Invenção de Orfeu - Canto II: Subsolo e Supersolo - bloco 03 (p. 694-701)
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A mor afronta, nunca. Nunca as culpas. O cérebro falido, as frontes néscias sem dúvidas da vida, sem arábias. O pilotos modernos, submarinos, ásperos matos pelo tronco abaixo, delfins de fundo oceano, galos-d'água tão molhados de chuvas femininas, tão sentidas deidades gloriosas que seus cantos andróginos espumam.
Lusíada desnudo vou coçar-me. Às vêzes pela areht bebo deuses, contemplo o mar nascendo, choro em vão, um chôro muito redcsamparado; 6 chôro fabuloso, grato chôro, banhando-me as entranhas com suspiros, fortíssimos consócios de meus dramas. matleiras leais livrando-me dos cercos. João filho de Pedro, de Francisco. Os modernos poemas insensatos contêm esqualos cegos, frutos cheios '
~ e os nascimentos, sempre os nascimentos. (Ouve a canção sem voz! Ouve a canção!) Aparecido sou, de túneis acres, de ascensores que vão, de descensores, de que grito de lava despenhada? A vontade de pranto mais que lusa. (Ouve a canção sem voz! Ouve a canção!) Veleiros não há mais nos horizontes, mas subindo nas ondas e descendo, e descendo e subindo sob o solo. (Ouve a canção sem voz, ouve a canção!) ú beleza dos mares interiores não sujados de nautas e sereias. ú fantasmas com os cânticos dos galos persistentes, tangíveis apesar do silêncio das vozes que lhes falam.
Aqui fecharam pálpebras as pedras, ~ôbre êsse território aglutinado; e os habitantes dormem acordados
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até as lindes onde a vida nasce c os ventres não concebem só dos homens, mas a memória emprenha e o verso nasce como rosas sem pétalas, mas rosas, mas rosas sempre lágrimas c absintos, mesmo vociferantcs contra os ventos. Por aqui profundamlo o largo seio, demos às proas nomes esquecidos: armilas, zaires, congos, hemisférios, com os invernos dobrados, dois apoios, recordações de estrêlas já passadas, oratórios, relíquias, alto espanto sôbrc os mastros das naus llesabitadas, umas nuvens pilosas, carregadas como mamas de Jôba, como amoras. Pelas costas há vozes desgarradas, sombras pudendas, pastos alcançados por um pomo de gôzo; um assassino cobria-se a alma quente de azorragues, mas as órfãs cantavam com os cabelos, e os cabelos nasciam sob as vestes. !'elo figo da /igm•im O terrenos vedados, estranhezas. ó que influição medonha, ó que poderes dominantes, que grandes ancoragens! :e.ste é do mundo o velo mais secreto, aqui a prata ingênua nos outeiros, as môças orvalhadas e as areias, e as tardes boas, rente àquelas ondas, e o espanto de ver vulvas pressentidas, (6 vergonha!) e cheirar as maresias, e acarinhar espumas e chorar, chorar sôbre os países conquistados pelos heróis antigos que os violaram.
No fim o estupro é o mesmo, nós os castos, nós os doces facínoras cordeiros. Que rudezas de sangue sôbre amôres! Que delícias porfiadas, que sadismos! Que braços de vergar a carne amada! Que mágoas silenciosas não soadas,
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os roteiros da vida pilotados, e após as faces que jamais se encontram, os desejos contidos, os borralhos! A fôrça é suma e nunca tutelar recalcando medulas para trilhas, para ternuras, para hipocondrias, para loquacidades inaudíveis; recuperam-se os zelos e apatias, tabulamos as coisas e ultrajamos horizontes mentais, nossas madrinhas, nossos amôres, nossas afasias, condutas infantis, liberações. O amor está ali perto em doces primas. O humor é que nos dói; representamos. O luar imotivado contraria-nos. As auras viscerais nos acalentam. Amamos nossas amas e os estigmas. Sofremos contusões, perambulamos, crepusculamos, face presumida com dois caleidoscópios e essa mimica. Que os outros vejam como somos néscios. Recheamos os bolsos de condutas, chegamos à adultícia quase teórica, elegemos as musas e as matamos; convém nos concisarmos nessa viagem nessas descargas, nesses raptos, nesses assassínios em massa e violações. Apenas delinqüentes, vagabundos, mordemos nossos lábios, roemos unhas, crispamos nossas mãos, somos oriundos.
