Invenção de Orfeu - Canto IV: As Aparições - bloco 03 (p. 743-750) Obra Completa, Volume I · Capítulo 58 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto IV: As Aparições - bloco 03 (p. 743-750)

lri'I'I\NÇÃO DE ORFEU / CANTO IV 743

X

O Instituto dos claunes abre as portas para mostrar as suas faces lívidas, e nas arenas dá-se que há farinhas, e com êsses trigos, colam-se e deleitam-se; e empinham luas brancas em seus fôlegos. As vestes sepultadas contêm fios em que se movem títeres e bufos; e vão leves às cordas e trapézios, e sem embargo sorvem labaredas; sacam após defuntos de seus âmagos e os animam com peles e cabelos . Depois os vivem pondo-lhes melindres . Cedem-lhes tudo - formas verdadeiras, saltos-mortais, ginásticas e truques. Dão-se os inventos a desportos brutos e atemorizam seus progenitores.

XI

E a ave opaca voando, voando, e após transfix.ada de luz pousada em vale secreto, entre dois seios, indecisa, ave com suas penas, tudo um ouro só ou senão o apêlo de outra voz ausiando a entranha amada. Quem a cale ternura não será nem alma incisa aberta ao signo e ao claro doce agouro. Nem mesmo a dissonância amarga e doce entre o cântico e as asas dêste poema e o vale procurado mas fugace, como se o poema por inteiro fôsse a angústia transportada para a face com o vôo recomeçado de seu tema.

744 JORGE DE UMA I OBRA COMPLETA I IIOLVIWII I

XII São as terras de março, ressequidas com seus trinta e um espaços desolados, e os nomes quase gnomos retouçando. (Seu passado nos olhos inda brilha.)

Alguma lua meia nas tolhidas mãos se estiolou; mas eles gnomos nados nunca renunciaram de seu bando, os marços decorridos nessa ilha. Anões ficaram nisso, reincidentes de antigos sortilégios, e inda o são, se fôsse pelos marÇ\)S redivivos, com a pureza dos dias inocentes, nas horas passageiras que lá vão saturando de gnomO!I sêres vivos.

XID A tristeza era ta11ta, tanta a mágoa que seu anjo da guarda resolvera lutar com ele, lutar para lutar, que o interêsse da vida perecera. Ave e serpente, circulo e pirâmide, os olhos em fuzil e os doces olhos, os laços, os vôos livres e as escamas. Que doida simetria nesses ódios! Que fôrças transcendentes aros e Angulos alguém quis que lutassem nesse dia! Ave e serpente, círculo e pirlmide: Que divina constante simetria nessa luta soturna, nessa liça em que Deus reconstrói o eterno cisne I

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XIV e XV

Nasce do suor da febre uma alimária que a horas certas volta pressurosa . Crio no jarro sempre alguma rosa . A bêsta rói a flor imaginária . Depois descreve em tôrno ao leito uma área de picadeiro em que galopa . Encare-a o meu espanto, vem a bêsta irosa e debasta-me o juízo em sua grosa.

Depois repousa as patas em meu peito e me oprime com fé obsidional. Torno-me exangue e mártir no meu leito,

repito-lhe o que sou, que sou mortal. E ela me diz que invento êsse delírio; e planta-se no jarro e nasce em lírio.

XVI

Era como um candelabro o ente que ali se entrevia oscilando sôbre o abismo, velas nas mãos como um anjo. Também tu anjo vacilas? Dir-se-ia que um navio vai nesses ares jogando sem destino, sem descanso . Ou será alguma flor que em sua haste ficou aos ventos maus oscilando perdida tôda esperança? Mais me intrigo e os olhos abro: Es flor, anjo ou candelabro ou sino astral badalando o compasso dessa dança?

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As asas do anjo macabro vivem assim oscilando ora flor, sino cantando ora dança e candelabro.

XVII Porque a névoa da tarde era sumida desejei no meu peito um verso puro, rosa que fôsse como suave ida, apêlo que chamasse a quem procuro. Eis nos ares a rosa que convida, - a de pétala fugaz e talo obscuro. Há qualquer coisa nela em breve vida Mas essa é a vida breve que eu conjuro. ~sse enlêvo fortuito é um doce choque, transluz perdidos olhos com que a via o desejo de tê-la em doce amor. Aproxima-te, deixa que te toque e que te acaricie, 6 espôsa fria, rosa da morte, rosa do que fôr.

XVIII A madre-d'água é aberta como o fundo dos mares, sem fusão, à carne as unhas dos rochedos, estritas à substância que enche as terras e pare as ilhas e as próprias águas répteis sob o sol, sob as chuvas que caem em seu silêncio pesado, entorpecente, abaixo das nuvens gomosas e prenhes que nos luares entre gelos polares suam trevas desfeitas em morcegos de sombra, álgidos ~ imensos, arrastados pelos vento~

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e trazidos aos cais, para esperar que a madre-d'água suba a seu encontro, e lhes deixe sugar os afogados.

