Poemas Negros - bloco 02 (p. 359-366)
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nem ao pé de garrafa, nem ao minhocão.
Benedito Calunga calunga-ê não pertence a nenhuma ocaia nem a nenhum tati, nt·m mesmo a Iemanjá, m·m mesmo a fcmanjá.
Benedito Calungu calunga-ê não pertence ao Senhor que o lanhou de surra e o marcou com ferro de gado c o prendeu com lubambo nos pé!.
Benedito Calunga pertence ao banzo que o libertou, pertence ao bam:o que o amuxilou, que o alforriou para sempre em Xangô. Hum-Hum.
LADEIRA DA GAMBOA
HÁ Ul\1.\ RUA que eu conheço Rua Barão da Gamboa tem uma ladeira de lado com o mesmo nome da rua nenhum barão mora lá mas porém gente que sua gente que sobe gente que desce gente que vai para a vida gente que dda vem não há meio de dizer-se na ladeira ninguém vem
você mesmo não se agüenta pois a ladeira é um vaivém parece mesmo com a vida tem subida tem descida Barão não Poesia mesmo à toa tem lama poeira buracos tudo o que a vida possui mas polícia não tem não polícia lá não influi que a vida não tem polícia a vida é mesmo um vaivém igualmente esta ladeira dá na gente uma canseira tem subida tem descida tem mais que tudo canseira igualmente esta ladeira da Rua Barão da Gamboa. Que boa. Ladeira. Vida. Canseira. Gamboa.
PASSARINHO CANTANDO
CoNGOS, cabindas, angolas, também de Cacheo e de Bissao. Maranhão, Pernambuco, Pará, · Fernando Pó, São Tomé, Ano Bom, Serra Leoa, Serra Leoa, Serra Leoa I Cabo Verde, Moçambique, duas cozinheiras, três belas mucamas, óleo de côco, (o bôto também gosta de teu sangue Sudão). Senhor Manuel Teixeira dos Santos vem de rcdingotc, suíças e procuração. Ana Maria doceira de meu pai amancebou-se com o alferes; na segunda geração : nem culatronas, nem pés apalhetados, nem panos-da-costa, nem figas, nem aluá. Na terceira nasceu Maricota, filha-de-santo. chccheré, rainha suicidou-se com fogo.
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I>cixou uma filha sagrada com água benta, kchada com mandinga, branca, casada, com chácara. llá na sua pele três estrêlas marinhas, duas estrêlas-d'alva, 11 Lua, a Água-viva, a Fome de abraços. li á no seu sangue : três môças fugidas, dois cangaceiros, um pai-de-terreiro, dois malandros, um maquinista, dois estourados. Nasceu uma índia, uma brasileira, uma de olhos azuis, uma primeira comunhão, uma que deu seus cachos ao Senhor da Paixão, uma que tinha ataques. uma que foi ser freira, uma que nasceu em Londres e é parenta do Rei. (I passarinho ficou órfão ·:antando, catando penas só.
EXU COMEU TARUBA
O AR FSTAYA duro, gordo. oleoso : a negra dentro da madorna; c- dentro da madorna - bruxas desenterradas. No chão uma urupcma com os cabelos da môça. I:oi então que Exu comeu tarubá r· meteu a figa na mixira de peixe-boi. t\í na distância sem fim, môças foram roubadas, r· sóror Adelaide veio viajando de rêde, era alva ficou negra, era santa ficou lesa : caiu na madorna, o ar duro, gordo, oleoso. I'.xu começou a babar a mixira de peixe-boi. o professor tirou o pincenê : estava traíuo pelo donatário, sem harregãs, sem ginetes, sem escravos. t\í na distância sem-fim, viajando de rêde I>. Diogo de Holanda veio parar na madorna, o ar duro, gordo, [oleoso. Fxu começou a lamber a mixira de peixe-boi : Isabel Lopo de Sampaio desvirginou o moleque, jogou-se no rio, virou ingàzeira, pariu três macacos.
Viajando de rêdc vieram três macacos parar na madorna, o ar [ duro, gordo, oleoso . Eis aí três cirurgiões cosendo retrós. a bela adormecida no século vindoun.., que esquecerá por certo a magia contra tudo que não f ôr loucura ou poesia.
ANCILA NEGRA
HÁ AINDA muita coisa a recalcar. Celidônia, ó linda molcca ioruha que embalou minha rêde. me acompanhou para a escola, me contou histórias de bichos quando eu era pequeno, muito pequeno rne5rno. Há muita coisa ainda a recalcar : As tuas mãos negras me alisando. os teus lábios roxos me hubuiando. quando eu era pequeno. muito pequeno mesmo.
Há muita coisa ainda a recalcar 6 linda mucama negra. carne perdida, noite estancada, rosa trigueira, maga primeira. Há muita coisa a recalcar c esquecer : o dia em que te afogaste, sem me avisar que ias morrer, negra fugida na morte, contadeira de histórias uo teu reino. anjo negro degredado para sempre, Celidônia, Celidônia, Celidônia !
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Depois : nunca mais os signos do regresso. Para sempre : tudo ficou como um sino ressoando. E eu parado em pequeno, mandingando c dormindo, muito dormindo mesmo.
