Invenção de Orfeu - Canto IX: Permanência de Inês - bloco 01 (p. 871-874) Obra Completa, Volume I · Capítulo 76 de 90
Obra Menu

Invenção de Orfeu - Canto IX: Permanência de Inês - bloco 01 (p. 871-874)

CANTO IX PERMANENCIA DE INES

I EsTAVAS, linda Inês, nunca em sossêgo e por isso voltaste neste poema, louca, virgem Inês, engano cego, 6 multípara Inês, sutil e extrema, ilha e mareta funda, raso pego, Inês desconstruída, mas eurema, chamada Inês de muitos nomes, antes, depois, como de agora, hojes distantes. Porém penumbra vaga ou talvez acha celeste consumindo-se, também a própria conceição parindo baixa a real prole; de súbito ninguém nessas longínquas órbitas que enfaixa com seus cabelos, ela-a-mais-de-cem, a mais de mil, Inês amorfa e aresta, Inês a só, mas logo a sempre festa. Inês que fulge quando o dia brilha ou se acinzenta quando o ocaso avança, rainha negra, mãe e branca filha, entre arcanjos do céu etérea dança, e nos dias dos mundos andarilha, andar incadescente que não cansa, poema aparentemente muitos poemas, mas infância perene, tema em temas. Ela fechada virgem, via-a em rio; eu era os meus sete anos, vendo-a vejo

a própria poesia que surgiu intemporal, poesia que antevejo, poesia que me vê, verá, me viu, 6 mar sempre passando em que velejo eu próprio ·outro marujo e outro oceano em redor do marujo trasmontano. Meu pai te lia, ó página de insânia! E eu o escutava, como se findasses. Findasses? Se tu eras a espontânea, a musa aparecida de cem faces, a além de mim e além da Lusitânia, como se além da página acenasses aos que postos em teus desassossegos, cegam seus olhos por teus olhos cegos. ú vidente através, ó Inês mirante, em nós mortes sofridas para versos, para que nesta vida o mudo cante e o cego e o surdo e os homens controversos apreendam todos teu geral instante, teus pequenos e grandes universos, teu aparecimento em Mira-celi, para que tua face se revele.

Perfeitamente posta nas entranhas, planos, colunas, ramos, perspectivas, Inês erecta, lindes sempre estranhas, as auroras de sol tremulam vivas, os cabelos de nuvens, rubras anhas de lãs esvoaçadas, mas cativas, como cativa a criação das côres, apenas liberdade para as flôres . Inês, porém, jamais, jamais fundada quer indicar talvez, uma inquietude, inquietude de Inês apoderada, subida Inês, efêmera altitude, descida em seus abismos, augurada, para que nela o clima sempre mude. Inês refaz-se simultâneamente, obumbra os horizontes, cobre o poente.

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO IX 873

Nenhum tribuno em ti nem duros rostos, mas gentios trazidos, livros santos, e seus antepassados, puros mostos de espíritos ornados de áureos cantos; nem as sombras dos mantos são desgostos, mas são ta lares, são voejados mantos. Nem Héspero nem Júpiter nem Cronos podem resplandecer com mores tronos. Amou revelação, purificou-se, nenhum amor descrido conseguiu ensombrar-lhe de angústia o olhar doce . Inês resplandecente, sempre estio, conheceu-se em seus símbolos. Amou-se, pois fôra a restituída. Coexistiu. Chispa inventiva, Inês florida arena marasmos espezinha. Altiva cena. Reclina-se sem mêdo e sem alarde, 6 fábula sem par, comédia infusa, manhã remurmurada pela tarde; a atitude é tão justa nessa musa que a forma aguda nos aspectos arde, Ins primordiada, era conclusa, os seus frutos sonoros querem que ela seja inscrição, apenas fria esteJa. Trouxeram-na os análogos algôzes diante da ambigüidade das essências, em que as asas divisas e as ferozes asas (que eram da Luz magnificências), confundem doces vozes e atras vozes; e eis que as piedosas, íntimas insciências: Levai-me à Cítia fria, ou à Líbia ardente, onde em lágrimas viva eternamente. Não podendo em sossêgo Inês estar, seus algôzes mudaram-na na lida, na continuada lida - mar e mar. E eis que a sombra colaça e a luz ardida são nos espaços - elo circular, asas obsidionais à asa da vida, morta de amor, amada que se mata para se amar depois em morta abstrata .

ú paz, ó tudo, ó mundo inominado! (Pessoa a doce névoa mensageira.) O rosto primogênito gelado, de pólen misterioso se empoeira, eterno calendário procurado, Inês recomeçada, ala ritual, terra da vida, afã ascensional. Existes, linda Inês, repercutida nessa plaga de sonho, nesse poema, e tão lua dormida e coincidida entre luares, de súbito diadema, que a trajetória muda mais renhida, e te refluis na vaga dêsse tema, constante vaga, vaga em movimento, pródiga e vinda como o próprio vento . Inês da terra. Inês do céu . Inês. Preferida dos anjos. Árdua rota, conúbio consumado, anteviuvez. Mas após amplidão sempre remota, branca existência, face da sem tez. Ontem forma palpável. Hoje ignota. Eterna linda Inês, paz, desapêgo, porta recriada para os sem-sossêgo. Em chegando um inverno ela se incluia nos cabelos de espumas verdejantes das axilas; do púbis se cobriu purinha entre barqueiros incessantes, amortalhada Inês, Maria em rio, passou ficando entando o que era dantes: outra vez nua e lisa. ú transparente, ó carne, ó suor de sangue, ó como a gente. Queimada viva, logo ressurrecta, subversiva, refeita das fogueiras, adelgaçada como início e meta; as palavras e estrofes sobranceiras narram seus gestos por um seu poeta ultrapassado às musas derradeiras da sempre linda Inês, paz, desapêgo, porta da vida para os sem-sossêgo ,

1/1
Menu

Fazer anotação