Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 04 (p. 899-906) Obra Completa, Volume I · Capítulo 80 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 04 (p. 899-906)

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X 899

Deu-nos cânticos para ser lembrados, peixes de prata para os barcos viúvos Imitação suas mãos perfuradas imitávamos. do Cristo

Agora e sempre está. Ausência e sol em seu peito lunado há estações da duração do bem e da alegria. Medulas extraviadas, sim havia tão lavadas de crime como as chuvas empurradas nos pés, refeitas de ímãs. E as albas com dcssangrc. os aros fundos em desbordo contínuo, céu de terra, - e a aventura um caminho só, no espaço.

Em verdade, é uma pátria foragida em que o desconhecimento é até nos ossos, e as presenças de fora nos espiam. Os instantes maiores conviviam, sangue diurno, parece sementeiras. As horas casuais estão aqui.

ó ginetes, ó cegos cavaleiros de órbitas de betume, almas e cascos, ventos nas crinas, rubras liberdades! ó potros e sinais, ambos a um tempo, ambos num rapto, mímica total, entranhas num só mar de julgamentos! Os instantes deslizam-lhe na face, êle mesmo é uma quieta ressonância também inumerável geometria.

ó os montes em seus olhos, as lagunas, as águas que eram vinho, os pescadores andarilhos do mar. violento mar!

A província de sumos e ardcntias, e as perguntas nos barcos, e as cisternas, e os ocasos de preces e de lagos.

Golpearam-no, sem vê-lo, 6 grão-teatro, 6 máscaras nos montes espectrais e bufões convocados a apupá-lo!

Rasgou-se o véu do tempo e êle surgiu Imitação com essa face de claune e de deus triste, do Crutol Se11 Claun• e consumou-se. Infernos aplaudiram. Ali teu solo. Digo-te semente. Digo-vos mananciais, sulcos de versos, digo-vos sombras de asas, hortas, vinhas. Eu escuto, reescuto a artéria túrgida, e o tiritar dos dentes na porfia, lívidos de caliça como trigos.

Cobertos de livores se profanam, doem-se dêles os puros cordeirinhos; sina-os o dia da ressurreição.

Chorando estais, chorares silenciosos, caindo em minhas mãos como novelos de lãs (o pranto maternal e suave).

Missão de poeta, símbolos e vôos, razão das asas, fé capaz de vidas, límpido humo celeste, semental. Homem de terras úmidas, sangradas, sêmen dos que procriam gredas unas, engendrado dos germes essenciais.

Tempo das mutações, tempo à deriva flui a torrente na serena mão, com seu laivo de avença e redenção.

Eu vos designo aqui, privado Sol e Som de coração. O mais não urge. O mais: afortunada translação.

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XVIII Ouvi já bastam: chuvas e cincerros, pátios de lutos, comemorações, recanto abandonado, fôlhas sêcas. Seu escudo ritual entre canções, lume sôbre as espigas, no sorriso, conta seu fim de pétalas alertas.

Que perfeição de lua e de ginetes, em fundos alcantis! Neste galope, a cidade futura era entrevista.

Um peito complacente sôbre os ventos, indicava missões e trãvessias, percursos de querer e curativos. Entretanto, eis a tarde, larga tarde, e as raízes do vento; meditávamos: glória da paz, a tarde nos jardins. E penetrava entre as colunas ósseas, junto ao cravo enlutado, ídolo negro, mas não parava a sua face de humo.

Dir-se-ia o próprio tempo alto e sereno. Eu o sabia andando entre os espaços para o azul solitário, para: eis-me.

Pedi meus pólos, sim, para olvidá-los nas distâncias dos dias lacerados; queria decliná-los, - reacendi-me.

Disse-me: antecipai. Prévios chegaram. Eram premonitórios, eram partos. Na curva antegozada repousaram.

Já os escuto. São quantos? Nossos rostos. Nossas mãos com alguns mortos, nossas costas derribadas arenas. Polegares.

Ali os nossos hábitos. Os circos, e os olhos em redor, os potros nos hemisférios dos sexos coiceando. E havia o linho sôbre a arena muda, e o mastro dos trapézios, e o silêncio entre os saltos-mortais. As ressonâncias. Inevitáveis luzes, inocências. Sôbre o escudo mordido a poeira dança inda doída das íntimas comédias. Havia os dos luzeiros, quase pássaros bem amados dos bosques e dos juncos sôbre os trigais chovidos e iriados. Fulminadas no vôo, infiéis estrêlas, na envoltura dos sustos planetários a nós visíveis peregrinações. E respirando coisas tão diversas, percebo que Deus quer o meu temor, êsse temor herdado de outras quedas; me-o-sem-mêdo quer meu próprio mêdo. E.le-a-poesia quer o meu delírio, :me-a-verdade quer minhas mentiras. Esperar o verão sôbre as colinas, aspirar os arcos-íris, beijar pétalas, mas eu falo de um ser, (pródigo filho). Amei achar-me nas florestas dentro, para ver sôbre o chão brotarem fontes, - fontes saídas dessa noite de ontem. Pungente aresta sulca-o para cima, e por cravados passos o apendoa, coluna grande, fuste clangoroso! Eu disse: sulca-o para cima. Falo de sêres em que sou um dos comparsas e êsses comparsas por mim falam hoje.

liVVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X !)(J~

Que aventuras sabíamos, que fundos gul/-slreams ligavam mar e mar, e entre êsses mares céus. céus sem espaço! E-ramos mortos, mesmo sem velhices, ubiquados de efêmeras espiras: regressamos desde ontem, desde Aquêle. Espécie caducada, pausa breve, encruzilhada branca, morres mllltiplo, sem saldo nem de cinzas nem de trevas.

