Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 07 (p. 858-865)
1!53 JORGE DE LIMA / OBRA. COMPLETA. I VOLUME I
A incidência no ponto, móvel ponto, reversibilidade e seguimento. Nêles fixados esperamos que os cavalos do fim se sobressaltem, sobressaltem os montes congelados e aqueçam as fogueiras com seus cascos. Dêste céu sempre igual, a perspectiva é de côres e sons neutralizados, intercepção do perto e da distância, do bem e o mal - balanças, indo e vindo, ondulantes balanças dos dois braços, que compuseram e que desfizeram. Nossa luz própria, sem planêtas surdos, ocupa-nos de terras e de lentes; para olharmos o núcleo de nós mesmos: alma penada dando sombra aos sóis, descanso às labaredas que nos ardem, mas não extinguem êsse núcleo ardente. A fôrça de jamais poder nos ver, somos tudo isso e tudo aquilo e mais e menos e êsse palmo de distâncias, vibrados entre canto e lira. E o longe. Querido longe prado mais sensível quanto em nós a lembrança perecível. Cantar para lembrar, para existir, sondar o coração, ouvir-lhe a voz, sentir raízes, ser, ser-se de novo, voltar como os compassos, não voltar, falar somente, ouvindo os intervalos entre as palavras, entre os pensamentos. Os perfumes nas pedras, nas formigas, nas claridades, nos olhares, nas vogais e consoantes, pensaríamos odores para os desprovidos, cheiros que os olfatos das coisas não cheiraram, fora dos sons, das côres, dos sabores. Perceber com êsse delta as acres gotas, as papilas do insípido vulgar,
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legar-lhes sal em suas viuvezes, sabor de quentes, c de verdes sons, de pedras esperando, de desenhos que a luz não produziu na compreensão. Severos pensamentos de doer-nos os sêres em poesia e arremessá-los, expiados de seus chumbos amarrados, falando encruzilhadas com fantasmas, com licornes e falas fora de nossas bôcas falando para nós. Minha voz alta sempre em lábios mudos ruminando os rochedos, e escutando o que é consciência, lógica ou absurdo, e captando em vigílias persuasivas um refrão de convites e renúncias, interminável estribilho surdo. Memória, raciocínio, descalabro, liberdade do obsceno e do divino. e essa janela aberta na obsessão de não ser esta mão e a pena abaixo desta mão escrevendo sem poder, sem poder sossegar para morrer. Parece-me que sim. Concordaremos essa calma, Senhor, cortai-me os hiatos com o Vosso Sôpro, quero rebrandir-me em Vossa Mão. Depor-me, meditado. Efusamente suave e dissonante, oferecer-me, sim, oferecer-me. Cripta dos altos, quero desavir-me. Batalha de repouso: sem falar, relatar as nascentes, engulir-me; num pôr-de-sol formado avantemente, planetar a espessura renunciada e lenta, lenta como um subterrâneo. Música repartida, dura, sem. Apenas ruído leve. Tonto claune. Sola no chão. Acima a voz. O teto. Subdelírio paciente. Certo. Lívido.
Pentágono na bôca. Trevo intérprete. Pedregulho divino pra mascar.
Suscetível vocábulo colhido. E tu nesse caminho pegureiro, rodando solidões, plantando marcos, através das carruagens provocadas, dos vozerios de ontem nos monólogos, os proscênios abertos: não fujamos. Não fujamos, meu cão, dessa queimada, forçado a contemplar-te para ouvir-te, supor que está em ti, meu doce anelo. Olhar teus olhos, cão: e a antiga vaca que está mugindo dentro dêste cão. Não a acordes, ó cão, com teus latidos.
