Poemas - bloco 01 (p. 225-232) Obra Completa, Volume I · Capítulo 5 de 90
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Poemas - bloco 01 (p. 225-232)

O MUNDO DO MENINO IMPOSSfVEL

FIM DA TARDE, boquinha da noite com as primeiras estrêlas e os derradeiros sinos .

Entre as estrêlas e lá detrás da igreja, surge a lua cheia para chorar com os poetas.

E vão dormir as duas coisas novas dêsse mundo: o sol e os meninos

Mas ainda vela o menino impossível aí do lado .:nquanto tôdas as crianças mansas dormem acalentadas por Mãe-negra Noite. O menino impossível que destruiu os brinquedos perfeitos que os vovós lhe deram:

o urso de N ürnberg, o velho barbado jugoeslavo, as poupées de Paris aux cheveux crêpés, o carrinho português feito de fôlha-de-flandres, a caixa de música checoslovaca,

o polichinelo italiano madc in England, o trem de ferro de U. S. A. e o macaco brasileiro de Buenos Aires moviendo la cola y la caheza .

O menino impossível que destruiu até os soldados de chumbo de Moscou e furou os olhos de um Papá Noel. brinca com sabugos de milho, caixas vazias, tacos de pau, pedrinhas brancas do rio ...

"Faz de conta que os sabugos são bois. o o" "Faz de conta ... " "Faz de conta ... "

E os sabugos de milho mugem como bois de verdade o o •

e os tacos que deveriam ser soldadinhos de chumbo são cangaceiros de chapéus de couro o o o

E as pedrinhas balem! Coitadinhas das ovelhas mansas longe das mães prêsas nos currais de papelão!

e boquinha da noite no mundo que o menino impossível povoou sozinho!

A mamãe cochila o

O papai cabeceia . O relógio badala o

E vem descendo uma noite encantada

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da lâmpada que expira lentamente na parede da sab ...

O menino poisa a testa e sonha dentro da noite quieta da lâmpada apagada com o mundo maravilhoso que êle tirou do nada ...

Xô! Xôl Pavão! Sai de cima do telhado Deixa o menino dormir Seu soninho sossegado!

A MINHA AMERICA

CmADE DE Cusco. Hace frío. J.á vem a procissão do Senhor dos tremores de terra l'i1•a El Seí'ior de los temblores! Viva El Perú! Há flôres de ííuchos pelas ruas. Há meninas rotundas nos balcões. Há namoros vermelhos nas esquinas. Jlú borrachos a aguardente e chichal

De repente tinem sinos, carrilhões da Capilla dei Triunfo. Blão! Blão!

Camaretos soltam bombas E desfila a procissão .

.'i. /l/a.1·, S. Benedito, S. Cristóbal, S. José! t) s,·,lor de los temblores és tu que vens t'1 Snlora de Belém és tu que vens, n•n1 os olhos de mola, movendo, bulindo, que lindos!

(.lu,: ojos lindos y qué dulce mirar!

E no ar tinem sinos, carrilhões da Capilla dei Triunfo - Blão, Blão. Tonalá. Se1ior déjame ir donde voy. Sabed que aquella flauta me llama y yo no puedo dejar de ir aliá.

Alguém que ama sopra um tlapitsali de pingollos ao clarão do luar Vem descendo uma brisa dos oteros ... Vai subindo a cantiga dos pingol/os . .. Gutiérrez de Santa Clara é a tua alma que tafíe el pingollo encantado ou és tu Garcilaso que modulas em tua flautilla de argamassa um hino a Nossa Senhora de Guadalupe que protege Tonalá?

Tierra Blanca! Quatro índios de Pancaya tangem a sonaja de t!lboca . E nos pátios perfumados de alecrim e cravos o zapateado pisa e repisa a mesma toada. E as índias que estão encerradas em suas casas saem escondidamente e se vão à procura das sonajas.

O Patagônia, meninona de peitaços bambos toca teu kolo; teu alfandoque de bambu, Colúmbia: Cajamarquilla I Eu te ouvi Cajamarquilla as quenar de ossos de lhama enfeitadas de fitas multicores.

