Invenção de Orfeu - Canto VII: Audição de Orfeu - bloco 01 (p. 791-798) Obra Completa, Volume I · Capítulo 65 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto VII: Audição de Orfeu - bloco 01 (p. 791-798)

CANTO VII AUDIÇÃO DE ORFEU

I

A LINGUAGEM parece outra mas é a mesma tradução.

Mesma viagem prêsa e fluente, e a ansiedade da canção.

Lede além do que existe na impressão. E daquilo que está aquém da expressão.

Viagem e ilha a mesma coisa e um vento só banhando livre o poema ivre.

792 JORGE DE LIMA I OBRA COMI'LE1'A I VOLUME: I

Guia c Alighicri pisam a loisa em que anda Jó. Participante loisa flutuante. Nave de fndia dêsse maior, rumo de um só c. de nenhum. País comum.

Que neblina nas rocas! Que penumbras na trama dêsse jôgo de silêncios! Que lunetas atentas sôbre nós! Por que estamos assim, sem as promessas, sem o pranto noturno e seu consôlo? Céus esvaídos. Chamam? Quem nos chama? Aquêle ar frio, aquêle vento eStático, aquêle ser ou coisa ali no vácuo, aquela mão finada luminosa, aquêle cisne? ó cisne nunca visto. O estrêla temporária, mas estrêla! Eu tenho estetas idas, subterradas nos temporários, temporàriamente. Potencial deus, ressono-me existido. O Plêiades, ó eu, para além do tão claro e luminoso raio eterno! O domínio da vida, permaneço! Sou seu dilema. Sou a sempre audiência, indefeso contôrno, drama e jôgo, sou um simples pretexto a conhecer-se. E tudo é isso: pura latitude e premeditação talvez de Deus. Cintilações. sóis duplos, 6 grandezas, meu batel é tão ébrio, tão sem mapa, que meus mares não sei nem minhas bússolas. Sou o velho pai dos verbos .que me negam, - rei Lear nesse planêta, desterrado,

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de astrolábio canhoto e venda cega, nos ocasos el:lpelhos, e os azougues do sangue destronado flutuando. Como julgar'? Não há balança em paz. O jôgo é um dom dos anjos informados que eu sou antes de mim. ó solilóquio.

Secretos nume!>, causas, entidades, mãos vigilantes, vinde e dispersai-me, pelas fontes da vida e da expressão; que eu aspiro captar êsses espelhos, incoerentes espelhos oniformes, indagados das trevas e das luzes. Emergem dêles olhos que me espiam, entrados sêres e outros vindos das anteportas e salas, da grei prévia. Vosso apólogo antigo me noviça vosso apresto me ofusca em circo iriado.

Admoestador de alarmes consentidos, onde labora o ser (onde contínuas as manhas infantis e as borboletas rodeiam cofres cheios lie raízes e sementes e bulbos maternais; onde tudo é perpétuo como o vento). E, conseqüentes, eis os outros testes: a neblina no rio. os seios vistos, a ••sma colegial. as noites vivas, us falenas no te..:! o. . . O poema nasce: Orfeu, Orfeu, Orfeu que me desperta.

Está êle de alvíssaras nos olhos, apenas reclinado, apenas arco- íris desmortalhado, mas ode, e arde. E aí estão, êstes túneis tão compactos que cruzam o silêncio das palavras. Que relativas sombras o aspergiram? Que arcanos sucessivos o inspiraram? Que flamantes luzeiros imprevistos! Mas que fragor de brilhos profanados! O véu oculto em sol recém-finado! O monte sumo em Javas mergulhadas!

