Poemas - bloco 04 (p. 249-256) Obra Completa, Volume I · Capítulo 8 de 90
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Poemas - bloco 04 (p. 249-256)

1'11/,MAS 249

I' as 7 côres cantaram sons em redor do menininho. E a sala amarela, a cortina encarnada, olharam o arco-íris que estava dentro de seus olhos. ~le sorriu. E as sete côres saíram dos olhos e subiram nas cortinas, no jarrinho, na mesinha, na santinha da parede; e o· sol desceu do monte com o ouro da mina encantada e tingiu de côr de ouro o cabelo do menino. I'· a mãe-negra deu uma gargalhada mais clara q11c o ziguezague do raio que sai do ventre da noite.

XANGO

NlJM suJo mocambo dos "Quatro Recantos", IJIIihundos, cafuzos, cabindas, mazombos mandingam xangô. Oxum ! Oxalá. O ! e !

I >ois feios calungas ·- oxalá e taió rodeados de contas. no centro o Oxum ! Oxum ! Oxalá. O ! ~ !

c ';i11oclos, mulatos, negrinhas membrudas, no' tombos gemendo, cantando, rodando, 111\~xcndo os quadris e as mamas bojudas, retumbam o tantã ... Oxum ! Oxalá. ó ! ~ !

Siuhô e Sinhá num mêis ou dois mêis se há de casá Mano e mana I Credo manco! No centro o Oxum !

Dois feios bonecos na rêde bem bamba I Ioiô e Iaiá I M irrhas almas salllus benditas aquelas são do mesmo Serrhor; tôdas duas tôdas três tôdas seis e tôdas nove I Santo Onofre São Gurdim São Pagão Anjo Cust6dio Monserrate Amém Oxum I

No sujo mocambo a dança batuca. Recende o fartum dos sangues cabindas . Batendo com os pés, tremendo com as ancas, volteia sem roupas com o santo Oxum-Nila a prêta mais nova. Oxum! O I E. I Redobram o tantã, incensam maconha ! Oxalá sorri ... E a prêta mais nova com as pernas tremendo, no crânio um zunzum, no ventre um chamego de cabra no cio . . . E. I E. I Redobram o tantã. Ogum taiá-iê I Me pega ioiô ! O santo Ogum-Chila redobra o feitiço. Oxalá sorri. · Os olhos da prêta parecem dois rombos na pele retinta. Mas chego o momento: Xangô sai do nicho de contas. redondas, se encarna no corpo dos negros fetiches ...

l't11CMAS 251

A negra mais nova se espoja no chão. Acode o mocambo, Xangô tinha entrado no ventre bojudo, "uhira pro crânio da negra mais nova. Num canto da sala Oxalá sorri.

Meu São Mangangá Caculo Pitomba Gambá-marundu Gurdim Santo Onofre Custódio Ogum. Minhas almas santas benditas aquelas são do mesmo Smhor tôdas duas tôdas três tôdas nove o mtll seja nela São Marcos, São Manços com o signo-de-salomão com Ogum-Chila na mão com três cruzes no surrão S. Cosme ! S. Damião I Credo Oxum-Nila Amém.

252 JORGE DE LIMA OBRA COMPL.ETA I VOLUME I

TERRA

SENHOR tende piedade de todos os que se humilham, dos que choram, Senhor, dos que rilham os dentes, tanta é a dor, tanta é a desesperação ! De manhã fome, fome ao sol-pôr ! Senhor tende piedade dos suicidas, dos vergastados na prisão ! Tende piedade dos leprosos, dos que são execrados como Judas! Tende piedade de tôdas as dores não ouvidas estertoradas pelas bôcas mudas I Senhor tende piedade de Caim, dos criminosos sem perdão I Dos que passam pela vida sem ter ouvido nunca um "sim" nunca um "vem". Senhor tende piedade ! Sem vós tôda humana miséria, não terá nunca um fim, todos os invejosos serão Judas, todos os fratricidas acorrentados às heranças rudas de sangues cancerosos e almas vencidas serão, Senhor, a maldição dos que rilham os dentes, de impiedade, sem jamais ter perdão !

