Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 03 (p. 643-650)
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 643
XXII O céus jamais me dê a tentação funesta de adormecer ao léu, na lomba da floresta, onde há visgo, onde certa erva sucosa e fria, carnívora decerto o sono nos espia.
Que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância? Minha cabeça estava em pedra, adormecida, quando me sobreveio a cena pressentida. Em sonâmbulo arriei as mãos e os pés culpados dos passos e do gesto em vão desperdiçados. Despi-me de outros bens, de glória mais modesta: restava-me por fim a minha pobre testa confundida com a pedra, em meio da floresta. Que doces olhos têm as coisas simples e unas onde a loucura dorme inteira e sem lacunas! Agora posso ver as mãos entrecruzadas c as plantas de meus pés nas entranhas amadas, nesse início que é a clara insônia verdadeira. O sêres primordiais que sois testa e viseira, restituo-me em vós, sangue e máscara vividos, desejo de esquecer tempo e espaço existidos; e em vós e em vossa paz meus solilóquios paro-os,
penetro-me do Verbo em seus silêncios claros, invisto-me de vós, vossa fronte me espia através dessa pedra em que nasce o meu dia.
XXIII Pra unidade dêste poema, êle vai durante a febre, êle se mescla e se amealha, e por vêzes se devassa. Não lhe peças nenhum lema que sua mágoa é engolida, e a vida vai desconexa, completando o que é teoria, andaime, saibro, argamassa, façanha heróica, impudênc~as. covardias, sim, que as tive, tive-as, terei, terei tido, palavras quase poluídas, e uns sobroços e uns regressos, e coisas como lembranças ou como aléns ou aquéns, e pai que me sucedeu nas guerras que me queimaram, os sonhos entre as insônias, infâncias em pleno escuro, viagens de cima a baixo unindo as coisas, reunindo aliás metamorfoseando-as, seus sovacos, suas testas, seus horizontes, seus suores, mas eis purezas senhores. Esquecidas, eis as tardes, eis os infantes dormindo, eis as águas se remindo, eis êsse poema entrosado, c eis os estercos do mundo: êsse guia, aquêle guia, porém vejamos o diário, êsse retrato com lenço, êsse vosso pai sentado, êsse tenro Adamastor, êsses avós de poltrona, e essa história heróica e sempre. Que capítulo sumiu?
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Que se contava ainda ontem? Que ilha no mundo nasceu? Que esfinge se esfarelou? Que pintura foi atual? Que formalismo, que abstrato anseiam por transmitir-se. Preâmbulos sempre constantes, depois chôro no mirante, e a privação dos sentidos, e êsse tatear de pesquisas, e essa tortura espacial, e essa unidade da dor, e essa roca no silêncio, e essa unidade sem fim. ó dilatada criatura, 6 sonda perenemente, porém falo de meu ser todo poros, todo antenas, informe poema bifronte, espêsso, áspero, conjunto, negando a vida linear, herói de mãos amarradas a galeras afundadas, vate de ouvidos atados aos caramujos e aos cais, às luas semigastadas, mãos raiadas de mil dedos, 6 sentidos simultâneos, bôca rasgada nos aços, trombeta de carne e sangue, arco de cordas, arco-íris, respiração ventaniada, gongo dos braços em cruz, centopéia do Senhor, amora plura sangrada, cacho de faces nascendo, unidade da Trindade, coral da voz e do mar, repetida anunciação, febre de ilha, mas benigna, ressurreição entre as águias, mas enfim um céu sem dias, unidade da Trindade,
esboço-me em ti meu poema. maleita diante do mar, febre de ilha, calor, frio, dentes rangidos em sêco, mão tremendo no papel, geofagia, geofagia, 1\111 mas nos barcos e nas velas, geofagia: unidade da Trindade. Calunga, 11njo, i XXIV
Abrigado por trás de armaduras e esgares, o engenheiro noturno afinal aportou ao nordeste desta ilha e construi-lhe as naves. Penoso empreendimento o invento dêsse cais e dêssc labirinto c dêsses arraiais. Para britar a pedra escreveram-se hinos prontos para marchar ou morrer sem perdão. Numeraram-se os chãos cada qual com seus ossos, reacendeu-se a colmeia, atiçou-se o pavio. Lemos contos de Grimm, colamos maripôsas nesse jato de luz em frente às velhas tias; e sob êsse luar conversamos baixinho com êsse pranto casual que os velhos textos têm. O pródigo engenheiro acendeu seu cachimbo e falou-nos depois de flôres canibais que sorvem qualquer ser com seus pólens de urânio.
"Feliz de quem ainda em cêra se confina" ..• disse-nos afinal o engenheiro noturno.
Em seguida sorriu. Era perito e bom. Vimo-lo sempre em sonho a perfurar os túneis forrados a papel de cópias e memórias. Era a carne profunda a embalar-nos nos braços e êsse vasto suspiro a se perder no mundo; era a marca dorsal já tatuada em porvires dêsscs castos porões de prazeres reptantes.
Inaugurc:.~-se a festa, os impulsos surgiram, e em calmaria fêz-se a colheita do sal.
/1\'li.'NÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 647 li Houve proibições em frente às velhas tias de sobrolho tardio e ternuras intactas. Alguma loura irmã dentro de nós dormiu, abriu-se em nosso tecto uma abóbada escura circunstancial, madura em seu silêncio cúmplice.
Essa perturbação alcançou os meninos esculpidos ao pé das colunas do templo que desceram ao palco exibindo-se nus.
Do noturno trabalho a gente trcsnoitada dança de ver assim ao romper da alvorada êsse engenheiro-ser tocando a sua gaita os rebanhos levar; logo no tôsco jarro aquêle lhe oferece a doce c branca ovelha, c a vaca os seios seus em queijos c coalhada.
