Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 06 (p. 850-857)
salivadas das noites concebidas, funda entranha das trevas acordadas. além das epidermes musicadas, . mas apêlo tão drama, que calamos. Falamos e escutamos a um s6 tempo, somos a luz das sombras evidentes, ondas de abismo juntas às maretas das aparências quase cavilosas, contradição da luz reflexionada emplumando os arcanjos depenados. Duplo ouvido ressoando, sucessivo, simultâneo, liberto, prisioneiro, nessa nave secreta murmurante, comentando, contrário, consentindo contendo a bem-amada a ser fendida em bivalve magia, recompondo. :B.sse concêrto unânime produz-se com jacintos subindo e s6is descendo e madrugadas indo, e estrêlas vindo, e leoas percutidas retinindo, e potros esbraseados trombeteando, 6 aparência dos músicos calados! E n6s vidros aos lumes refratários seviciando os objetos incolores, tatuando-os de aparências, retalhando-os, sangrando-os de sonoros acicates; confissão criminosa, mas ardente, holocaustos incruentos, mas divinos. Templo construido põe-se em movimento. ogivas estendendo as mãos conjuntas, candelabros as línguas alongando, as aves navegando na penumbra. catedral se movendo em solo instável. entre ventos que a fazem nosso dia. Dia rodado em pólos pelas horas, edificado pelo colorido e devorado pela noite, esponja que apaga as côres feitas pelo sol
INVENÇÃO DE' ORFEU I CANTO Vlll sst e sua dança, sua escala dentro dos dias enoitados, nossos dias. E ao longo dêsses dias os países sem fronteira do mundo supralua, seus navios cruzados nos espaços, suas rêdes pescando nossas almas, fazemos gestos de homens naufragados, e as naus passam com as velas desfraldadas. ó delírios nas águas revoltadas, ó visões, 6 papoulas sôbre as faces, gaivotas desabadas n'água viva, torpor conjunto pelo céu e o mar, enlouquecido o pêndulo da vida, não são coisas do mundo, coisas idas. Padecidos tormentos, véus mcrmes cobrindo faces e papoulas murchas e brasas de marfim com amenas cinzas. exangues peixes, ventos sem corola, nos sais-guzanos, mudos passatempos, os congelados túmulos do oceano. Tudo em casulo turvo simulado, máscaras em noviças cerimônias, calendários caducos, lumes alvos, presença de salivas nos veleiros, palavras exauridas, sumos tardos, sacrifícios parados nas mensagens. A vida extinta para sufocados, sêres privados, justos omitidos, portas batendo, portas assustadas, velhos tossidos, velhas tosses magras, e as urzes prosseguidas nas geleiras, arrastando-se lentas sôbre as águas. Quarenta noites mais quarenta noites chovendo sôbre os dias liquefeitos, afogando os futuros ignorados, entendidos silêncios e sigilos, renegados apelos e caliças sôbre as asas adversas tatalando.
Os nervos nas cortiças para os ventos, esconjurados ventos quebradiços, ventadas centopéias de estupôres, parada treva como a luz irmã, e a irmã gelada e a noiva sumidiça e os dedos pobres que não somam dias. Os torpores talvez dêsses colmilhos abertos nas peçonhas enroscadas hipnotizando pássaros e pomos; e tão calmosos como certas brisas saturadas de pólens venenosos. Sólita! sim tu sólita, minha alma. Se alguma ave cantou, cantou em nunca, sumàriamente nula nesse flórido cômodo desprazido, talvez êrmo, num metal quilométrico sem aros para agüentar o morto que me levam sepulto entre meus pés e teus soluços. Opalas gangrenadas nas Eurídices perdidas para sempre, possessão dos entes pasmaceados, prata dúctil degradada nos mimos derretidos, espezinhados pelos moralistas, germinados, mondados, liquescidos. Motivos de somenos, natalícios e bodas com borrascas, alguns goles em soerguidos suspiros, deu-se aquilo intercorrentemente à calmaria que acabamos, no tempo verossímil de ponteiros e sinos badalando . E a mão grossa vagando sem poder imitar Tua Sombra, sequer Mão, sequer Luz não parada, revolvendo, descozendo e cozendo, nem sequer me tangendo nas horas de seus braços: busco natro de múmias para os ossos. Carpindo estou nas vascas projetadas, no pranto com que cubro anivenãrios.
