Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 02 (p. 818-825)
Pois que não fui dos ontens, nem dos hojes, morro nesse momento em que nasci. Mas nesse instante nosso abraço vive, irmãos de morte nesse mundo todo, reconciliados nessa transição; vossa amizade alcança-me e eu vos toco, as vossas chagas, minhas, nossas, nós tão igualados nesse rés-do-chão . Não máscaras nos olhos. Nem simulo nessa efusão de frontes espinhadas, nesses peitos lanceados imitando, nesse grito perdido: Pai, por que nos abandonas, Pai, com essas coroas, morrendo nesses leitos, e mofinos? No meio de desertos habitados temos cactos nos peitos transpirados, nasceram flôres sob os prantos mudos, e eram flôres de cálices amargos que deram frutos todos com sementes miniaturas de banais verônicas . Os heróis dêsse poema vivem soltos, com a liberdade de escolher seus tectos, e nêles se abrigar ou se enforcar ou ressoá-los com música de loucos ou furar com a cabeça o céu sem traves, mas pesado de estrêlas e distâncias . E todavia a trave na garganta e a grossa mão medrosa sem poder interpretar sequer o que repete, o que soletra, o que rumina há séculos, nós, gagos de Babel, babamos versos. Ai! êsse bibe de chocalhos surdos! Chocalhos ou orelhas, sons em nós, madeiras abrasadas dos odores de santidades e de tentações, travosos cernes, duras adstringências, dos encolhidos beiços dos traidores beijos, da prece humilde e do assovio.
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Caduco calendário mais que nulo com seus cerimoniais de escusas fomes. Não nos adianta o tempo sôbre o linho, o linho branco das mortalhas de anjo. Não nos adiantam limbos nascituros nem nascituros sem reminiscências.
Vamos unanimar essas lembranças, minha velhice e os vossos vinte c um anos. essas múmias geladas e êsses sóis, aquelas cordilheiras e êsses grãos, aquelas mãos de avós. aquêles berços, aquelas confissões unanimadas.
E eis um mar de pessoas alternadas, marinhando salmouras redimidas. Porém a grossa pata esvurma o lôdo. e as pequenas enguias embebeda em seu fogo Iiquado; c a mão divina quando lhe apraz pescar antes as tenta.
No poema de sol várias constâncias, constâncias e constâncias: entreolhamo-nos. E melhor repousarmos essas nuvens. essas tormentas, êsses ventos doidos. êsses ponteiros, essas horas dando. . E melhor repousarmos nestes berços . Dêsses céus descampados vê-se o mar mais quieto que êsse tule morto. E o ar doente. Que frio! que estreiteza continente sonega o movimento do universo, conjura-nos as mãos adormecidas, desseca as rosas e dessaca as almas'! Serão as aves albergálias que ali crocitam ante a vinda noite? Ou serão os cavalos encantados disfarçados em aves existidas? Ou mesmo sem disfarces, serão pedras, serão fantasmas das ofélias mortas'! Entre a memôria térrea c o sonho exi~te êssc triângulo de sombra liberada
com três íris fechadas entre muros. Cai a sombra dos muros sôbre a estepe, cobre a estepe de sombra essas estradas: reminiscência, fábula, loucura.
Resta-nos ver os pássaros que do êrmo voltam antes que o céu as sombras desça e os transforme nos sustos das crianças que não tendo brinquedos brincam luas, quando essas luas vêm às suas mãos. (Essas crianças são crianças mortas.)
Memorial vôo de círculos concêntricos em movimento de ilha circular; a memória dilata-se e consome-se, a frase repercute idades, temas, tardandorinhas enterradas vivas e ainda atravessando as mesmas tardes.
ó as tardes calcinadas como pesam sôbre os rumôres que virão depois, quando as noites paradas de alma alheia acordam claridades reversivas, e as esperanças que vão ser não são, já foram dores e serão rumôres . Os cantos lapidários varam crivos conduzidos por lábios preexistentes, ritmados pelas mãos outrora adeuses revivescidos clavic6rdios múltiplos, fabulizando os meus e os teus lamentos . (Nem tristeza distante nem ventura!)
