Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 05 (p. 842-849) Obra Completa, Volume I · Capítulo 72 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 05 (p. 842-849)

Os desmandibulados tocadores, da terceira agonia inassistida, comuna, atividade, ocultação, os latentes, os pulsos malariados, os Levantes dos sóis paraeclipsados das almas que os esperam no silêncio. A portas percutidas pelas mãos transfixadas em chaves esculpidas com feitios de cravos recendentes da madeira pregada a seus discípulos, a nós todos judeus, cúmplices todos: nós quisemos Seu Sangue derramado! As portas percutidas pelos cravos, e os cravos transudando prismas-íris. A refração no sangue perecível é êsse coral de bôcas oprimidas, essa ária de trombetas humilhadas, êsse sôpro fugido de metais. A canção entre os dentes se constrange, as carrancas congênitas se movem, são preciosos ouvidos despertados, patas sôbre pedais, garras elásticas, o bigode tirado da palhêta, som resgatado sôbre tanto suor. Suor de sangue profano nas capelas, gaitas de foles dentro dos estômagos, a inspiração opressa, o céu pesado, os anjos na madeira repousada, exaltação contida nessas cordas, nessas cordas fatais. Humanamente. Música dêste mundo, compassiva mesmo quando alegria, êrma com lágrimas, por isso consolando diante a morte, nos dias recuada: então navios que vão com as almas desgraçadas, vão, vereis que vão com as almas os navios. Desesperados das convalescenças olharemos as velas esvaídas

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nos confins dos oceanos, sob as chuvas solitárias caindo tão monótonas, monótonas, monótonas, monótonas, como cinzas caindo, como cinzas. Apesar disso subsistências sempre, sempre, mesmo nos corpos neutros dos intactos quase limbos negligados, mais medusas que os halos das anêmonas, mais anêmonas que halos de hipocampos, hipocampos, refiro-me a hipocampos. Não éramos absortos fundamente nem sonâmbulos quase para sermos impassíveis nos olhos de borrasca!i; nem cavalos bastante se fugíamos para os campos de fugas incolores, nós éramos uns sêres, muitos sêres.

Percebemos enfim com largo espanto que fôramos divinos e integrados no corpo dessa antilha tropical; e por mais que tentássemos não íamos fugir dos nossos próprios arredores de nossos muros e de nossos membros.

A manhã nos vigiou; nos deu a noite a geada; e algumas vêzes há por causas naturais: cerração, dias perenes, tardos céus, nostalgias, sombras n'água. E por graças divinas: poesia, e por causas infusas - transmitimo-la. Tendo havido entretanto jogos simples, jogos da noite sob os céus noturnos, vieram lírios nas relvas e mistérios como se algum encanto começasse. Pois que canções, ninguém no espaço de íris viu, mas se ouve a presença que as entoou. E nesse instante tudo parecia em pauta dupla, contraponto, eclipse, coisa obscura, difícil de contar.

Um transe de magia havia no mundo exaurido, a ponto de espantar: Mira-celi descera entre o ar e o mar. Nós vimo-la chegar intransitiva, era a musa (seus gestos denunciavam-na), pois estava tardada sem segredos. a face fixa, a fronte pura de água, e o lírio circundante tão brilhado que ela aparecia antes e no fim. Inconsútil rosácea aquela musa, nesse arco-íris de tarde sublunar, cisne augurai ou águia albina, ou agnus. Ela com o lírio albino e o cisne em si, e canto suave entre nereida e anêmona, e o som do verso em Mira-celi vindo. E veio para Inês justalinear, a defunta princesa soterrada que ilumina as comunas recalcadas. Mira-celi é sentida em ubiqual presença nos jardins intemporais do vasto mar dormido, circundada. Ela me faz captar êsses instantes de eternidade contra o mal que é o tempo, ela me torna imenso ou pequenino, eu enguia de Deus, eu ossos e ossos. E vendo um campo de esqueletos nus, ela a magia fê-los incamar-se. E canso-me à procura das fugazes presenças, e momentos das terríveis ou divinas arquiasas permanentes, para remanescer as durações, e para subsistir, gravar um símbolo na casca antiga da árvore perdida. Vós padres d'Ela, v6s polarizais os seus milagres que outros não conseguem; v6s inspirais nos outros seu doce hálito, sua iluminação, sua aliança,

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as evidências suas, Mira-celi em sua plenitude é seiva casta. Presciência do divino consentir, imenso vôo, memória ainda, falo palavras que ela sempre foi no mundo e fôra sob os pés em que repousa a forma da Pessoa que me curva para eu pousar num Ombro minha fronte. Havendo gradação da luz externa, o mistério floriu entre as mãos nossas; e os olhos se elevaram para as flôres, e as flôres inspiraram nova tarde. E um momento da tarde foi poesia: uma fala de música sonou. Foi-se viver com amor, furar limites, reflorir as criações, nova unidade, depois montanhas róseas, decantar, decantar a mais pura geometria; não as côres visíveis e as razões. Clavicórdio inventado, e nitidez! O vós menos bizarras, menos raras, ó vós mais inquietantes e mais trágicas e mais doces e menos melancólicas, e menos pesadelos e ações plásticas, e mais tons de elevar e demasia, ó vós, sempre poesia, 6 vós além. Sidérea, antecedente, aluminada, agnus nutrientemente, nos ossários, o milagre encarnado, o salmo antigo, e êsses olhos olhando talvez outros, talvez para êsse quadro distendido, tão longo nas pupilas redobradas. Dissolúveis aspectos coloridos, visão disseminada, colhe o simples uma flor, uma fôlba com seu vento, um desejo mais leve, uma certa alma, uma prece na tarde, e nessa tarde a andorinha irreal bebendo um ar.