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Natividade, venho de teu útero! E eis Nausícaas lavando meus cueiros, meus pecados de origem, minhas trevas, nossos pecados velhos, vossos, nossos. Esse o conto de um nauta encanecido, claune esquecido em cima de areais, encolhido qual deus principiado que abre os olhos na treva, nato cnfêrmo; e eis que a vida lhe nega seu borralho. Areal frio outrora verde mar. Não sei se cabeleiras, se cometa.'> descem acaso sôbre rostos meus, ou se leites colaços me respingam de alguma lua simples humilhada; certo é que fui caçar além das águias e parei numa apenas: não era águia. Conto tudo, realmente testemunhas desta vida insular para cansaços: subam formigas pelas seivas lentas, desçam formigas para o nível duro; então foi necessário que eu me visse: eu já me fôra, e me esperava em vão. Porém, minha memória me apontava: outrora, jôgo infante, sôbre a mesa: éramos cinco, eu bem me lembro dessa menina loura que se pôs a alar-se, talvez uma falena visitando os que amanhã também se queimariam. E brotava nos pares: anteprantos enxugados, sem lágrimas, soturnos, as frontes doloridas e inda suaves mas sem saídas como quase becos. E veio um centurião com sua esponja, e houve dados e um álcool reversivo. Transportaram sem susto o morto sêco, plantaram-lhe begônias transparentes, veio a irmã Germinai, a irmã sem nome, um monte solitário, uma candeia,
um jôgo luminoso, e a estreita música de inverno entre coelheiros e madrinhas. Tentaram desvendá-lo. Em vão. Que nem lírios de mel nem manto das infâncias nem coriscos de junho, só distâncias, nenhum cetro, nem bússola nem rei. Pregaram-lhe depois as mãos em curso, e houve constâncias e constâncias e é melhor repousar teus movimentos sôbre os ventos sem nome nem compêndios e ganhar luz esquiva e elaborada sob o braço que estende a noite clara. E dito isto Esaú foi fabricar uma pedra de sono. Sono magro. Hão de nascer teus versos dêste mundo, meio mundo; o resgate custa o prato de lentilhas amargas semidignas, no remoto das lides não passadas, entre migas do pão que Deus lhe deu, entre beirais famintos e escorpiões. Apressar a corrente desmedida? A abandonada Eumétis nunca vista nas bodas que ela própria representa? Ela não vê que os olhos a devassam. (Pu~a Eumétis, dos cânticos do amado, nem pertencida nem jamais Eumétis.) Mas nessa musa há um fuso que a divide: de um lado- amor, e a dança do outro lado estranha adaga, adaga de dois gumes; e entre os dois gumes: vozes repetindo-se, estrofes acordadas renovando-se, musas reaparecidas em céus novos. Nesse hemisfério brilham semimortas, Eumétis bril}ja, Eumétis transparece; a maré-cheia atinge-a, cruzam águias; ela guardava escuros malmequeres; vieram claunes olhá-Ia nos presepes que renasceram essa amarga Fênix.
Apenas renascida, os membros claunes contraem-se-lhe no corpo inconsistente; e é o mesmo contraponto, as mesmas vozes que se repetem sem cessar no espaço. E Eumétis cresce em versos sem balizas, entre pórticos. ú perplexidades!
Eu sei que havia sempre irmãs inclusas atrás das Lias, vísceras em si, e o que se via além do que se via na aparência da pele fugidia, não de Raquel o filho, mas de alguém além de Eumétis, muito aquém de Lia.