O BANHO DAS NEGRAS (Início de A Mulher Obscura)
I·:M CASA de Laécio não havia álbuns. A família de meu com- panheiro de infância parecia não ter tradição nem história. I .embro-me que um dia, perguntando-lhe como se chamava seu a\'Ú, êle me disse : - Morreu há muito tempo. Não me lembro como era, mas papai deve saber. Um dia pergunto. Recordo, porém, qee era. de todos os meus amigos. o que mais me atraía. Talvez não fôsse o companheiro em si, em quem, Ja por aquêle tempo. percebia uma capacidade de mentir maior que a de todos os meus outros camaradas, e uma grande habilidade de surripiar nossos objetos escolares, selos, estampas e brin- quedos. Talvez o que me atraía para Laécio fôsse a sua chá- L'ara, a sua grande chácara onde devia existir a Árvore do Bem e do Mal, chácara tão tentadora para mim. Os fundos davam para o rio. Um dia, Laécio me chamou para assistir o banho de umas negras. O espetáculo que se me niL·rccia não me deixou nenhuma impressão menos pura. As negras estavam ali tomando banho, negras novas do t 'aípe que se lavavam debaixo dos ramos das ingàzeiras arria- da~ sôbre as águas. Abriam bandós com os cacos de pente de t·hifre, e como não dispunham de espelhos, ajudavam-se na lllalete. As molecas eram bonitas, ágeis e puras. Eu estava, apenas, •"IIGtntado de ver corpos negros, tão diferentes dos brancos, L·mhclezando-se ligeiros, antes de entrar nágua. Reparava que ol!(llêle banho era diferente do banho de umas parentas, que me dl'ixaram uma vez esperando por elas. na beira do rio. As hr ;rncarronas se penteavam depois do banho, cuidadosas, com n toalha sôbre os ombros, debaixo dos cabelos soltos. Mas as
melecas podiam, com uma ligeireza espantosa, se coçar, espe·; nujar, separar com os cacos de pente o cabelo lanzudo, mer· gulhar na água transparente e sair outra vez sem que o cabelo se desmanchasse; a água não lhes alterava a beleza. O con- traste daquele corpos pretos e luzidios sôbre a areia das mar-' 1 1
gens ou sob a espuma do sabão me impressionou bastante. Nunca tinha visto espuma sobressair tanto, correndo ligeira nas costas escuras ou descendo entre os seios espigados pelo ventre abaixo. Mais ligeiros que a espuma, eram os seus braços har- moniosos. Algumas com a cara ensaboada, sem abrir os olhos para evitar a espuma, aparavam-na antes que ela se perdesse no chão. A espuma grossa voltava outra vez para debaixo das axilas ou dos ombros. esmagada de novo pelas esguias mãos. Outras se ajudavam no ensaboamento esfregando as costas das companheiras ou os lugares que os braços não atingiam. Achei lindas as negras. Achei-as ágeis, diferentes. Mas Laécio me ad- vertira que era proibido vê-las assim nuas; e se elas soubes- sem que nós as espreitávamos no banho, contariam a nossos pais e êstes ralhariam conosco e seríamos castigados.
CACHIMBO DO SERTÃO
AQUI É ASSIM mesmo. Não se empresta mulher, não se empresta quartau mas se empresta cachimbo para se maginar. Cachimbo de barro massado com as mãos, canudo comprido, que bom ! -- Me dá uma fumaçada ! - Que coisa gostosa só é maginar I Sertão vira brejo, a sêca é fartura, desgraça nem há I Que coisa gostosa só é cachimbar. De dia e de noite, tem lua, tem viola. As coisas de longe vêm logo pra perto.
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O rio da gente vai, corre outra vez. Se ouvem de novo histórias bonitas. E a vida da gente menina outra vez ciranda, ciranda debaixo do luar. Se quer cachimbar, cachimbe sêo môço, mas tenha cuidado ! - O cachimbo de barro 11e pode quebrar.
OBAMBA e BATIZADO I'I'.LA Fé de Zambi te digo : ( >hambá é batizado, confirmado, cruzado e coroado. l>á licença meu pai ? l.iccnça venha para os alufás de babalau. l.iccnça tem o Babá de Olubá. I iccnça tem.
l.iccnça têm l'lacuriqués, cacuricáa. l.iccnça têm.
I.iccnça tem hahalaô, babalaô. I iccnça tem. Na fé de Zambi te digo : c lhambá é batizado, confirmado e coroado. c 1\óssi está reinando · dá pra êle. I>ú pra o pai-de-sala, dá pra êle. c) ocaia dá pra êle.
Na fé de Zambi te digo : la· vira em meu sangue. c lhambá é batizado, confirmado e coroado. I>ú licença meu pai ? I iccnça venha para outros bacuros.
JORGE DE UMA ORRil COMPLETA VOLUME 1
ó ocaia dá pra êle. Dá licença meu pai '! ó ocaia, me deix
POEMA DE ENCANT AÇÃO
ARRAIAL d'Angola de Paracatu, Arraial de Mossâmedes de Goiás, Arraial de Santo Antônio do Bambé, v~s ofereço, quibebê, quiabo, quitanda, quitute, quingombô. 1Irai-me essa murrinha, êsse gôgo, êsse urufá, que eu quero viver molecando, farreando, tocando meus ganz~ ! Arroio dos Quilombolas de Palmares, Arroio do Desemboque do Quizongo, Arroio do Exu do Bodocô, vos ofereço maconha de pito, quitunde, quibembe, quingombô. Assim, sim! Arraial d'Angola de Paracatu, Arraial do Campo de Goiás, Arraial do Exu do Aussá, . vos ofereço quisama, quinanga, quilengue, quingombô. Tornai acaçá, abará, aberém, abaú ! Assim, sim! Tirai-me essa murrinha, êsse gôgo, êsse urufá ! Vos ofereço quitundc, quitumba, quelembe, quingombô.
REI f. OXALÁ, RAINHA B IEMANJA
REt É OXAI.Á que nasceu sem se criar. Rainha é Iemanjá quo.: pariu Oxalá sem se manchar. Grande santo é Ogum em seu cavalo encantado. Eu cumba vos dou curau. Dai-me licença angana.