Quando a noite tiver tempos iguais com o mesmo colorido e o mesmo som, virão durante o espaço dessa luz, em escada espiral as vidas nossas . Meu irmão Esaú, talvez Jacó, talvez presentes Jós reverterão. Pois o metro em que vivo e me desvivo, vosso andar já mediu pelos meus passos; mas nada conta para a sua insciência,
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO Vlll 821
para a sua perplexa criatura, que o conforme torpor não se arrepia. O calmaria em linha imaterial!
O antípodas, ó pólos, somos o homem servo e liberto com dois anjos nêle, dia e noite, sem trégua dialogando, em clamores ardendo sob as asas; essa não é, mas fôra em céu de início a solidão original da queda. Antes da queda a infância que ficou soterrada nos chumbos anteriores; só esta chaga flui de sôpro a sôpro, e dói em todos, neutra queimadura, crescediça presença, cal de ardências sôbrc a muralha que circunda o mundo.
E.sse abismo de mar não nos dá vau, mas as napes geladas, superpostas, deixam-nos ver abaixo as sombras fixas dos semblantes da vida que ficaram, e vêm acima pela grande corda da escada de Jacó fincada embaixo.
Mas por vêzes descemos pela escada, pressurosos, ao âmago das coisas. Que silêncio de vaga repousada! Que fingida calmia dentro delas! Há ressonar de fundos pesadelos, há ciclopes dormindo de ôlho aberto! Era uma vez um povo de marujos que quis passar às Indias impossíveis, dobrando cabos, mocambiques, bacos, nadando em Africas desertas e armadilhas. O herança em meu sangue, devastada! O piloto afogado, 6 rei sem nau I
Mas é preciso vento, não torpores, caravelas mais bêbadas no mar. O manjares de Goa, ó fel de mouros! O melindanos, 6 grandezas minhas!
6 naufrágios finais com os vastos sons da tuba dos avós descobridores!
Amo-vos sons e formas de aventuras, heróis de mares, terras de mourama, silvos de ventos, vagas fugidias, paz de combates, chinas inventadas, ocidentes, orientes, suis sem água, e nortes, nortes nunca conquistados. Amo-te "idioma-vasco", sempre ouvido no clima dessas quíloas afogadas, êsses mares antigos navegados, escorbutos comendo a língua viva, sebastianismos vendo irreais reinos, essa linguagem tôda, minha fala. Língua remota. língua de presenças, de suscitadas ressonâncias, amo-a, que me deu a experiência dos abismos e também das realidades inefáveis e também da saudade amarga e doce, e também das verdades mais ardentes.
Em suas ressonâncias ouvi êsses países que ficaram no subsolo enoitados, sonhados, pressupostos, dentro em mim, encrustados, refrangidos, contrapostos, aliás inquisidores, aliás, ó outra língua, doce língua . Sobrevivente modo de falar, das bôcas soterradas em meu sangue, coração missionado diz por êle os dons que a divindade lhe outorgou . Aceitamento desde zero idade, continuada porfia de meus anos . E nesse afã-porfia - êsses relâmpagos das visões, essa longa biografia, Celidônia, Floreai, Inês, Lenora, Violante e outras criaturas exumadas, depois a minha vila, depois os vivos portos com o tímido, depois,
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depois meus tontos passos noutras vidas, em Mira-celi, em maio de mil nove- centos e trinta e dois, em Mira-celi de adolescências juntas, anteriores ao espaço de infâncias, muito longe, longe, sumidamente longe, c aquém. Porém nós devolvidos a estas ilhas com os vivos que matamos pelas rotas, vós meus contíguos e vizinhos, pelos encontros raros com os momentos fixos, em frente às solidões pantomimadas olhando-nos, vigiando-nos, falando-nos. Em verdade uma volta pelos signos com recuperação de ouvir objetos, conversar, por exemplo, com os chapéus que perdemos tragados pelo tempo, o nosso gorro de marujo, o nosso chapéu de palha e o de palhaço de hoje . Também os sustos decorridos dantes. o do encontro com a musa recém-nata ou com a da infância-musa azul-celeste: e com essa fugitiva musa sempre, a dêsse ardente susto, suas rosas desabrochando, suave susto nosso. Amamos, nesse instante claro-e-brisa, as ternuras das árvores agora reconciliadas, sombras, aves, ninhos, as nossas faces virgens no silêncio, descobertas de coisas: inda filhas, perpétuas fôlhas inda não caídas. No palco de ontem, coisas tripudiando: antevistos cadáveres aos montes, antevistas as guerras esperadas, antevistas as ilha~ afundadas: e há um defunto poeta e suas rosas. as rosas derradeiras sôbre os lutos.
