Poemas Negros - bloco 03 (p. 367-373) Obra Completa, Volume I · Capítulo 19 de 90
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Poemas Negros - bloco 03 (p. 367-373)

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Porque a vós respeito, c a vós peço vingança. contra os demais aleguás e capiango!õ branco~. Agô! que nos escravizam, que nos exploram, a nós operários africanos. servos do mundo. servos dos outros servos. Oxalá ! Iemanjá ! Ogum ! Há mais de dois mil anos o meu grito nasceu !

FOI MUDANDO. MUDANDO

II'MPOS e tempos passaram por sôbre teu ser. l>a era cristã de 1500 alé êstes tempos severos de hoje, quem foi que formou de novo teu ventre, ll'us olhos, tua alma ? I ·c vendo, medito : foi negro, foi índio ou foi cristão ? Os modos de rir. o jeito de andar, pele, ~ôzo, coração ... Negro, índio ou cristão ? ()ucm foi que te deu esta sabedoria, mais dengo e alvura, l·abelo escorrido. triste2'.a do mundo. dcsgôsto da vida, orgulho de branco, algemas. resgates, alforrias'! l'oi negro. foi índio ou foi cristão ? ()ucm foi que mudou teu leite. leu sangue, teus pés, leu modo de amar, lcus santos, teus ódios. teu fogo, teu suor, tua espuma. tua saliva, h:us abraços. teus suspiros, tuas comidas. tua língua? I c vendo, medito : foi negro, foi índio ou foi cristão ?

JAN.AfNA

JANAfNA vive no rio, vive no açude, vive no mar. Lembrou-se de vir passear : nas ôndias passou dendê. As ôndias se acomodaram. Cavalo-marinho veio para ela se amontar. No cavalo se amontou galopando descuidada, acordando os afogados, dando adeus à maré grande. Botando nome nos peixes, ouvindo a fala dos búzios. No ventre de Janaína as escamas estão brilhando. Nos olhos de Janaína, na cauda de Janaína tem cem doninhas pulando. Nos peitos de Janaína tem dois langanhos babando. Se Janaína sorri as ôndias ficam banzeiraa. Se Janaína está triste o mar começa a espumar, a pegar gente na praia pra Janaína afundar. - J anaína dá licença que eu me afogue no seu mar ?

QUANDO e,LE VEM

QUANDO êle vem, vem zunindo como o vento, como mangangá, como capeta, como bango-balango, como marimbondo.

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Donde que é que êle vem 7 Vem de Oxalá, vem de Oxalá, vem do ôco do mundo, vem do assôpro de Oxalá, vem do ôco do mundo. Quer é comer. Quer é caruru de peixe, quer é efó de inhame, quer é oguedé de banana, quer é olubó de macaxeira. quer é pimenta malagueta. Quando êle chega, tudo fica banzando à toa, esbodegado, enquizilado, enguiçado, enfezado. Quando êle entra, dá vontade na gente de embrenhar-se no mato. de esparramar-se no chão, de encalombar o rosto com as mãos, de amunhecar no cansanção. de esbanguelar os dentes nas pedras, virar pé-de-vento, sumir no assôpro de Oxalá. E dentro do assôpro de Oxalá virar cochicho nos ouvidos dela, xodozar todo o santo dia. catar cafunés invisíveis. rolar dentro das suas anáguas, bambeando o corpo dela, .,abatando sem mmo, amuxilado, acuado diante das suas mungangas, engambelado, tatambeado, fumado.

XANGO •

NA NOITE, aziaga, na noite sem fim, quibundos, cafuzos, cabindas mazombos mandingam xangô. Oxum I Oxalá. O ! ~ I • Segtmda versão.

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370 JORGE DE LIMA I OBRA COMPLF:TA i VOI.UME I

Dois feios calungas - Taió e Oxalá rodeados de contas, contas. contas. contas. contas.

I No centro o Ox.um ! Oxum ! Oxalá. ô ! ti. ! Na noite aziaga, na noite ·sem fim cabindas, mulatos, quibundos, cafuzos. aos tombos, gemendo, cantando, rodando. Senhor do Bonfim ! Senhor do Bonfim ! Oxum ! Oxalá. ô ! e, ! i,, Sinhô e Sinhá num mêis ou dois mêis se há de casá ! Muno c Mana ! Credo manco ! No centro o Ox.um. Que dois bonequinhos na rêdc tão bamba loiô e Iaiá! Minhas almas santas benditas aquelas são do mesmo Senhor; tôdas duas tôdas três tôdas seis c tôdas nove ! Santo Onofre. São Gurdim. São Pagão, Anjo Custódio. Monserrate. Amém. Oxum!