Ouvi nas punas da Bolívia e da Argentina las fiestas de los Andes, os tocadores de flautillas das planícies do Chaco. das mahuidas do Rio Colorado, peones chilenos, almocreves cobertos de molambos, os onas comedores de mariscos,

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iakomas cobertos de peles de cabrito, ouvi tudo e ouvi nos pampas, nas praias, nas montanhas, a voz diabólica do Zonda, do Pampero, do Nordeste, 11 tristeza dos desertos, a opressão temerosa das florestas. M arimbas de Nicarágua, 1acapas do Peru, línias, vancares, poracês, nicos, emboladas, xangôs de Maceió e da Bahia, candomblés do meu Brasil inteiro, ludo isso tão triste ! I l sol rindo, a natureza rindo, n' Nossas Senhoras de Guadalupe, del Pilar, da Aparecida, de Belém, de Nazaré rindo, rindo, l' o homem tangendo pífanos,

ocarinas, bombos, berimbaus, tahumbas, flautas, maracás, violas, 1ristes, sempre tristes, e sempre as mesmas procissões das Senhoras dos tremores, as mesmas procissões contra as sêcas do Nordeste contra as enchentes dos rios, contra os gafanhotos, contra as geadas, contra as bexigas, as lagartas, as pestes; sempre a renúncia de todos os vencidos de la sierra, dos pampas, das savanas, dos campos, dos brejos, do, sertões, das restingas, das lagoas, da' capoeiras, dos seringais, tl1" l/anos, das caatingas, das coxilhas, das florestas;

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o mesmo homem curvado sôbre a terra, o mesmo garôto esfarrapado vigiando ovelhas e cabritos, a mesma mulher paciente a tecer o poncho, a rêde, os fundilhos do marido, a coser a roupa de couro dos vaqueiros, os mesmos burocratas, os mesmos domingos com fonógrafos, e roupas engomadas, a mesma lentidão, os mesmos oradores fogosos, os mesmos jornais difamadore.~. os mesmos caudilhos revoltosos. os mesmos cangaceiros invencíveis, os mesmos defuntos das igaçabas e dos vasos funerários, acocorados com os objetos familiares e as armas de guerra em redor dêles ... U. S. A. Estados Unidos da América do Norte: New Jersey, Detroit, Buffalo, Chicago, Ritmo de fábricas gigantes que desovam automóveis e locomotivas. U. S. A. Negros linchados pelos brancos, réus eletrocutados em Sing-Sing, delinqüentes castrados nas prisões, arquimilionários condenados, e milhões de mãos construindo :rky-scraper da Felicidade.

U. S. A. O álcool interdito, a peste interdita, a "Chinese Exclusion Act" proscrevendo os amarelos, e o homem rindo nos filmes,

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Roosevelt rindo para a morte, a Bíblia rindo para o mundo. Tio Sam rindo para tudo !

U. S. A. Indústrias gigantescas, trustes colossais, Massachussetts New Hampsbire, Rhode Island, Connecticut, Pensylvania, 1·\tados Unidos da América I Todos os ritos alegres e assombrosamente numerosos : Cultos, conferências, o congresso eucarístico de Chicago distribuindo hóstias a 2 milhões de bôcas : O maior record de distribuição do Corpo do Senhor ! Mas acima de tudo a suprema alegria marca U. S. A. : O amor divorciado 20 vêzes e 20 vêzes glorificado, sempre jovial e sempre novo como a própria alma alegre dos Estados Unidos da América do Norte. Whitman I Alfred Kreymborg ! Os vossos olhos côr-de-rosa, os vossos olhos risonhos demais, '" vossos olhos que vêem em canudos de oiro ,. o reclamo luminoso da vossa América de rio~ explorados ,. cachoeiras montecárlicas, v{,s que inventastes o novo mundo, 11.1o vistes a outra América furar ua escuridão que limita as fronteiras da raça, lur01r com as unhas longas e sem brilho, " canal do Panamá entre o México e vós outros. Os brasis, os méxicos, as patagônias desta América uao cantam os cantos bons que Marsden Hartley ,. < irace Hazard Conkling entoaram.

Aqui os mulatos ·.uh~tituíramos negros gigantes de Vachel Lindsay. 1\qui não há os selvagens felizes de Mary Austin.

Negros, Selvagens, Amarelos, - o arco-ms de tôdas as raças canta pela bôca de minha nova América do Sul, uma escala diferente da vossa escala, Alfred Kreymborg, Whitman!

BAHIA DE TODOS OS SANTOS

BAHIA, eu te olho e te ouço de bordo do meu itazinho pulador, e sob a mesma noite que nos cobre, eu sinto o contato de teus membros morenos e procuro com as mãos, com os lábios, tudo o que é bom de cingir e beijar !

Para me ver chegar, os sobrados e as igrejas subiram nos teus montes e me espiam de cima com os olhos das janelas acesas.

:e. o amante que chega ! E as virgens loucas já o esperam com as lamparinas da Parábola. E que noite gostosa, que colcha macia, nos cobre a nós ambos Bahia ! Teu amigo vem saudoso de ti e estende as rolos aos pedaços melhores de teu corpo : - tuas ladeiras, teus montes, as curvas gostosas da cidade mais bonita do Brasil !

:e.s tão cheia de altos e baixos, Bahia, gostosa dos dendês, jilós, acaçás e pimentas- de-cheiro. Lamento o mau gôsto dos teus turistas que te conhecem de oitiva,

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