A Túnica Inconsútil - bloco 03 (p. 441-448) Obra Completa, Volume I · Capítulo 22 de 90
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A Túnica Inconsútil - bloco 03 (p. 441-448)

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I kpois me passa ungüentos para eu me salvar. Mu~. grande Lúcifer, isto me cansa. I~ quando vou aderir aos vossos rogos, lembro-meque sou Sua [experiência começada, e que tenho de comparecer em Jo- [safá; então continuo a acompanhá-lo.

CONFISSõES, LAMENTAÇõES E ESPERANÇA A CAMINHO DE DAMASCO

O MUNDO precisava de amor: 1111 véspera de Vossa Morte nos deixastes um legado: n llóstia para matar fome e sêde. I~ vossa Missão terminada subistes para a direita do Pai ,. l.hc mostrastes as cicatrizes que Vos deixamos no corpo. l'ui Amado, eu que sou a realização de Vosso Pensamento. tlu i-me complacências. Sl'nhor, minha Fé é diminuta: aumentai-a: l>ai-me olhos de contemplação, 1l11i-me respostas, 1lni-me um cavalo de Vosso Reino IJIIC tomando as rédeas de minha mão me leve para Damasco. l'ni Amado, sou cego, aleijado, e paralítico: •m·us membros não darão na Cruz. l 1 ~1ou calejado de perenes quedas: ( 'urai-me todo. lransformai-me como transformastes o vinho. lli:.•o me abandoneis em interrogação permanente. lki-vos uma costela para fazerdes Eva ,. a~ 23 restantes a Satã para corrompê-la. Sou colono e amicíssimo de Lúcifer. S11u da primeira serpente, sou um prisioneiro da primeira guerra. llai-me um cavalo de Vosso Reino para ir a Damasco! Sou fornecedor de armas para os filisteus. Sou o que torpedeia a Arca e a Barca. Sou rcconstrutor de Babel. S•n• bombeiro do incêndio de Sodoma. l,.ui demitido da Vida, ,. Vós me enviastes outra vez. I) ·miti-me de novo que errei mais'

Sou o assassino de Lázaro, sou plantador de joio: Dai-me um cavalo para eu fugir! Quis afogar São Cristóvão, transformei as algas em micróbios e as asas em aviões de guerra! Deus Amado, Vós que tendes sido meu pára-quedas, meu ascensor, minha escada, minha ponte, segurai-me para que eu não me precipite dos arranha-céus! Dai-me um cavalo para eu fugir! Dai-me um cavalo de Vosso Reino c que eu sem querer vá para Damasco . Amado Pai, no caminho de Damasco basta uma sílaba para eu enxergar de novo, ou um coice de Vosso cavalo para eu despertar na Luzi

VIAGENS, DESCOBRIMENTOS E GRANDES RISCOS DO POETA NO MAR PAR.\ D&N'I"F. MtLANO

No DIA do nascimento de Cristo descobrimos a capitânea das que tomou o mais belo dos nomes. nescobrimos então outras ilhas povoadas, c viajando para oeste penetramos nos mares sem fim . r.ançamos as rêdes sôbre os mares revoltos e pescamos os sonhadores esquecidos e as mulheres repudiadas que se suicidaram sob reis legendários Mergulhadores trouxeram a notícia de que o fundo do [era raso. E os marinheiros sonhadores concordaram. Vimos as trilhas dos grandes navegadores errados que de!lcclhr·ir~.m~ tôdas as lndias do mundo e levaram a cruz para as terras pagil. Vimos os tesouros famosos dos piratas servindo de ninhos às gaivotas e aos pinguins. Mergulhadores trouxeram a notícia de que o fundo do oceano: estava juncado de setas atiradas pelas constelações celestes. P. os marinheiros sonhadores sondaram com seus olhos distantea a profundidade da verdade e concordaram com os mergulhadoret [do barco.

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Viajamos então vários dias nos guiando pelo vôo dos pássaros ,. vimos pescadores de pérolas suando sob as águas wmo os mineiros suam sob os túneis das minas. I·:ntão os marinheiros perderam a fé na justiça de Deus; e uma grande tempestade se formou. Jogamos por isso um profeta nas ondas ,. a fé regressou tão profunda ttue as montanhas do fundo do mar se elevaram ,. boiaram no seio das vagas . I ançamos as rêdes e pescamos na maré preamar um livro milenar ainda úmido da saliva de Deus. F lemos êste livro à tripulação do barco que o esqueceu ,. adorou o boneco da proa . I·: por isso uma grande tempestade se formou. Jogamos outro profeta nas ondas; l' a Fé regressou mais profunda que o mar. 1\fandamos mergulhadores que trouxeram ramos de algas verdes c~ outros sinais de aliança com Deus. I: nos guiando pelas correntes sábias descobrimos ns mais recuadas ilhas para as bandas de oeste ,. deixamos uma cruz em cada praia sem nome. C>s mergulhadores viram as invencíveis armadas hospedando peixes-voadores. ( >s marinheiros sonhadores sondaram a verdade ,. concordaram com os mergulhadores do barco . Sabei, pois, que andamos viajando sem máquina c continuamos a descobrir várias ilhas; llai notícia aos demais viajantes 11ue por terra ou por mar ainda têm tempo para navegar.