Não obstante, êsse mapa era daqui. Que foi feito da escala e do octacórdio? Onde transluz a gama que escutávamos? Pouco antes a entendíamos: hoje ou ontem. Se é possível datar datemos chuvas, os começos de abril, o orvalho e a relva, e os pés sôbre os caminhos, e as manhãs. Fábula desbotada: Ana morena. Ana morena e prata. Ana enterrada. E uma cama de insetos esperando-a. Cadência derradeira, terminada. Estende agora os lábios aos oceanos interditos! Estende árduo homem só, destinado aos deleites venenosos. As lunetas de um Deus olham-te nos borralhos dos planêtas soterrados. Falai-me imunes coisas, coisas vivas, livrai-me dêsse triste solilóquio. E êste vácuo no vento tão avô, tão primeiro nos triângulos e céus, tão cinco dedos, quase nebulosas, como esperma celeste entre alvoradas! Compreendo, mão olímpica, teus signos, teu apontar abaixo, aguda seta, de sentenças à carne impermanente, teus ciúmes dos sêres naufragados, teu ensino, teu certo movimento. Persiste, mão olímpica, nos lábios queimados por teus astros foragidos. Eu tíbio, eu tão sonâmbulo, eu recém, cu esconso, cu incerto, opto por ti, Sutil Pessoa Eterna. Sou tremor, cabeça, pés. Também meu pêlo sórdido.

Aqui meu lume frio: glória pouca, ofício parvo, sei de inúteis cantos, escuto minhas quedas, tantas sombras, comunidades, rés, talvez sem mim, malgrado flôres amplas, reis do mal. E êsse elevar de mãos a qualquer susto! E ê~e desvairamento a qualquer fé!

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E essa borda de cama de onde caio defunto para o chão tão meu vizinho! Vivo imediatamente morto (digo muito alheio e vestido para vida).

E tudo: ondas do tempo, almas floridas, árvores, flôres, ninhos inda trêmulos, tudo lhe escuta as odes invocadas, mas cala seus murmúrios e seus ritos. Agora é a voz de alados mensageiros. Asas descem na luz dos céus pressagos, completa-se a ilusão; graças, Espelho, que te elevaste em luminosa escada conduzindo a verdade soberana. O natureza de perpétuos sustos, escuta: êsse vaivém da vida é dor.

Pois desde o céu em que essa luz foi minha com beijo largo e flechas de martírio sêdes divinas vieram me beber a mim a diagonal de luz esquálida. Difluía nos ares a inconclusa conciliação de lianas, era dantes, reacendiam-se estrêlas pastoris. A doce enfermidade levitava-nos. ó feliz solidão, querido solo, desnudez de Lenora, rosa pura! Um astro brilha: eu te ofereço: é teu! E como delinear a rota augúria, c interpretar os passos sôbre a ardósia? Como contar o aclive, o tormentoso retrospectivo aclive, aclive triste? Desnuda-te em silêncio: ossos em ordem, as túnicas aos muros das ruínas, c às cortiças também sem ressonâncias; ao lado do colchão sob essas fôlhas, já houve uma blandícia noutros tempos, hoje não há; não mais; então pervaga, pervaga em tôrno, em tôrno de ti mesmo. Como encontrar alento jubiloso entre sudários, entre assombrações,

ou nessa solidão de amor sombrio? Sacode o vento as casas já vazias, num lamento de algum cruel mistério. ó dize-me, canção, que verbo ardente virá dêsses caminhos taciturnos? Cada momento cala para sempre a bôca que inda agora nos falava. E nos obscuros montes desce a lua que a Musa rosa-e-prata reacendia.

Tôdas as arcas são de inertes mantos, e concêntricas, mas sobreexcitadas. ó tempo surdo, ó grei, ó grande encarne! Surpreendem-me o pren(mcio e o mensageiro,· pressentidos em certos vôos de pássaros. Nasce um carisma. Brota qualquer gume, donativo perjuro, todavia de confusa comédia, sempre em máscaras, quase um pranto lascivo. Dissonância. Teu périplo cansado. In illo tempore. Per om11ia srecula. Amém. Continuação.

