntimos sangues, correr matos, braúnas, umbuzais para encontrar-vos. Já não sois belos como nos Caminhas, e sois enfermos e não sois tão nus.

Viveis presos, timbiras, nessas selvas selvagens, das memórias recalcadas, reclusos em varizes de libidos. Nós choramos, timbiras, nós covardes,

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 665

nós nos comendo pra nos conhecer, sofrendo os nossos dentes em nós mesmos. Moquém ruim, de carnes embricadas, corrompido de terra e morticínios, de aguardente, varíolas, vícios brancos nós nascidos libertos, nós cativos, nós cedidos, cedidas nossas ocas. dissolvidos nos sangues de outras gentes . Sim, guardamos memórias que se adensam, lhes damos importâncias afetadas pra que elas nos assombrem com fantasmas, com boiúnas tiradas dos oito unos, dos casimiros nossos traduzidos em primaveras quentes e soluços. Que sopranistas falas nesses índios! Eles que jantam? Pratos? Pcsadum.:'s'? No momento que corre, deficiências, comidas enfeitadas, que acalentam Lmi

Perdemos nossos rastros pelos barros encruzilhados, cheios de almas frias abandonadas nessas solidões, riscados de cometas; t:éus nos cobr..:m com as mortalhas rasgadas por corujas. Enfim, nos figuramos nessas nuvens. Temos sido Gargântuas bem imensos; hoje não somos nem comemos muito. Apenas uns gorjalas quase baixos, levados das palmeiras para as serras quase colinas, para os mêdos quase sombras, para as memórias quase extintas. Agora finalmente somos listas, registros e folclores, todo-o-mundo, papagaios em círculos concêntricos ou círculos de Dantes orientais, fábulas criamos asas, somos poemas, outra vez papagaios, papagaios.

XXXII

No profundo das coisas materiais, há um roteiro de dança mais severo que o bailado do vento entre enforcados, principalmente quando as feiras findam, e os derradeiros bêbedos proferem palavras agoniadas, los sapientes!) uns cochilos de cova, uns salmos miados; é o roteiro da cana. Ei-la que os sua e os adormece com (entre os suores) os suores de seiva mais vinagres; pois a cana são gomos, mesmo bares com ruídos de língua, tragos fundos, e uma só fôlha como espada verde cobrindo pazes, ventres e barricas e alambiques, bochechas e garrafas.

Falo de canaviais que com seus bêbedos são canículas sôbre os poentos morros; falo de canas, falo de seus homens, bal/et seus dançarinos, dançam, dançam c8mico e acometem os bois; desconjuntados diluem-se nas águas, águas lentas, e escondem-se nos lôdos esfiapados. Todavia, as polícias entram nágua com punhais de caianas e golpeiam (dançarinos!) os peitos encharcados. E todavia acorrem escafandros tão fofos como bôlhas, câmaras lentas, algodões de botica, bojos de óleo, e empolam-se nas bicas de oxigênio cobertos por placentas maternais .

Surgem as mães ciumentas, cuidadosas, pés ante pés bailando, triplicadas, acariciando os seus embriões borrachos. E todavia acorrem as rameiras que aparecem lavadas de pecados, e soerguendo as saias encarnadas mostram dançando peixes devassados.

1/1
Menu

Fazer anotação