I'OEMA,~ 2S3

Frei Valério o último fradinho do convento ora. Tudo é silêncio e turvo, quedam longes sons absortos . Ao crepúsculo o monastério cresce as tôrres sombrias ..:orno se fôssem mãos juntas e esguias. Frei Valério alça a voz pelas almas defuntas. E é tão sentida a voz e é tão suave a prece que a mais temporã das noites desce, acalenta os rumôres que há no ar, acende as luzes do convento e acende no céu as primeiras estrêlas. Amarelido pelas penitências Valério tem os membros seviciados. r--1as se o monge é velho, é-lhe a voz sonora e perpendicular I Frei Valério é curvo, e tem os membros tortos. E a voz do Frei Valério, como se viesse do chão sobe, enche a nave enche de roxo o silêncio das celas. E é então que todos os ângulos do convento, tôdas as convergências, tôdas as reentrâncias, ouvindo aquêles lamentos, aquelas lamúrias, aquelas ânsias, acordam ecos magoados: E como outrora o noturno dos monges, cantam os ecos pelos monges mortos.

MUNDAú

1584. Os primeiros engenhos de Alagoas. Anadia. Coruripe. Pôrto Calvo. Minha terra natal : "Cerca rial de macacos," depois Vila da Imperatriz onde o destino quis que nascesse três séculos mais tarde o macaco mais triste dos macacos brasileiros. O rio de minha terra é o A B C de minha meninice, o meu passado a correr para o mar com tôdas as pedrinhas com que eu criança brincava a fingir que eram bois. Em junho o rio enchia, em agôsto secava e refletia o rio nágua uma verde esperança com a cabeça virada paro baixo. Os meninos banhavam-se de pé e as mocinhas de cócoras, nuinhas, agachadas no rio ... No banho nunca ninguém pode ver as mocinhas de pé. . . com frio ...

De repente Sinhá Rita chegava. "Que é?" "Sinhá Dona manda chamar pra ler." - Que nome recebeu a nova terra que Cabral descobriu ? - Que quer dizer Caramuru? Caeté?

I'OEMAS 2.55

Um dia é o que me lembra, eu desci o meu rio, P(:rguntaram-me: aonde vais? - Vou descer! respondi Desci I e não subi nunca mais !

A VOZ DA IGREJINHA

E o SINO da Igrejinha com voz fina de menina tem dlins-dlins para o batismo dos pimpolhos.

l,ara os mortos: devagar - DJ.JM-DLJM ... é como um chôro de menino, compassado sem fim.

Dlins-dlins para as manhãs loucas de luz, para as tardinhas que são como as velhinhas passo tardo, xale prêto, corcundinhas ...

As andorinhas conhecem êsses dlins-dlins c vêm ouvi-los no verão. As ave-marias vêm ouvi-los ao sol-pôr ... E a estrêla Vés per atrás da tôrre, c entre a neblina ouve quieta : dlim, dlim, dlim ...

1·: há dlim-dlins de esperança, de ventura, de saudades e de fé .. o

Todo o pulsar da vila : virgens que morrem, virgens que casam .. o

Viático .. . Novenas .. . Comunhões ...

E nas missas domingueiras que alegria, que repiques argentinos aos namoros das mocinhas ... Casamentos .. . Batizados .. . Agonias .. . Meu Deus I Dlim-dlins para os que morrem ... Dlim-dlim.

PAINEL DE NUNO GONÇALVES

EL-REI Venturoso ... Venturas . meu re1.'? Galiza, Navarra, Granada, Castela, teus Ganges, teus ouros, ginetes e velas, pintarei; e mais:

O burgo aos frangalhos, a plebe com os feudos, sofrendo com os negros e mouros: vergalhos. E mais: gente embarcada no bôjo das caravelas, em fanfarronadas às Ilhas das Maravilhas. a Cananor, ao Pegu, às Molucas, ao império acaju, de Montezuma e Ataualpa;

D. Mendo trazendo : corais de Veneza, falcões de Timor, marlotas de Flandres,

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