As coisas nos enganam porque latem sem ser os fiéis molossos dos portões, sem se abrirem aos ventos vozeadores, aos cães antropomorfos e visíveis: Eu em frente ao meu cão, êle me entende. Ensinado molosso que eu governo. As coisas nos enganam com seus pêlos, seus movimentos pétreos e sabidos; nós caímos nas coisas afundados. As coisas e os abismos encerrados nas falsas quantidades, confundidas, as caudas multicores, aos pedaços. As suficientes coisas destravadas, agressoras com os olhos enviesados, visando as nossas mãos desprotegidas, com os metais desgastando-nos os troncos invejosos das nossas mortandades, êles inacabáveis maquinários. Traspassamo-nos com facas aguçadas que dormitavam antes d(: nascermos sob as raízes da árvore da ciência. Rói-nos a cal os ossos, mesmo os ossos, nossos ratos finais morando em nós: há coisas disfarçadas em roedores.
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Mas o vento indo e vindo nos destrói com o tempo se diluindo, se diluindo, e com êle o crepúsculo. Olhai bem que as mãos das coisas se assemelham a tombadas luvas mortas, luvas mortas, mas as garras por dentro das defuntas.
O descampados pórticos vencidos: caminhar pelas coisas murmurando, jamais dormidos sôbre nossos sonos acordados nos sonhos, caminhando, contra sóis encerrados nas madeiras dos leitos e dos úteros alheios. Cintilância noturna, lírio ardido, senda de combustão e vida nossa, estrêla de viajor, túnica veemente, roseira ardente e chama consentida, cratera viva a que vulcões se engolfam como os uivos aos lôbos. Convergências. Desterrado afinal, vagas em ti, e em ti bates sonoro, sino humano, enroscado em teu som, concheado ser, pobre lesma de rastro luminoso, manto baixo arrastado, lento manto. Ardentia? Por quê? Se tu és tão fria? Convém não despertar. Perguntam fora se és noite, não respondes; na verdade não sabes se serás a festa ou o vinho, não sabes se serás o teu consôlo ou o teu arrependido soluço áJgido num leito fatigado - teu país. Esqueces-te que fôste teu soldado, guardando-te? Pois dorme para o sonho que o sonho te merece, 6 visitante. Estende as mãos e colhe o que não vês. Gratuitas para o sonho, suaves rosas, e tu também gratuito, conversando-as,
Era um banquete manso entre dois rios como em Mesopotâmia, agora viva,
servido brancamente. Vem, sem susto. Acontecida festa, convidadas mãos amantes chamadas que te chamam. Construíram pontes para tu passares. Não convém êsse instante pensamento, essa brasa nas mãos tão delicadas. Ali as taças, pousa os lábios, poeta. A lua sôbre as águas. Vem nascer. ó tu, sem brasão blau, não te perturbes. As palavras descansam como noivas. De quantas noites, vieste. cavaleiro? De lugares de morte, eras escravo. Mereces essa flor, êsses cuidados, palavras descansadas, êsses vinhos, aquêle velho outono, aquela paz, para quando as bandeiras se baixarem. Dos caminhos passados não te lembres e nos idos amôres não soluces; tu sofreste na carne e na esperança. Ri se quiseres, e se não: ostenta o rosto grave quase, quase triste, volta-o para os que te olham suavemente. A noite é temporã, e a festa leve, ostenta lírios d'água sôbre as frontes. Teus poemas podem ser como essa festa, de cantos singulares como os pássaros. Se quiseres cantá-los, canta-os; se não: cala-os, dizem mais teus pensamentos. ó tu, sem brasão blau, que suavidade trazes das rotas caminhadas, já esquecidas exceto o que foi teu: qualquer lembrança vaga, mas sentida, o olhar de teu cavalo e um transparente olhar menos amargo, pela estrada. E já vão longe as longas caminhadas. Já vão longe os desertos. Já vão longe. Repousa cavaleiro. Queres rir? Ri. Se queres chorar, não chores mais.
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As densas andorinhas encantadas, que são as sombras, descem sôbre ti. Lentamente as muralhas se adelgaçam, a sombra irmana os lábios mansamente: Em tôda parte a noite sem malícia. O tu, sem brasão blau, com teu destino tão distante de ti como da sombra sonolento, caindo, acalentando.