ú soçobrado pássaro noturno que repousas nas pedras olvidadas, incerta forma, símbolo de símbolos.

Continuadamente êxodos de todos sôbre desertos, ervas venenosas, queimadas corroendo, tronco ardendo.

A blandícia do linho entre os seus dedos, o aroma persistente. Eram pois dias, dias de replantar as grandes noites. E houve as noites. Os olhos convocavam-nas: as suaves sombras, rendição floral da planta trepadeira, rastejando. E houve as noites: as noites concebidas parindo as novas terras sob estrêlas, todavia os assombros consolados.

E houve as noites; e um mêdo quase puro, e um vento cego e um sal de pranto. Aonde? E houve as noites. As noites. E houve as noites.

Jnlucidez humana. Tatear nosso. Muitos nomes perdemos. Restam línguas mutiladas, sem asas, tartamudas. Pensamentos travosos, verbos lentos, e a dureza do exílio relembrada! Oh! como pesa aquêle ataúde, oh!

Mas em vão o que é vão nos envolvia, a canção das promessas ondulava através dos três reinos naturais.

Pegurciro tenaz! Nós o sabíamos sobrevivendo a si sem mais olvidos, e tão profundo e tão. . . nem sei palavras.

Desoladas legenda~ de invernadas. de postigos com lumes desabridos, submetido caudal de águas fugindo.

Todavia as corolas calcinadas: talvez sejam os últimos apelos ou os antigos. Que importa? Não são mais.

De Stella Nova In Pede Serpentarii, Sangraluz. Belatrix. Lys, Mira-celi. Vivantares, Lenora, 6 meu poema!

Terra tatuada de celestes faces. vias cheias de estrêlas que sobraram. Em verdade: meus sêres e comparsas.

XIX

Graças a vós ou não latentes causas, momentos, solidões, desejos puros, impulsos alienados. culpas, cantos. pânicos, numes, dores, fôrças tôdas, • a quem devo palavras e silêncios; graças a vós, infâncias, existências, premonitórios lumes, ressonâncias, no acabado poema vos encontro, nesse têrmo de dúvidas vos louvo, meus áugures, meus -vinhos, vinhos tristes, vides que não são minhas. vinhos tintos. Que ode foi mais viva? Que mão leve os números gravou em cada livro? Que muralhas se abriram ante os dias? Graças, pólen de vida, graças plasmas, graças, trevas desfeitas, intervalos,

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graças, sombras ardentes, conduzi-vos como um cego cantando, como um vale. Em vosso pão e tempo socorri-me, em tempo relativo e em latitudes que não constam das horas, todavia em anjos me fiei e em evidências.

Cantei nomes de musas e de rosas e as comarcas tendidas e os assuntos e as várias oceanias e as raizes e os meninos crescendo, febres minhas, ventos com suas gulas, partos duros, estatutos e parques, ombros baixos e as colinas e as águas, floras turvas entre os dias e as noites plenamente, plenamente cobertos de espantalhos, evito assombrações, silêncios de hoje e as aventuras com Indias maceradas.

Sem roteiros e símbolos previstos, as calmarias vieram, vieram ilhas, vieram mares, vieram precipícios, os desertos do diabo, os gelos grandes, os cargueiros fantasmas só com os ferros e as madeiras roídas, s6 com os mêdos; e tudo era um vôo baixo pelas horas pelas horas amargas fugidias, e tudo era exaustão, era êsse século; não era desespêro, era cansaço, era o estupor das coisas esgotadas.

Alegrias, olhei-as, foram muitas na vigência das coisas, na alma quieta, nestes olhos nascidos, nesta paz, nesta idade de infâncias e gravuras; jamais nestes espelhos, nestas ilhas, nestas naus e seus ventos, nestes sábios, nestes homens de sabre, nestas asas, neste arcanjo escondido mas tão forte. Bomba No armistício os cordeiros se suicidaram, at8mica o mundo ia acabar, nasceu no mar um cogumelo imenso, um cogumelo.

906 JORGE DE LIMA I OBRA COMPI.ETA I VOLUME I

Houve pedras suando, lianas vivas enforcando lilases, houve estupros nas corolas dos lírios inocentes. O loucas potestades, fúrias, trasgos, só sabemos agora obedecer-vos e na morte filial nos abrigarmos cadenciados nas filas e nos pães, povo noturno sem as vozes altas, pássaros tristes, asas coordenadas, convocados metais para presságios. (Drama nos muros, cal ensangüentada.) Mas houve a vocação mesmo com os círculos c apesar das fronteiras entre os homens e as cordilheiras sempre entre as nações, a vocação se ouviu e era a mensagem com seus tempos de fundas alegrias, murmurando estações, frutos e sumos, cotilédones, vozes, biologias, plantas leitosas, poentes floriformes, estávamos com os outros, todos íamos, operários de ofícios jubilosos, éramos graves, éramos poetas.

Hortelões como Aquêle. O doce afã, que permanentes pétalas, que arados, que corpos organados, que mãos sôltas, que medidas pujantes, •que presenças! ~ramos faces-mapas, calendários, pentagramas de côres, amanhãs. Deixai-nos numerar, chamar os nomes, os nomes altos em frente aos malfeitores, deixai-nos ir por onde sempre fomos: n6s somos os inúmeros e nunca os incolores diante da exaustão. Apenas éramos. Os frutos foram. E havia zonas de descobrimentos, c tantas ressonâncias e campânulasl O ausências de trevas e de augúrios, rosas agrárias, néctares antigos, antidecrepitude, doces gomos, 6 palavras de júbilo, de feixes,

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