Sendo âmbito de Eumétis muito denso entre agôsto fugaz e o raio frio. não se podia ver o poema optado, nem a mão que escrevia, que escrevia. entre o tempo cansado e o espaço esguio, entre a angústia raivada que se abria.
A coisa estanque, a voz já calcinada. o olhar sêco do céu. calado tempo, e o sono confundido com êsses nadas. nem mais cinzas. destroços, cemitérios; cavalgam na memória suspendida três cavalos irreais rinchando rinchos. Concomitante, o poeta revcrsivo, prêso à raiz profunda, sem fugir, confessado na cinza simultânea, obrigado a tatuar-se, lousa viva a implacável resposta: escreve nauta teu roteiro lembrado, nauta, louco, mesmo em ilhas vazias, mesmo só, mesmo num grande amor. tua mensagem. mesmo sem ter sentido a fala dádiva, mesmo submerso em ti deves subir os degraus liquefeitos, os abismos de teu mar morto. não, de teu mar vivo. Do regresso a si próprio, ser confuso, pareces alistado na razão,
penetrado num óvulo condigno, tu disperso de início, nós dispersos, vós dispersos burgueses e operários, pedras de rios, ondas, correntezas.
E Deus chorando ainda por nós, vãos, e os que transformam noites em pombais, quedando estrêlas, emprenhando as águas, recolhendo degraus, tais emoções, tais lágrimas sorvidas nos bordéis onde os ruídos impuros só te aturdem. A solidão é rara, quase um raio, menos que teu anseio, muito menos, menos que teu difícil, teu durante, teu momento de morte, teu sinal, teu chamado divino, teu achado, teu machado fendendo novas achas. E teu dever de vida sem saber, sem saber nada, próximo ou distante; meu pensar dia a dia doravante sem pensar em minutos que te pesam, nem nas ervas pacatas nem nas urzes, nem naquelas que nunca nos coroaram. Que os conceitos se risquem no presente sem ter satisfações para vos dar ou vos dar, meus bigodes rarefeitos, mas tentando tapar os lábios breves. Entretanto lá fora o céu se abria, e a inspiração aos outros inspirava. Revôlta imensidade da poesia, é um borbotão de imensas trajetórias; andam nas coisas límpidas legiões, porém mais densas que os rochedos sob os mares que tu vês, abaixo dêles e acima dêles mares suspeitados, E no meio dos mares as quimeras de plantas e de sêres intocáveis, subsistidos nos âmagos cantores, nas noites, nas estrêlas incontáveis,
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO Vlll 8S7 nas palavras revôltas que nos ferem os pés ligeiros dentro da loucura.
O canto em côr surgiu para teus olhos; prende-o com as mãos etéreas que tiveres. Apreende êsse lugar, teu só lugar. Repito-te: lugar. Jamais te esqueças. Lugar, teu ser imóvel, móvel ser, lugar renhido, teu lugar em Deus.
Teu furor inodoro finalmente sem esperança mais, porém amor, que o mais é teu olhar e presunção. O mais - tuas mandíbulas batendo, o mais - comer cortiças. isso tudo, e ousar caminhos. E jamais possuí-los. Conhecer desconhecidos para dá-los a quem vive nos rentes, nos contíguos, poema além dos jardins para dizê-lo, embora não me escutes nem me vejas. embora passes neutro como as bôlhas, embora venhas para me matar. No que há de vir acenam, conclamando-me: é a canção que não ouves, homem de hoje. No milênio da frente existe um anjo esperando o milagre do momento, existem vozes predeterminadas quando o Verbo pairava sôbre as águas. Teus pés mais abismais porás nas idas chamativas de ti, para vindar-te intransitivo ser atualizado, açoita-te com as cordas que há nos templos, que a palavra te chama persignada, persigna-te com os símbolos ungidos. Tudo estancando. O tempo dessecado. Um coração esvai-se sôbre as pedras. Vimo-nos crimes, crimes transmitidos. E Deus chorando sôbre os rebotalhos de Eva presente, pois foi hoje o drama, hoje as delícias, hoje: neste ponto.