Nada inútil na festa, cavaleiro, mesmo êsse ruído serve aos aconchegos fugidos, atraindo assomos como insetos das quietudes, sem espantos, com êsses jogos da vida, sossegados. Se amanhecer, é o mesmo véu largado. Grupos passeiam terminando o vinho; meninos brincam: todos te esperavam. Sim, todos te esperavam, todos os que vão tocar-te como se não fôsses vivo, mas morto para todos êles, 6 tu, sem brasão blau, tu quase triste. E coagulados lábios na festa álgida, sem regaços ardentes, sem abraços, terminados saudares, baixas flâmulas, ó tu, sem brasão blau, de mãos cruzadas? De lábios tão cerrados? De olhos vítreos? Essa uma festa. Sempre continuada. O alma humana, alma dura que resistes nessa luta de morte, nessa luta em que se batem anjos e demônios, e os simples episódios blaus se movem num compasso de pernas infinitas entre as horas mortais e os nascimentos. Compasso roda a lua do esquecido, e descem luares sôbre a face nua, imagem de saber-se sua imagem, imaginada crença de seus olhos, registro dos sentidos, ver-se morta imagem, mas palpada face viva.
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pria, JORGE DE orralhos, 864 os enredos, Assombros d o e acima: de julgá-la gêmeas. a não vis sumida. inério e fôlha, enred urando trevos, a vi mastigando um só , sem descanso efunta infanta imersa de cosmogonias. alas fáceis de entreabrir-se, eira corola perfumada de outros reinos diademada, de outros ritos sugerida do e sonegado fruto inato, ado e renegado pelas árvores. ruto mirando-se alto na galhada, gostando« nas bôcas suspeitadas, crestando-se no sol que êle erigiu em seu foco de luz para aquecer-se, narciso devolvido ao solo duro, mas com as sementes repetindo baques. Por essa escala de repetições surgem as ilhas dessa anteoceania, rasgam-se os mares, sempre os mesmos mares, e sempre as mesmas guerras seculares, os teus e os meus porta-estandartes' indo com o doce Languenau, indo conosco. Teus e meus. Voz litúrgica do poema, Conc~ito sempre em nós, mesmo quando falo em mim litflrrico que não sou eu por essas ilhas vossas, nem ilha singular, porém plural, porém comuna de ilhas, arquipélago, federação de Deus, louvando Deus. Federação de Deus para o espetáculo dos corpos ressurrectos no final
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dos dias, cada qual vestindo um corpo, no maior dos teatros, vamos todos para a frente do Rei, Rei verdadeiro, para a imensa parada em frente ao Rei.
Os aprestos são de hoje para a festa dêsse dia de juízo, amanhã ou depois o mais tardar, pois vejo alguns com seus odres já cheios e outros indo devagar, mas andando, com as ossadas, para vesti-las novas, nesse dia. E eis que durante as vilas, e nas terras das horas se preparam grandes tropas com provisões bastantes para a grande jornada em direção a Josafá, - último vale salvo dêstc mundo e tempo de vertentes esperando. Em verdade, nunca houve expedição maior, em tempo algum neste planêta, nem júri mais solene. Ficou vago o mundo para encher literalmente êste vale durável num segundo enxameado, bramido de trombetas. Vós chegastes também com os vossos todos, em cujo número se encontram mesmo, as afetadas tias, as madrinhas, e os corpos dos demais até com os dentes e os joanetes agora declarados, visíveis como os ventres e as axilas. Caminhada áspera! uns vão entre caixão e esteJa tumular, outros, de longe, a descer pelos rios em naus loucas, até aos mares que as sacolejaram como simples cortiças cobiçadas pelos últimos peixes dos abismos. E aleijados em carros, bem expostos, remando secos dentro de borrachas, outros olhando os pés aligeirados por bastantes motivos: mêdos e
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