XIX Amo-te Dante, e as rosas que tu viste, - naquela que, formosa rosa branca, a divina milícia tinha à vista, de corola coral que entoa a glória da face das pessoas trinitárias; a rosa imensa que aos teus olhos era um enxame de abelhas luminosas, que na flora de Deus se dessedenta; e a flor cativa que se cobre de sonoras pétalas de luz, contendo ao centro, a grei radiante, a grei divina; e a que na alvura eterna transparece, a pureza das almas, doce alvura, alvura mais que alvura - láctea alvura. E há sêres, sêres nunca vistos, sêres que as asas agitando, prenunciam amor e paz, lineais e sempre. E sempre . As multidões aladas, eis que sobem entre dois gêmeos sóis amanhecidos, ao Senhor se interpondo às rosas puras. A luz divina e alvinitente paira como semblante móvel tresdobrado. Nada lhe turva o brilho renascido na sagrada mansão, onde aparece a comunhão unânime dos santos, faces atrás de faces já não Uvidas . Trino astro, que, num astro sempre único brilhando, a alma lhes tem extasiada, conosco nesse vale, miserere! Doce mar trino para nos amar, pena amorosa para nos penar, seta doendo para nos curar pela graça do amor que a representa, coroa de três frontes derivada, graça das graças, graça, sim, 6 minha!

Nosso é o amor sem lume, o Teu jamai!> de nos salvar vacila. Tu és tudo, nós apenas moradas transitórias. Que canção sem vivência, minha voz, Pátria sonora. Tua elemental Mão sustém-me com os dedos, Mão de irmão. Um signo quis findar-nos, quis fundir tuas abertas urbes imprudentes. Nós temos frios nítidos e choros e rangeres de dentes tenebrosos, e mercúrios de fl•bres, vozes neutras, porque somos apenas digressões buscando sendas; hoje morreremos. esses roteiros e descobrimentos são pobres sobressaltos, fungos mortos. Eu sei que teu soluço vive em lábios humanos. Sumamente. Cidadelas, barcas finais, esquadra fria . Ossos de cavernas de naus desarvoradas. Aligbieri, desejo repousar sob a luz numeral das Três Beatrizes. Venho de mãos cruéis, maios sem lírios, perseguido de espadas e de gritos . ó lento regressar entre perigos, por grosseiros arautos fustigado, perdidos meus amôres, ~eus descansos, flôres, ocasos, zéfiros, cascatas. A febre me animou que me inflamava, nesse cômoro nu me dessedento. A tarde cai . O vento passa. Eu vivo. Eu corruptível. Eu estou chorando o suor das camisas despojadas . Beatriz! Beatriz! exclamo de repente. E de repente alguém responde do êrmo: "Verás, do cimo ao círculo tércio atento, Beatriz mais acima revelada." Olhos alçando, à Musa bem-amada, divisei-a (era bela, ó marejada, da eterna luz, em refração, somada); pobre mortal, do pélago emergindo, alço os meus olhos em Beatriz fitando-os .

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Dante, falo por ti, por mim, por quem? Virgílio, As palavras fiéis ligam-me a ti, Dante, e o poeta que com teus augúrios, nÍimeros e círculos. recorre a ó, não temeste, por me dar guarida: Dante-Guia. eu como tu, nós todos os mortais penetramos um dia o inferno horrente! De tantos climas quantos eu ver pude, a teu grande esplendor e alta porfia, a graça referir, devo Alighieri, nas palavras que a Deus são também minhas: "Sendo eu servo, me deste a liberdade, pelos meios e vias conduzido, de que dispunha a tua potestade. Seja eu do teu valor fortalecido, porque minha alma, que fizeste pura te louve ao ser seu vínculo solvido". Não sei se era memória o que eu falava, Os puros se era palavra muda o que cu ouvia, esplrlto.Y realmellle sei de imensas presenças que giravam, não possuem enxame numeroso me seguia. a forma que Só eu não era lúcido nem firme, Imaginamos. só eu era emigrado e diminuto . Desde aqui me fitei, vendo-me lá: o antigo tempo, as coisas, meus avós, o mês das vides, rostos imprecisos. E estendendo as mãos às graças prometidas, às mensagens traídas . Lágrima ázíma e sem sabor de sal, de tão sorvida.

Turva canção de treva refugiada, em noturno galope de silêncios, por secreto roteiro dirigida . Os insetos irão me velejar na tumba cinza. Dante! E teus insetos'? ó canto cotidiano, teu, meu . Dias. Nosso duende, nossa ventania. E no pego terreno eu distinguia a irrupção que a desgraça levantava que ora inchava, ora rápida morria. Dante no inferno, Dante no céu, Dante que me responde: "Escuto os astros; nada posso, vou designado, apenas ser,

já me confundo em signos estelares, sou invadido lume, pulso o eterno, tua terra se esconde, terra infiel, lua sem paz; recordo, era em jornada, achei-me numa selva tenebrosa, tendo perdido a verdadeira estrada". O hospitaleiro mundo de poesia, de compreensivos céus, Dante falava-me, homem de ontem, agora louros nossos, louros de rosas, anjo e calendário: que interminável luto a nós cobria. A verdade é que então à borda estamos do vale dêsse abismo doloroso, de onde brados de infindos troam o ar. "&se, o teu grito lembra-te - ó amargo? Era depois das árvores de cinza contíguo à roca escura, junto às sarças, onde o pranto se engole como brasa . O floresta de braços e de cobras, ó pavorosa festa soterrada! Que amargura nos olhos! Foram terra, foram ruas, alcovas, tronos, bosques, foram climas humanos, foram vísceras, foram ontem, são hoje, serão sempre, condenados à morte que me alcança, são meus braços, meus pés, são meu inferno, são meu céu de soluços amargados." O tempo jaz travado nessas lindes. Um mesmo instante de torpor escuro desvaira nesse dia coagulado e sempre, como um idolo de mármore, a bôca em sangue e os lábios em hiato amaríssimo, turvo, descamado, permanece sem frio e sem calor, as órbitas nas trevas prep:.istidas e a fuligem das urbes nas narinas . O próprio vento gela-se no espaço, ao nível dos ocasos - sempre antigos seus pavores, seus trismos, seus sud,rios.

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