UMA OU OUTRA REMINISCRNCIA DO POETA

NÃo fls Tu por acaso a irmã do pastor, a da raça de Abel, a amiga dos cães e das ovelhas? Não és por acaso a irmã do pastor, a que dançou no pátio diante do povo? Vamos andar nas colinas, 6 irmã do pastor, ó amada de todos, 6 dançarina?

Não és a de cintura esbelta, a de pés ligeiros, a de mãos suaves, a de olhos claros? Por mais que negues, tu és a irmã do pastor, pela tua voz, pela tua dança, pelo teu olhar, és a irmã do

Reconheço-te quando danças no pátio, diante do fogo, nas pontas dos pés, em roda os cantores. I:.s a irmã do pastor, a dançarina que dança com o olhar perdido na estrêla que vem nos ocasos amar os pastôres.

Não és tu a que hipnotiza os ursos e distrai os homens, da guerra? Não és tu a poetisa? Não és a rara, a única, a desconhecida, a irmã do pastor? Não és a que tens beijos e não dás? Não és a que danças nas pontas dos pés, com as mãos como plumas e os lábios entreabertos? Não és a que comanda, a que hipnotiza os cavalos do a que apareceu na varanda com um lírio na mão? A prefigurada pelo poeta pálido? Não és? Não és a que o rei viu no banho e ficou louco? Não és a irmã do pastor ? Não és a que vai ficar noiva do andarilho ? I:.s sim a irmã do pastor que paras as horas e os olhares, que eu vejo nos filmes com os povos errantes I 'E.s sim a irmã do pastor que veio do comêço I ~s a irmã do pastor que a gente entrevê nas outras Ah I a irmã do pastor I A desaparecida t Em que festim de Nabucodonosor ou de Ptolomeu te vi a última vez ?

A MORTE DA LOUCA PARA MARIA HPI.ENA NiLSON PINTO

ÜNDE ANDARÁS, louca, dentro da tempestade? 'E.s tu que ris, louca ? Ou será a ventania ou algum estranho pássaro desconhecido ?

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lloiarás em algum rio, nua, coroada de flôres ? I lu no mar as medusas e as estrêlas palparão os teus seios e [ tuas coxas? I uuca, tu que fôste possuída pelos vagabundos sob as pontes l dos rios, t·•larás sendo esbofeteada pelas grandes fôrças naturais? Algum cão lamberá os teus olhos que ninguém se lembrou [de beijar? I lu conversarás com a ventania como se conversasses com tua [ irmã mais velha ? I lu te ris do mar como de um companheiro de presídio ? t lndc andarás, louca, dentro da tempestade ? 1:~1arão as gaivotas surprêsas diante do estranho corpo ador- l mecido na morte ? Se estás morta, começaste a viver, louca! Sl· estás mutilada começaste a ser recomposta na grande Unidade! I lnde andarás, louca, dentro da tempestade ?

PERTURBAÇÃO NAS ILHAS DE PÁSCOA

l-louVE PAZ nas ilhas de Páscoa, ~im, houve paz, mas depois que o ciclone arrancou os coqueiros das ilhas e destruiu as tendas dos canibais. I louve paz, sim, houve paz, depois que as gaivotas se afo- [ garam l' as fogueiras dos nativos se apagaram. Depois que o mar trouxe os búzios do fundo, houve paz. Cl homem branco em sua tenda tocou sua vitrola ,. na noite longa ouviu um blue; não ouviu o vento, não ouviu a chuva, ouviu o canto, ouviu [o canto . .'ipring is coming, Spring is coming for tire swallows ... () homem branco pescará na maré alta a estranha m.aga IJUC os canacas da ilha viram n'água. !louve paz depois da borrasca e ela virá. l!rigará com o Rei dos polvos c a libertará. .'ipring is comiug, spril:g is coming for the swallows ... Proporá viver com ela vendendo aguardente aos nativos: Spring i.~ coming ... Matará o Rei dos polvos.