Mais um cheiro no fim de rosas murchas entre as páginas do livro começado,
e o longo poema segue, continuado, com êsses rostos transidos sôbre as páginas, e a pomba e o corvo do Dilúvio como dois anjos destinados a velar-me.
Perene transumância inda divina através das montanhas enraivadas dêsse ser revestindo-se de espelhos para viver a vida colorida, amalgamada, chata, paralela, deglutida sem fé pelo areal.
E sôbre o livro as mãos - Marta e Maria, as mãos tão narrativas e tão crédulas e tão hipnotizadas, tão escravas, mais do que os pés que as levam para que o crime façam, mas também não façam ou façam bênçãos, plantem beija-flôres.
Ou um cone de sombras de si vertam em que o ser se acomode como um feto, em mãe imóvel sem cantos de dormir, esperando uma noite de maridos, os maridos prudentes com as lanternas sopradas pelos hálitos acesos. Em redor a cidade inda desfeita como um leito noturno. E a permanência dos ouvidos sugando a vã paisagem velada entre lençóis. A infância alerta procura descobrir o segrêdo árduo. Nas nonas luas, ventres desabrocham.
Queríamos um banco inda coerente, um banco quieto em brisas, de sentar, sentar num banco bom, longe de esquinas, e conversar com as sombras assentadas ou caídas na terra, levantar nossas sombras passadas e sentá-las.
ó tristes sombras! rir com as nossas sombras em frente da cidade adormecida, falar com as sombras, apontar lugares,
INVENÇÃO DE ORFEU / CANTO VIII 825
colhêr as nascituras, c essas velhas, velhas sombras trementes, desbotadas, pousar os pés na sombra dêsse banco. Ver a sombra dos cravos projetar-se sôbre a sêde dos maus centuriões, pois nossos pés cravados foram muitos em cavalos, muralhas e caminhos, não sabemos se cravos ou se espinhos ou mesmo simples calos irrisórios.
Porém olhamos calmos, à procura de qualquer traço de felicidade nas casas acordadas ou dormindo ou noutras casas contemplando as ruas; e tão perto lá estava a felicidade, tão perto e não sabíamos olhá-la nessa moeda perdida sob o banco, se perdida não vemos, mas é o mesmo, perdida mas intacta, mas redonda, com suas duas faces de deus Janos: coroa com seu símbolo de um lado e na outra o Imperador Pedro Segundo. E tão quieta a moeda e tão perdida olhando as nossas botas, sem ninguém ao menos contemplando as nossas botas, ou mesmo não olhando-as sem querer; mas a moeda perdida quem a vê? Entanto deve haver essa moeda. Deve haver êsse rei e essa coroa e êsse reino perdido sob o banco, e o banco recoberto pela sombra, contrária à perspectiva do pintor, porém completa sombra já sentada sorrindo para nós, alegre sombra.
E contíguas às sombras, pés humanos com as sombras dos sapatos como sombras, os falíveis sapatos sombras das reses decapitadas, quando vivas