No mais: áridos bois aos turistas se exibem com a famosa charrua amada aos bifes prêsa.
Agora arfando vêm as vacas imortais com os novilhos da lei que em cenas aparecem, c dirigindo os inda infantes tenros socos, uns com os outros tão cedo as guerras iniciam.
Os centauros com o gado aéreo que defendem do tigre destruidor, todos à tarde vindo, lavam o pé grosseiro ao lavrador perdido. Corre um secreto rio que torna pensativas essas horas sem lei votadas à fadiga. Depois de convencer manhosos suas reses, os guerreiros se vão ao som das áureas trompas, hirtos cantando iguais os raptos a pastôras.
Mas à sombra da Musa, o engenheiro enlinhado às tenras hastes orça o lavrador possível, ensinando-lhe o trigo e a maneira de amar, (fábula expressiva e anosa), e a transformar na terra as vis libidos em corolas incolores, os orgulhos das mãos em asas de águias tenras, c várias coisas mais com fôrça de calcar.
Não de outro modo outrora ao som de flautas rudes e de obeso tambor aedos inspirados, da loura idade a grenha de ouro conservaram os costumes com o gado, as flôres e as romãs que tudo se fará contra reis absolutos. Afinal o engenheiro amou, sonhou, construiu. Que mais pedimos a êsse existencial amigo a êsse noturno autor de construções volúveis? Percebeu nosso olhar, nosso desejo antigo: Um puro Adamastor desejávamos tanto! E uma noite no mar o Tormentório Cabo a Tétis emprenhou; e o órgão monstruoso pôde ser construído oculto sôbre a ilha: converteu-se-lhe em som a terra dura, c os ossos em penedos, e os pés em dois pedais andando sôbre o úmido elemento e a bôca desferiu o canto imenso. Agora eu vos direi que Tétis é voluta e paixão ou essa mulher sem sombra repercutida e só dentro do tempo e o espaço. O órgão fôra construído em meio à nave como um litúrgico altar para seu canto alterno. E o teclado em verdade é de asas modelado despaisado clangor como os nomes sem corpo. Tétis o agita: e o enorme orago reproduz o mais doce momento, o ato de pura graça ante cuja rosácea é encanto e desencanto. Mas tudo é êsse destino e essa ária consentida dessa atriz, dessa beata ou dessa prostituta ou da despida Rute - a doce e jovem tísica. Vozes que vêm do campo abandonadas e órfãs passam a ressurgir dentro da bôca informe numa descomunal fuga de sedução. Afinal as paixões que são cinco se cruzam no tôpo do alto mastro exteriormente mastro mas na verdade som, tenaz perseverança, seta de Orfeu, furando os ares, sempre himens. Severo movimento eu vos serei mais préstimo, sonoro Adamastor com seu peito de cordas, trovador dêsse mar circundando essas terras, menestrel dêsse tropo entoado de arpejos.
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Quando tudo evadido aJcançamos a graça: a ação era dormida e o banquete sem luz, esgarçava-se a côr nos estilos fugados, solidão majestosa, antecipação do poema, dêsse deserto frio embora surpreendente. Nessa paz quantas mãos estão tocando sinos? Quantos órgãos em cada articulada mão? Quantas vozes estão vibrando nesses órgãos? O canto firme, 6 canto antifonário e côr, poliforme alegria, alma coreográfica, que motivo de dança em vossos lábios há? Que doce Melusina oblações vos levanta e motiva um destino aos poslúdios vocais? Falai fisionomia, organizados olhos, lábios de pantomima, ouvidos antenados, olfatos de preamar em cardumes lunares, órgãos de cada verso ao coração sequioso ligados veia, artéria, espinho e chaga ao peito. O desatino sacro, 6 lema dessa cruz agitados na fronte, ensangüentados no ar!
As âncoras dos pés pedalam nos abismos, a sombra é como o peixe aprofundado e cego. E agora dos pedais pulou um dançarino submerso e luminoso anjo marinho. Vêde-o: O contôrno lineal dissolve-o o oceano grosso, encanto ritual, analogia plástica, êsse lcaro afogado à medida que sobe pelas vagas, alcança o impulso que o envolve em sua transição à superfície márea; c dêsse céu recai com suas asas de alga, um destino afundando e outro logo emergindo. O seu ritmo é ondulado em coreografia álgida, e as paixões glaciais sangram como medusas em seu mergulho undoso enlousado de escamas. Seu sinistro ritual é uma graça visível aos que vivem com êle envolvidos nas ondas e se segregam sem nenhuma confidência, e amam sem o amor exclusivo da carne. O bailado soturno entre silêncios vivos,
nostalgia do corpo em dois sexos partido e refeito no fundo extremado das águas. Adamastor efebo e alado, quase Tétis, quando emerge do mar é a cordilheira do órgão que seu impulso move e que se abstrai em som.
XXV
Sonâmbulas as flôres conservam pelo dia as noites. Os ouvidos das pétalas, e seus lábios de olor recordam-se transidos e orvalhados, indiferentes, frios, tão frios. Jamais os dias quentes poderão aquecer-lhes os seus sangues noturnos tão frios. Agora nos jardins espalham nos silêncios intactos suas presenças frias, tão frias. São beijadas, porém volvidas à lembrança das noites permanecem veladas e frias.
XXVI Qualquer que seja a chuva dêsses campos devemos esperar pelos estios; e ao chegar os serões e os fiéis enganos amar os sonhos que restarem frios. Porém se não surgir o que sonhamos e os ninhos imortais forem vazios,