Humilde pequenina ala caída, os olhos infantis pela vidraça, longínquo barco, longe de avistar, maré subindo à tarde, cheiro de algas, vós nas casas com vagas no porão, e traves de gaivotas enxameando. Nesse ambiente, conhece-se um candeeiro; éramos quantos rabiscando quadros? Faltava a irmã de todos os insones. Deu-se porém que imenso certo gênio se contraiu na lâmpada celeste, e a corola de luzes esvoaçou. Paramos de escrever, e entreolhamo-nos com os olhos dessa irmã reconhecida: O século ia findar,. os fiacres cheios passavam com mulheres de mantilha. Dizíamos adeuses, que entreouviam, mas recalcavam fatos invulgares. Isso foi nesse lânguido balcão, e esquecemos a lâmpada votiva; então lançamos côres que se alavam; e sob o lusco-fusco como assombros adejavam no chão, paravam logo, não sei se apavoradas ou solenes. São fatos quase claros e imprevistos êsses têrmos de idades, de passagens de lâmpadas sem óleo, lutos novos chorando os nossos nuncas porém doces, mesmo tristes pensares passeados com um ou outro amigo de olhos vagos. e um desejo de paz, com as noites quietas em tôrno a qualquer fogo compassivo; digamos as memórias dos avós, as ceias de Natal, ríamos sérios, o tempo era um vaivém, amanhã fomos então nos despedir, adeus meus sonhos! Olhar o positivo subseqüente, tocar as pedras vivas, mesmo a luz,

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bem como os horizontes. fixas nuvens, formas indevassadas, parricidas inclusas em estátuas. pianos-fortes, e o silêncio de noite te acordando.

Ferir seis chaves juntas pensativas. num exaspêro bom ser virtuosismo, voz sem limite acima da garganta gerarquizada em graus obsidiados, e o mais: divino texto de oratório, a prece em mãos de ogiva para Jaudes. Desmadrigalizado profetizo. Derrocado solista quero vossos novos pianos plurais, falsos bordões, solos de coros, olhos de falena, cachos poliorquestrais, polissentidos, multiplicar-me sem amor sexual.

Porém atualidade universal tão perto dessas mãos iguais às outrns tão após guerra, tão jamais a guerra, para insatisfação dessas escalas com quartas superpostas nos ouvindo, tonalidades neutras nos entoando. Então quisemos claves renovadas e os atonais descasos simultâneos. e mais modulações, nós dissonantes seremos timbres novos, funda orquestra, luzes e vozes, obra amada e estirpe, pintemos essas páginas sinfônicas. Todavia a ária-pauta é de Fuentodos, da Costa de Marfim, cubo animado, de touros e cavalos de som plástico escala dolorida, renovada, poluída por iconoclastas. Sou adorador de imagens. Eu me ajoelho. Eu sou venerador de imagens. Sou. Adorador da Bíblia, ó esta estátua! Desta madeira feita em asas, mantos. Atrás desta madeira está o espírito.

Venero a história escrita que igualmente imagem da existência me comove.

Atrás da pobre estampa essa penumbra rija de estátua velha um anjo de asas também queda adorando; eis-me também, eu, pêso humano indigno de tocar muitas estátuas dessa vida impura, eu imagem d'Aquela só Pessoa.

Daí ternura nossa em Mira-celi que a fim de despedir-se, fêz-se imagem. cerrou os olhos tão de viva estampa, t quis ir aos seus jardins. E então falava coisas inatas sem razão. Havia a paz que fôra humana e nos deixara.

E essa fonte de paz rápida fluía como um clarão que se resolve em cinzas pois as cinzas do ocaso se acenderam para aquecer suas pupilas claras. E vieram luzes temporãs dos astros. E um grande manto súbito esvoaçou. Ficamos afetados de seu todo, as mãos transfiguradas, nós a éramos, ela pairou num vôo - eternidade, nós éramos prescientes, visionários, e após cegos, pois que ela se partira. ó triste condição do humano tempo! Olhamos a onda alçar-se, o céu descer mais baixo que a onda mesmo e o próprio mar, consumira-se um século asa com asa estavam majestades, ali estavam invisíveis porém no espaço, além entre dois tempos reais. Libertação! Um suave som de sombra prolongada ligou-se à noite próxima acerbada; e entre sombras e noites existe um traço e cântico errante adormecido. Através se ouve a onda descontínua das antigas memórias sonegadas.

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO Vl11 849 Contra o tempo e em poesia recompostos somos todos poetas, natos poetas, os que têm voz porém podem cantar a doce inspiração subdividida, gravar-se dessas noites patinadas de sóis que foram ontem sóis cantores. As paisagens são outra~ mas os dramas: a mão sem paz contando o seu destino, repetido e contado sem lamentos; a infanta dissolvida nas pavanas; e ali o esquife armado em crepes e ossos, e acolá, êsse dístico: ao n. A raiz de nossa infância se insinuando

nas carnes tenras como câncer bom de Deus faminto, de urzes canibais. Tornais os nossos halos prometidos, derretidos em cêras de holocaustos que findamos em vós, em vosso sol. Secionamos em noites mil e duas nossas pessoas unas e indivisas, queremos recompor-nos em teus braços despovoar-nos de tantas legiões, reconquistar-nos, nós fora de nós, sem reencontrar os nossos próprios olhos. Solilóquio contínuo, biografia e diálogo com os hálitos chegados do mar e da floresta de alto a baixo, através das janelas do semblante, monumental semblante sempre igual, sem faltar um só côvado ao tamanho. Emersão mágica da face sôbre as coisas; insistido, fracionado pão invasor dos corpos interiores, como seiva, substância, pensamento, refratados em luz nos percorrendo os meandros persistentes, ignorados. Dentro em nós êsses gestos aclarados pela luz das memórias pluriescritas,

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