Alargamos as faces, alegrias, temos desígnios, somos superpostos; e entretanto nos rimos, somos frios, apraz-nos que nos tombem e zombamos dos nossos pobres golpes, com cueiros, comendo coisas tenras e merendas, ainda somos meninos, ainda somos O menino impos.slvel meninos impossíveis e possíveis: e o possfvel - faz de conta que somos homens feitos.
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Tanto que à pátria oculta foram vindas as medulas mandantes, eis autômatos: refletem-se nas sombras liminares; e aquelas se desdobram nas imagens deformadas das águas movediças, as mãos tremem, os pés tiritam juntos, e a maleita da tarde pende estrêlas originárias das lagunas do ar, que se derramam pelos frios vales. Ouvi; que não vereis com os vossos olhos as palavras das águas represadas, os obscenos apelos, os convites à multidão dos corpos que elas cingem, que elas mudam em coisas afogadas, que elas embalam, que elas adormecem, que elas aleitam com o seu leite môrno; e eis as formigas pelo tronco acima aprisionando aranhas para os filhos. E eis os túneis por onde o instinto vê os úteros pejados e as curcúbitas nas sebes dando seivas permutadas, grandes lâmpadas, focos de falenas, as falenas no chão sem suas asas, insetos pelas Juras se abrigando, e o subsolo gemendo lavas brancas; as raizes descendo pela terra, roendo as pedras e roendo os sonos. Em certas horas o subsolo esvai-se numa vaga invisível, vem às casas, percorre camarinhas, e descobre-nos. :a a impaciência da fôrça abandonada, o.• o coração aos pulos para ver-nos, in.1·tinto.r para estreitar-nos, suando-nos a pele com seu sôpro de brisa pegajosa. Sabemos que ela é forte como n6s, como nossas fraquezas, como o século. Países de Jazer, de enxames lentos, os aços da quietude tam seu preço, as purificações diluem peles.
Ah! como se defendem nossas mãos, como a cidade das sanções é triste, o campo marginal como é possesso, as vísceras abstratas como doem. Quantas chinas aqui, quantas metrópoles! E as dominâncias! Ah! E as dominâncias! As vizinhanças tudo, tudo ao lado, a família dos pais e a de seus filhos, o anonimato dando os parricídios, os afetos abluindo sacerdócios, somos a teia, somos engrenados, temos pêlos dos homens que matamos, dançamos e lavamos nossas almas, acolhemos o tempo e nos expiamos. Deus e o demônio - os grandes; nós medíocres. Invadimos os outros e as condutas, vivemos pelos outros e dos outros, temos olhos de João, lábios de Pedro, Polipm·ollalidttdtJ choramos os antípodas, nós públicos, nós conflitos e duras invasões, os traços de Eduardo me disfarçam, as máscaras de Carlos me acomodam, sou modêlo de tristes e de freires. busco modelos para ser os outros. Tudo ações conjugadas, tudo um corpo, tudo um sangue passando, os ventos indo, as águas se movendo, o sal um só, equipamento de asas e de barcos para os membros iguais permane~.:erem. e meu canto acordar os outros cantos, e eu ser comunicado em canto oculto que a ambiência das coisas me transmite e os tormentos do mundo me designam.