Na noite aziaga, na noite sem fim recende o fartum. Recende o fartum. Senhor c.lo Bonfim ! Senhor do Bonfim ! Oxum! O! f! Redobram o tantã. incensam maconha ! Sorri Oxalá! E a preta mais !JOva com as pernas tremendo, no crânio um zunzum. no ventre um chamego de cabra no cio. . . P- ! ti. !

l'ti/-'M IS NEGROS

~cu São ~angangá Caculo Pitomba Gambá-marundu Gurdim Santo Onofre Custódio Ogum.

Minhas almas santas benditas aquelas são do mesmo Senhor tôdas duas tôdas três tôdas nove o mal seja nela casado com êle. São Marcos, S. ~anços com o signo-de-salomão com Ogum-Chila na mão com três cruzes no surrão S. Cosme! S. Damião! Credo Oxum-Nila Amém.

PRA DONDF. QUE VOC~ ~E LEVA

11 11 1\o se apoderou da melodia às 10 horas da noite em pleno ,,,:;:. O tema é só pretexto porque o mágico Julião - trans- IPnnou o saxofone e está transformando a gente. Tudo é ritmo lou1úrio como as pernas, os braços, os olhos, os dois corações de J ulião. Então o ritmo e a melodia principiaram deveras 111 ganizando um chulear de batuque e canto rotundo de cortar ' 111 ação. No cume da voz está Gêge - filha de Ogum deitada .,,. halançando; nas outras partes sonoras há outros deuses .tqul·ntando uns aos outros. Nisso o canto esguincha do sa- '"'••nc como um repuxo vermelho. Julião dobra o saxofone

372 JORGE DE LIMA I 0/JRA COMPLETA I VOLUME 1 -'11} na pança confundindo-o com o esôfago, os olhos esbugalhados, a alma inocente subindo a Escada de Jacó para dentro de Deus. Julião treme recebendo intuições, amolengando entre uma nota ~· e outra o feitiço pendurado no pescoço. ' Pulam de dentro do escuro do saxofone mucamas lindís- simas para cada um dos fulanos, porém o poder da música 6 · tão lavado e tão branco, é tão estrêla-d'alva que as ditas nem · se atrevem a se amulherar com êles. Julião está reluzente que nem esfregado com óleo de andiroba, cada vez mais reque- brado, mais impoluto e transparente, as teclas fechando as vál· vulas de seu corpo banzeiro, o canto se espraiando unânime, parece que tem carajuru na face, o funil do aparelho está espraiado como sua bôca branca, um estenderete só. Ciscar no murundu ! Chupar caxundé ! Farrambambear por êsse mundo ! Mulatear pelas senzalas brancas I Mocar com a ocaia dos outros ! Tudo isso eram gritos sinceros, mas sem maldade, porque tudo estava peneirado, sessado pela água amandigada da música. Pra donde que você me leva, poesia-uma-só ? Pra donde que você me leva, mãe-d'água de uma só cacimba, Janaína de um aó mar, Pcdra-Pernba de um só altar ?

MARIA OIAMBA

PARA NÃO apanhar mais falou que sabia fazer bolos : virou cozinha. Foi outras coisas para que tinha jeito. Não falou mais : Viram que sabia fazer tudo, até molecas para a Casa-Grande. Depois falou só, aó diante da ventania que ainda vem do Sudão; falou. que queria fugir dos senhores e das judiarias dêste mundo para o sumidouro.

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OLAI NEGRO

I ls NETOS de teus mulatos c 11e teus ~:afuzos I' a quarta e a quinta gerações de teu sangue sofredor lt'ntarão apagar a tua côr ! I( as gerações dessas gerações quando apagarem n lua tatuagem execranda, uao apagarão de suas almas, a tua alma, negro I l'ai-João, Mãe-negra, Fulô, Zumbi, negro-fujão, negro cativo, negro rebelde negro cabinda, negro congo, negro ioruba, uq~ro que fôste para o algodão de U. S. A. para os canaviais do Brasil, para o tronco, para o colar de ferro, para a canga de todos os senhores do mundo; 1·u melhor compreendo agora os teus blues uc~ta hora triste da raça branca, negro I

Olá, Negro ! Olá, Negro I

A raça que te enforca, enforca-se de tédJo, negro ! 11 és tu que a alegras ainda com os teus jazzes, .:om os teus songs, com os teus lundus ! 1ls poetas, os libertadores, os que derramaram hahosas torrentes de falsa piedade uao compreendiam que tu ias rir I 11 o teu riso, e a tua virgindade e os teus mêdos e a tua bondade 11111dariam a alma branca cansada de tôdas as ferocidades ! Olá, Negro I Pai-João, Mãe-Negra, Fulô, Zumbi que traíste as Sinhás nas Casas-Grandes, que cantaste para o Sinhô dormir, que te revoltaste também contra o Sinhô; 1ruantos séculos há passado I' quantos passarão sôbre a tua noite,

~••l>rc as tuas mandingas, sôbre os teus mêdos, sôbre tuas alegrias I

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