Poemas Escolhidos - bloco 01 (p. 325-332) Obra Completa, Volume I · Capítulo 15 de 90
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Poemas Escolhidos - bloco 01 (p. 325-332)

NORDESTE

NoRDESTE, terra de São Sol! Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor, que a minha madrasta Sêca torrou seus anjinhos para os comer. São Tomé passou por aqui? !>assou, sim senhor! Pajeú! Pajeú! Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos, com o sangue de mil meninos, amém! D. Sebastião ressuscitou! S. Tomé passou por aqui? Passou, sim senhor. Terra de Deus! Terra de minha bisavó que dançou uma valsa com D. Pedro li. São Tomé passou por aqui? franca a porta, gente. Cabeleira aí vem! Sertão! Pedra Bonita! Tragam uu'la virgem para D. Lampião!

ENCHENTE

PoR QUE as jandaias c osperiquitos estão gritando como os Imeninos do Grupo, na hora de vadiar? E uma cabeça de enchente que veio ontem de tarde.

E o rio deu pra falar grosso ~ bancar Zé-pabulagem: - "Não duvide que eu levo a sua almofada de fazer renda, minha velha!"

E o rio cresceu. Entrou na camarinha e Já se foi com a almofada da velha! - "Deus te favoreça. meu filho, você, ainda outro dia, era tão manso, lavava até os pratos de minha cozinha!'' - "Não duvide, seu canoeiro que eu emborco a sua canoa!'' E rodou com o canoeiro • e virou a canoa mesmo. E entrou nos fundos das casas e saiu nas portas da rua . Subiu no ôlho da ingàzeira, tirou ingá e comeu . Pulou das pedras embaixo, espumando como um doido. Fêz até mêdo às piabas, que correram pra os barreiros .

Só os meninos estão satisfeitos: "Deus permita que o rio encha mais!'' - "Deus permita que o rio encha mais!"

Quando o rio entrar na rua, as salas de visita serão banheiros. Eles deitarão barquinhos de cima das janelas, e a professôra fechará a escola!

"Deus permita que o rio encha mais!" - "Deus permita que o rio encha mais!"

ARRANHA-CÉU

0 CAMPEÃO mundial de miStiCISmO, que tinha batido o record de comunhões do corpo do Senhor. quis, naquela época avançada, subir no elevador para ver o céu.

/'fi/ .lf.-IS ESCOI.H/DOS J27

O campeão foi pelos andares parando .. . parando .. . sempre em linha vertical.

Viu, no centésimo, o campeão da ondulação permanente; viu outros ases. outros heróis extraordinários.

No derradeiro parou: Nem um anjo. Então desceu, desceu. desceu c atravessou o asfalto com um mêdo danado de morrer sem confissão debaixo dos autos.

CRISTO REDENTOR DO CORCOVADO

O AVÔ de minha avó morreu também corcovado carregando um Cristo de maçaranduba que protegia os passos vagarosos da família.

Arranjei velocidade. Virei homem de cimento armado.

Adoro êsse Cristo turista de braços abertos que procura equilíbrio na montanha brasileira.

Os homens de Fé têm esperança n'Ele, porque t:.le é ligeiro, porque t:.lc é ubíquo, porque E.le é imutável.

:e.te acompanha o homem de cimento através de tôdas as substâncias, através de tôdas as perspectivas, através de tôdas as distâncias.

POEMA DE NATAL

ó MEU JEsus, quando você ficar assim maiorzinho venha para darmos um passeio que eu também gosto das crianças.

Iremos ver as feràs mansas que há no jardim zoológico. E em qualquer dia feriado iremos, então, por exemplo, ver Cristo Rei do Corcovado. E quem passar . vendo o menino há de dizer: ali vai o .filho de Nossa Senhora da Conceição! - Aquêle menino que vai ali (diversos homens logo dirão ) sabe mais coisas que todos nós! - Bom dia, Jesus! - dirá uma voz. E outras vozes cochicharão:. - ll o belo menino que está no livro da minha primeira comunhão!

- Como está forte! - Nada mudou! - Que boa saúde! Que boas côre8! (Dirão adiante outros senhores.)

Mas outra gente de aspecto vário há de di~r ao ver você: - S. o menino do carpinteiro!

....