Mosaico de memórias nêle nado, comendo peixes e recordações, encerrando em cubículos de espelhos em que o meu rosto não se vê, mas os dos passados e os dos presentes rostos, que emergiram de baixo, do subsolo,
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da mor comunidade, bôrru viva, sol soterrado pelas cordilheiras em que temores e ódios são iguais. Águas contidas, nuvens entravadas entre os dedos das mãos, escapulindo, elevando os olhares para as nuvens, e o temporal e os raios no céu duro tão baixo como lapa de caverna; e os cogumelos de sentido inverso descendo pelas vigas ensombradas, uns como os prantos nunca redimidos, e outros sem pranto, tanto já choraram. Já percebestes: viagens pelo cerne. Do chão nada esperar senão seu vidro, sua paisagem, côr e algo de música, e solados de botas contra espinhos; aqui os pés descalços, e essas fundas passadas sôbre léguas condensadas de gigantes abortos, mesmo não, mesmo não abortados, com os sentidos latejando naquilo que é matéria, sua matéria rara e amanhecida em que não tocareis. que ela vos toca, e pelos pés e pelos joelhos vai até o sexo, l que dor desmesurada!) a haste interior penetra roendo o cérebro, sai nos olhos a serpe que se enrola no pescoço dos sêres, para nêle deixar as intenções de tê-lo livre ou de elevá-lo um dia a seus patíbulos. Astro privado, audaz caminho não andado de tão novo, sempre de ar dolorido e de esperas soçobradas, tempo escoando-se em crivos aluviais com potências unidas, consangüíneas, e o estendedouro cheio de toalhas que enxugaram espermas e suores e os sangues depurantes e holocaustos, e os rostos uns sôbre outros até às máscaras.
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Chegaram-no. Perjura exumação: êsse dorso de mármore perfeito, êsses pés, essas mãos antecedentes, essa fusão de joelhos e de ventres, êsse corpo tão belo e tão confuso; subvertimento antigo da matéria, sutileza das formas misturadas como se misturassem agonias,
--· coisas presentes com futuras coisas. Era o deicídio lúcido, constante; ontem cravos nos pés, lanças rasteiras, hoje a coroa, os nomes ultrajantes, o ombro esfolado, a cana dos escárnios, amanhã tornaremos lentamente: pregos nas mãos, esponjas com vinagre, martelos repregando pés e mãos; c depois de amanhã continuaremos, c:om os martelos e cravos repregando.
A platéia enterrada não aplaude, mas repete o espetáculo dos sangues. O perito das sombras não descansa. De minuto em minuto se comete. Carregam-vos nas sombras, ou são sombras que vos carregam? Cabra-cega. Sombra cega através. Perdido jôgo. Cúmplice antes da vida para a vida suja, não porque desejastes, mas quiseram.
Há a luz que é sombra só porque quer ser, que amanhece nas almas vigiando-as, que anoitece nos dias benfazejos. Há essa luz também, luz que nos cega com dois sóis que nos deixam sob as pálpebras a sensação de estarmos enxergando; e somos cegos da cegueira funda que se esqueceu da noite de onde vimos e que não vê a noite pra onde vamos. in/ra-solo Não pára o solilóquio. ~ o infra-solo ~c:l:~'do falando para dentro, denunciando-se, dentro expondo as suas vísceras sumidas.
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~ um pássaro molhado, enlouquecido, com o luto do pai morto sôbre as penas, e o canto carregado de tais côres, que o céu de chumbo cai como um sudário sôbre a amargura da visão do mundo, para deixá-lo e ouvi-lo lamentando-se. Bêbedo só, debaixo dessa terra? Jamais grandes consolos, grandes sonos, grandes delírios, grandes poemas, grandes, eu também sei amar-vos dor das coisas, coisas pequenas, coisas que já foram, prantos perdidos, lutos emprestados, risos humildes, leitos desprezados, e aquêle enfêrmo Jó sôbre os monturos, coçando com as mãos rôtas cinco legras.
XV Vem amiga; dar-te-ei a tua ceia e a comida que acaso desejares, e algum poema que ilumine os ares menos que a luz malsã dessa candeia. Aqui terás o peixe dêsses mares e o mais gostoso mel de tôda a aldcht. A excelsu De onde vens? De que cimos? De que altares? mu.m Que luz angelical te agita a veia'! Como te chamas vida da outra vida, espelho noutro espelho transmudado, lume na minha luz anoitecida? Serás o dia à noite do outro lado de meu ser que nas trevas se apagou? Ou serás qualquer lume que não sou?
XVI
Contente de ser paisano, ter país em meus olhares,