O agiógrafo vedado dissuadia-se. ó sólio prolongado, monumento, repousa em festa, nume silencioso, áugur na fé. Tambores vingativos vieram com pulsos loucos e mataram nas ternuras das tardes as infâncias. O medonho teatro, o templo uivado, e mais espantos, prantos novos, febres, lucidamente apenas o que é torpe os tambores conclamam: há os soluços, depois nem mais soluços, - desesperos. ó tu solitário hóspede (ondulante porfia e solilóquio) : julgam-se únicos, raça preclara, sangue de demiurgos, lôbo dos antros, Lúcifer de novo, Tamhc11;~ ja:rcl.tta.t e tudo contra Aquêle. Eis os tambores! COIItrU Falta-me esfôrço; e os pés não têm memória Aqul/11 dos caminhos doridos, nus de vida: ri de mim êsse rosto colossal. A noite é de borrasca e um ar demente

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cobre as formas do mundo, cobre os dias. Por detrás das vidraças choram olhos.

Estar assim, de frente, em testemunha, c chamar-me em meu nome e demitir-me. e ser a êsmo; fomos vivos. Mas nunca a renúncia. Cinjo-me em anônimo. Nego posse. Silêncio. Meu silêncio. Companheiros, queiramos evitar qualquer grito. qualquer fachada, ou sempre evitemos o ruído atroz do sol. Sem amanhã virtual não sou possível, nem acontecimentos nem vindimas. apenas radiante. sem raízes. Esta aragem, esta aragem, que borrasca dirá seu desvario ou seu cansaço? Metro de vário número, conubial de catres e de tronos. Conjeturas. Desmonto as coisas. Sabes da fé lírica ardendo as oblações c as arcas cruentas'! Malgrado vejo perto, aqui, ali, nem sei, ó meu celeste abismo único. Dor cativa: sem noites de pestanas, sem pensar, sem calar, sem consolar-me, entre os astros ardentes tão distantes!

Será tudo severo, ó réu confesso e acusador; aqui tua equipagem de escarmentada nau e maré-magna. Em que chão de ontem? Que nevadas vides'! E que jardins de espanto? Sob os vácuos? Vãmente aos sóis cortantes? Vãmente? Ah! Coincidimos um passo sôbre passos, e essa órbita constante. E êsse delírio! Pes.wa!J da E êsse dígito imenso destinando. comte!urcio Sangraluz, Belatrix, Lis, Mira-celi, de Mim-C.-Ií. Vivantares, Liriana, ó meu poema! Eis o vago tropel dos sêres todos nascendo amortalhados sem querer. Ali está o poeta: tem nos brandos lábios, a abelha vã, a abelha quase louca;

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a abelha zumbidora. Sonha um duende. e mais além seu canto; nem êle ouve Mas com que passo lento e olhar sem vida partimos para o circo, ó pulso exangue! ó! ópera combinada, máscara em pranto, vísceras de toureiros renegados! E o mais êsse lutar para cair. tsse clima cinábrio abreviativo convocará os sangues, os desvios? Olharemos conjuntos êsse mapa? Pulsaremos na artéria fraternal? Mão na mão, musa de astro, calor frio. Na blandícia das chuvas desce um seio, e entrementes nos sulcos das charruas percebemos os semens dos roteiros. tste clima demais calvário e lava quem o agrega? Essa voz indefinida? E.sse arcanjo banido, desfolhando-se? Aquiescência. No início havia a mancha. Inconsumptível mancha, nuvem nossa. E o céu pesado sôbre. Éramos um! E amávamos os sóis antropomorfos, os lilases nos olhos, luas sempre, e o consôlo tão bom nos calcanhares, e a leitura das relvas, nomes dados a essa pedra, a êsse pomo, a êsse coral. E havia o dia vindo, e a noite leve, e o peixe amigo, e a rocha deleitosa, c ametistas nas unhas, conivências entre veias e artérias, entre mim. Convoco essas paisagens esvaídas: sou névoa, elas são névoa, somos um só estrangeiro nesse vácuo imenso. ó reais medidas, ó rigoroso atlas, circundado de pólos e de mares, os teus marcos cintilam nos meus olhos enquanto os séculos pesam sôbre as léguas. Claridades, apelos, entretantos, apesares e números e luzes; somos tudo, cabeça, tronco, membros. ó planos do meu ser comunicados!

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