E vendo êsses modos de operário que sai aos domingos pra passear, nos convidarão para irmos juntos os camarada~ visitar. E quando voltarmos pra casa, à noite, e forem pra o vício os pecadores, êles sem dúvida me convidarão.

Eu hei de inventar pretextos sutis pra você me deixar sozinho ir. Menino Jesus, miserere nobis, segure com fôrça a minha mão.

AVE MARIA

BoA TARDE 6 meu caminho estreito por onde os últimos da vila vão! Boa tarde, avõzinhas, Boa tarde, avõzinhas, me dai uma história do vosso surrão! Me dai a Princesa Morgana-Vilão, que eu sem história não durmo não! Ai que há noites mais temporãs, mais frias, mais tristes que as outras noites! Boa tarde, avõzinhas, onde é que eu me acoito da minha própria inquietação? Boa tarde, avõzinhas, boa tarde, avõzinhas, as últimas andorinhas lá vão! As vossas mãos, avõzinhas, onde é que estão? Adeus, adeus, caminho estreito! Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós ... Blão!

BALADA

Os CAMPONESES tinham ceifado a floresta das chaminés para ver seus irmãos operários, para ver no meio dêles o de 7 anos: - Vladimir Ilitch - o irmão do enforcado, para ver o Volga, para ver Kazan, para ver religiosamente Simbirsk. para ver a irmã de Oulianov costurando ao lado do irmão que lê. que lê tôdas as vírgulas de Marx. Os camponeses tinham fome de paisagens humanas. ( Plekanov é uma sombra amorosa. ) A irmã de Oulianov costura ao lado do irmão que lê tôdas as vírgulas de Marx . -

Oferta

Perdão Vladimir, a tua irmã se feriu no dedo. Para mim tódas as dores têm tamanho. Experi'menta se as minhas mãos são leves para fazer um penso.

FIM

PARARAM as máquinas! Eita! Gritos, choros, pragas! Eita! Foi o filho do operário, que uma roda matou. Não, não foi. Foi a m:\quina que matou o hurguês e a f a· [mília dêle não há.

1'11/.M .ts ESCOLHI DOS 331

O FILHO PRODIGO

NAS ENGRENAGENS das fábricas t holem como vermes - dedos decepados de operários. Há intestinos rotos de crianças nos vaivéns do correame das oficinas . A côr e a alegria das môças empregadas dissolvem-se na algazarra monótona dos teares. O avião comeu a saudade das mães que a distância separou dos filhos vagabundos. Há máquinas que cegam os adolescentes ;tnsiosos de ver o progresso do mundo.

Um homem teve mêdo de enlouquecer perseguido pela fôrça e pelo orgulho das máquinas assassinas.

Cadê a luz trêmula de vela pra alumiar o meu poema antigo'! O lirismo perdeu a sua liturgia.

As lâmpadas Osram velam funebremente a poesia. Ah! que existe uma tristeza na terra ~tue nem lágrimas produz de sua esterilidade tão sêca. Eu sou um corpo distraído.

Hóiam os meus olhos pelas superfícies. !VIas os meus olhos correm mais perigo do que se andassem em acrobacias contemplativas pulando no céu alto. perto das estrêlas.

Vovozinha. venho de longe. ando há muitos séculos à pé.

Ensina-me de novo a ficar de joelhos, que já é tarde e eu quero me deitar.

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POEMA RELATlVO

VEM, ó bem-amada. Junto à minha casa tem um regato (até quieto o regato).

Não tem pássaros, que penal Mas os coqueiros fazem, quando o vento passa, um barulho que às vêzes parece bate-bate de asas . Supõe, 6 bem-amada, se o vento não sopra, podem vir borboletas à procura das minhas jarras onde há flôres debruçadas, tão debruçadas que parecem escutar . Todos os homens têm seus crentes, ó bem-amada: - os que pregam o amor ao e os que pregam a morte dêle.

Mas tudo é pequeno e ligeiro no mundo, ó amada. Só o clamor dos desgraçados é cada vez mais imenso! Vem. 6 bem-amada. Junto à minha casa tem um regato até manso. E os teus passos podem ir devagar pelos caminhos: aqui não há a inquietação de se atravessar o asfaJto. Vem, 6 bem-amada, porque, como te disse,

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