Matará o clown, matará o equilibrista, matará o maestro. Irá com ela pelas ilhas com o seu circo pequeno só de anl• [ mais que a não cobiçarão. Matará os macacos - semelhança dos homens. Irá com ela sozinho pelas povoações. Venderá seus retratos às platéias de contrabandistas [ fonas. Houve paz nas ilhas de Páscoa, sim, houve paz. Depois que a matou e se matou houve paz nas ilhas de Houve silêncio. E as gaivotas volturam E os canibais continuaram os seus jogos noturnos.

O GRANDE DESASTRE ABREU DE ONTEM PARA PoRTINAII

VEJO SANGUE no ar, vejo o pilôto que levava uma flor a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a ncentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira seu estradivárius. Há mãos e pernas de sadas na explosão. Corpos irreconhccíveis Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo sangue caindo nas nuvens balizadas pelo sangue dos mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três c::indo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou pára-quedas, c a prima-dona com a longa cauda de larltejjou1l._, riscando o céu como um cometa. E o sino que ia capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres Presumo que a mõça adormecida na cabine ainda vem mindo, tão tranqüila c cega ! ó amigos, o paralítico vem extrema rapidez, vem como uma estrêla cadente, vem com aJ pernas do vento. Chove sangue sôbre as nuvens de Deus. E h' poetas míopes que pensam que é o arrebol.

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DUAS MENINAS DE TRANÇAS PRETAS

ERAM DUAS MENINAS de tranças pretas. Veio uma febre levou as duas. Foram as duas para o cemitério: ambas ficaram na mesma cova. Por sôbre as pedras da sepultura brotou bonina. brotou bonina. nasceram plantas, nasceram mais plantas. flôres do mato, canas da várzea: a sepultura virou canteiro. Aves vieram cantar nas plantas, levaram sementes por sôbre o mar. Os peixes levaram estas sementes até as Ilhas de Karakantá. Ali brotaram flôres estranhas. Donde vieram flôres tão raras? Ah ! só o poeta saberá. Pois nesse mundo desconhecido há casos dêsses que ninguém vê: vieram insetos beijar as flôres, e um belo dia veio um poeta pegar insetos para sua amada. A borboleta mais rara que há naquelas ilhas de Karakantá é côr de amaranto com olhos azuis. Mas heis de saber que a tal borboleta contém veneno dentro dos olhos; aí o poeta beijando tais olhos ficou dormindo como um cadáver. E então sonhou com as duas meninas: que ambas dormiam na mesma cova, que flôres nasceram na sepultura, que a sepultura virou canteiro, que peixes levaram sementes das flôres para aquelas ilhas de Karankatá.

O sonho do poeta o vento levou, levou para um astro desconhecido. E aí chegando tornou-se um mar: a água do mar virou arco-íris. Então uma deusa pegou o arco-íris e fêz um pente para se pentear. E tanto se penteou a deusa do astro que deu a luz a du:lll meninas. Sabeis quem são as duas meninas? As duas meninas mais belas que há? Ah! só o poeta saberá.

POEMA DE QUALQUER VIRGEM

As GERAÇÕES da virgem estão tatuadas no ventre escorreito, porque a virgem representa tudo o que há de vir. Há arco-íris tatuados nas mãos, há Babéis tatuadas nos braços, A virgem tem o corpo tatuado por Deus, porque é a semento [ do mundo que há de vir. Não há um milímetro do corpo, sem desenho e sem plantai [futuras. Não há um poro sem tatuagem: por isso a virgem é tão bela .. Vamos ler a virgem, vamos conhecer o futuro: reparai que não sio~ enfeites, ó homens de vista curta. Olhai: são tatuagens dentro [ de tatuagens, são gerações saindo de gerações . Quem tatuou a virgem? Foi Deus no dia da Queda. Vêde a serpente tatuada nela. Vêde o anjo tatuado nela. Vêde uma cruz tatuada nela. Vêde, senhores, que não pa• gareis nada. ~ o supremo espetáculo, meus senhores. En· sinarei os mistérios, as letras simbólicas até o ômegu. Vinde ver o trabalho admirável gravado no corpo da virgem: a história do mundo, a estrastofera habitada, o mágico Tin-Ka-Lu viajando na lua. Porque a virgem 6 admirável e tem trato. Vinde, senhores, que não pagareis nada. A imagem da inocência, da volúpia, do crime, da bondade, as representações incríveis estão no dorso da virgem, no pescoço, na face. Vão sair tumultos das ta· tuagens. ~ um momento muito sério, senhores. Vão sair grandes revoltas. Há um mar tatuado na virgem, com 01 sete dias da criação, com o dilúvio, com a morte. Vinde. senhores, que não pagareis nada.

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