Livro de Sonetos - bloco 06 (p. 601-605) Obra Completa, Volume I · Capítulo 41 de 90
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Livro de Sonetos - bloco 06 (p. 601-605)

1/I'RO DE SONETOS 601

HÁ NO ENTRETANTO a estrê)a do pastor e a memória suspensa sem descanso, indo e vindo, indo e vindo sempre por motivos que não julgo nem alcanço.

De qualquer forma é bom pelo sol-pôr oscilar a propósito o balanço, e olhar nas trevas êssc olhar sem côr mas tão suave, tão súplice, tão manso.

Outro dia fui ver a cabeleira de Altair despenhada no oceano. Inda meninos íamos em bando

apanhar rosas para certa freira fiel à Santa Cecília que ao piano enquanto nos beijava ia tocando.

As PALAVRAS são outras, mas a cena: a nuvem, o rochedo, o sol sem pino, a sombra amante, o mar, a praia amena, o cajado do pai são do menino.

Só a medida unânime é pequena: a mão sôbre o missal, o galo, o sino, o mêdo, a imperfeição, o verso e a pena, a mão sem paz contando o seu destino.

E ali o esquife armado em crepes e osso, e a derradeira rosa a olhar inquieta fechar-se sôbre si a urna lutuosa.

Cavam ao lado. Cavam outro fôsso. Irmão que vindes, se sois também poeta, eu tenho para vós inda uma rosa.

602 JORGE DE LIAU / OBRA COMPLETA I VOLUMB I

EssA PAVANA é para uma defunta infanta, bem-amada. ungida e santa, e que foi encerrada num profundo sepulcro recoberto pelos ramos de salgueiros silvestres para nunca ser retirada dêsse leito estranho em que repousa ouvindo essa pavana recomeçada sempre sem descanso, sem consôlo, através dos desenganos, dos reveses e obstáculos da vida, das ventanias que se insurgem contra a chama inapagada, a eterna chama que anima esta defunta infanta ungida e bem-amada e para sempre santa.

EsTE É O MARINHO e primitivo galo de penas reais em concha e tartaruga. Com seu concêrto afônico me embalo, turva-se o vento, o Pélago se enruga.

Silencioso clarim, mudo badalo, dos ruídos e ecos rápido se enxuga. Jorra o canto sem voz de seu gargalo e se encrespa no oceano em onda e ruga.

Galo sem Pedro, em pedra vivo galo, de córneos esporões de caramujo, - tubas dos espadartes e cações. O dia sem mistério, seu vassalo esvai-se no seu bico imenso, em cujo som as brasas da crista são carvões.

/.II'RO DE SONETOS 603

IMAGINAI no firmamento de antes dois nevoeiros em oito entrelaçados, galo e penumbra, draga sempre em púbis penetrada de proas dominantes.

E a calmaria tôda havida há instantes em círculo de sal e cios porfiados. Desce a baba dos cabos bojadores. Sobe a ilha em vermelhos tão agudos.

A brisa em nascimento cai em chuva, abrem-se os ventres da água primitiva, logo embebidos, logo despejados.

Cordilheiras parindo coisas como. E outros montes mais virgens dividindo-se. E Deus babando sôbre o mundo o início.

AGORA, a tent::tção dessas profundas. Grito sem galo, mar sem peixes e águas. Sintetizado bicho em frente a Deus, com a linguagem queimando como o inferno.

Estou abandonado aos elementos: Números, fôrcas, vida desconhecida, a nau da salv(ação com as velas rôtas e a angústia em vendaval me esbofeteando.

A voz de minha infância estrangulada. E esta raiz plantada no meu peito como teu câncer bom, ó Deus faminto.

Que me invadas então meu corpo impuro, e me faças vigília do Teu tempo, contemplação de Tua voz ardente.

604 JORGE DE LHfA I OBRA CO.\frLET A I VOL

EssA INf'.\NTA boreal era a defunta em noturna pavana sempre ungida, colorida de galos silenciosos, extrema-ungida de óleos renovados.

Hoje é rosa distante prenunciada, cujos cabelos de Altair são dela; dela é a visão dos homens subterrâneos. consôlo como chuva desejada.

Tendo-a a insônia dos tempos despertado, ontem houve enforcados, hoje guerras, amanhã surgirão campos m:.1is mortos.

ó antípodas, 6 pólos, somos trégua. reconciliemo-nos na noite dessa eterna in fanta para sempre amada.

HÁ CAVALOS noturnos: mel e fel. O cavalo que vai com Satanás c o cavalo que vai com São Miguel. O cavalo do santo vai atrás,

e vai na frente a az.êmola cruel. Mas vão os dois c cada qual com um ás. No cavalo da frente o atro anjo infiel com façanhas de guerra se compraz.

São Miguel de la Mancha, D. Quixote, Garcia Lorca viu-te. vejo-te eu na luta igual com o ás da negação,

arremeter com lança em riste e archote. E ao fim de tudo há um anjo que venceu: Tu, D. Quixote da Anunciação.

/11'/W IJE SONETOS 605

• DEVOLVE-ME teu hálito, defunta companheira tombada nos joelhos do Senhor, companheira de mãos juntas c enfaixados os ombros c os artelhos.

Um arcanjo augurai teus lábios unta de bem-ungidos bálsamos vermelhos. mas não falas. não choras. não perguntas. não te miras nas fontes, nos espelhos.

Presença angelical, formosa esquiva, fonte da eterna vida, origem e causa. rosa que desfolhada se reaviva.

Nestes ermos, sem ti, ó rosa airo5a é-me con~ôlo te chamar sem pausa: ó lâmpada marinha. ó culta rosa.

E SEMPRE vos direi: é a mesma face, a mesma noite: o galo sotoposto Yirando-se para todos os quadrantes. InconsíJtil portm é aquêle rosto.

humanado cilindro silencioso frente ao tempo, e em poesia recomposto. Quanto ao mais um deserto para freires. que em maio era jardim, mar em agôsto.

Uma esfera fechada cobre o pocmu relativo e refeito na memória una e indivisa. cspêssa como a noite.

a primitiva e eterna noite. glória de Deus que a fêz de seu pcrd.:ío extrema unção desde a cabeça

fiM DE "LIVRO DE SONETOS"

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