Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 02 (p. 883-890) Obra Completa, Volume I · Capítulo 78 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 02 (p. 883-890)

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X 883

E agora conseguiram numerar aquêle canto e aquêle puro amor, e as futuras vivências c êste mar e essas ondas montantes ontem e hoje . Falara: e a sua fala palimpséstica proveio; era abundante, nasceu sábia. Que fazer dêsses passos, dessas vestes, das canções que possuíram outros lábios?

Os símbolos dilatam-se nas mãos; prosseguem logo as línguas ontem mudas, e são despertas searas, diapasões, e os dedos repousados sôbre os tules. As madeiras sonoras respondiam os apelos desertos e arenosos. A divina constância renascia de dentro das escalas silenciosas. E tudo acontecia em fôrça e mágica surgindo encantamentos e amavios, gerou-se um tempo, tempo liberado parindo terras e parindo rios. Nasceram sulcos vindos dos arados profanados nas guerras fratricidas, serpearam novas veias sôbre os braços, novos trópicos rindo nas pupilas . Era necessário ir, fomos e viemos alados sôbre os pés de ébrios coturnos: a distância das coisas eram poemas e tudo orografias, tudo alturas . E lhe contamos tudo: consentiu-se: o seu rosto era grave como dantes; desceram de seus olhos erradios os olhares aos sinos soberanos. Mal concluímos a fábula real, brisas dos sonos bons sopraram seivas, e perpassando fiéis por suas asas retomaram as órbitas bissextas.

As suas mãos estavam inclinadas e tão cstrêlas múltiplas sem névoa, que o ardor dos estios repudiados produziu pelo mundo santos ébrios Era de vê-los agora extasiados ou beijados sem dor pelas urtigas, ou então descrevendo o itinerário dos ocultos apelos fementidos . E ali choravam êsse pranto esquivo que renasce nas flôres ensombradas, outros enternecidos, outros roídos, muitos sem nojo quietos e felizes. O suma biografia dêsses livros traspassados de traças e de lepras, cujas línguas gretadas de delírios descrevem as visões de suas febres . Que se dirá de mais dessa mensagem? Da essência em seu pedúnculo amoroso? Dessa presença, dêsse ofício nado do comêço das eras precursoras? Adeus! Quem diz adeus? Quem se despede? Quem se anuncia para após o fogo? O mortos replantai as vossas setas: no outro lado das pontas nascem flôres .

VIII "Glória a Deus nas alturas, paz na terra!" Mas outras vozes graves vinham logo abafar o divino capitel que na garganta ínfima era um gole. A luz estertorava sob o fole de desvairado sapo; e em charco gela o que é luz do Senhor. Povoa-se a ópera de anjos executados como réus. Amargada paixão sem glória e quírie, só para moer o joio fementido ou remar nas galés vociferantes;

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s6 para estrangular as vozes pias das aleluias. Glória ao Pai, ao Filho e ao Santo Espírito - a ázima canção.

IX

Das sombras em que vivo, doce amora, quero louvar-te a fôrça e o dom supremo que liga os corações ou os desarvora ou os mantém nessa lida em céus suspensos. Pôs em seu seio Inês a tenra ola estelar. E tão loura! Seta ou seno atravessa-lhe a fôlha e cai-lhe dentro do peito numa dor que em prantos rola. Amora! Amora! Verso que te guarde revive em Beatriz, amora forte, amora que nas almas puras arde, como cachos de luz sôbre o poema, como espada de fogo sôbre a morte, além da vida, além de tudo, além ...

X Não a vaga palavra, corrutela vã, corrompida fôlha degradada, de raiz deformada, abaixo dela, e de vermes, além, sôbre a ramada; mas, a que é a própria flor arrebatada pela fúria dos ventos: mas aquela cujo pólen procura a chama iriada, - flor de fogo a queimar-se como vela: mas aquela dos sopros afligida, mas ardente, mas lava, mas inferno, mas céu, mas sempre extremos. Esta sim, esta é que é a flor das flôres mais ardida, esta veio do início para o eterno, para a árvore da vida que há em mim.

XI

Varou a tarde a frase antiga: Ave Maria como uma ave cheia de graça; e pela tarde revoou, revoou. Era uma frase limpida no ar: Ave Maria como uma ave, como uma graça cheia da tarde em que esvoaçou a frase antiga, como uma ave revoou, revoou tão leve e pura tão cândida ave, límpida no ar, que pela tarde revoou, revoou.

XII Ap6s os escombros e após rosas murchas querendo descansos fiquem confissões sem côres de mágoas nessas frases curtas, nesse fim de noite, com a face invisível, de poeta entre ilhéus, fugido de luas que marcam seu céu.

Pois que êle não soube fugir de seus tempos

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que as muitas paisagens de climas e faces de rosas de ventos a vida lhe deu .

A face está pura após chuvas duras estios e assombros que os olhos crestaram amando a canção. A voz era vária; de todos os pólos ouviu-a em silêncio: o canto era um só.

XIII

Vago espaço de Natal, geometria anoiteci da. As dimensões projetadas são como sombras vividas. Dentro dessa geometria há um menino embricado. :esse menino me espia . Vivo nêle desenhado. Apagaram aquêle álbum, faces amadas baniram. Sempre um Natal, sempre uma árvore de fôlhas arnarelidas . Amigos de infância, aonde? Quem pintou de cinza a ogiva? Quem tisnou no cosmorama o presépio colorido?

Dentro dêsse cosmorama há um menino acordado. O resto projeta sombras: Geometria. Geometria.

XIV Pra conhecer a calma que há na vida isolemo-nos dentro dêsses frutos. Que doçura perene nesses sumos de cavilosos ácidos despidos! Os pomares repousam nesses úteros Camões de rubis, ó maçã redescoberta; repouso no teu seio como um púero pois nesses fins de tempo sou um certo cavaleiro chamado Adão segundo flagelado de quedas, e barão de azorragues de fogo assinalado; que deseja na beira dêsses mundos dormir nas frondes que amanhã virão, dormir já morto nos futuros pomos.

XV

Tinham passado os dias tenebrosos e o ser novo nascera, repousado: a visão tresdobrada via a vida. De bruços sôbre as coisas, perscrutando-as, atravessando a face horizontal, continuava atento às mutações. Aspergia-se em julhos pluviosos, e seu rosto de armilas aspirava uma paz inconsútil para os sêres, contígua à eterna rosa despertada, indiferente aos beijos fugidios e aos convites às músicas perjuras . Crestava-se (apesar de ser radiante) sob os sóis verdadeiros . Inclinava-se. E um desusado Cronos desfazia-se.

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Inumeráveis causas de sossêgo para austeros refúgios se mudavam: o seu contato fluía de si mesmo.

Nos maduros outonos ia às vides, beijava-lhes os braços e as gavinhas, transmitia-lhes vinhos jubilosos.

Elas se ofereciam sob as seivas, e enrodilhadas logo repletavam (era de vê-las sóbrias e jucundas).

Maternidade, digo-te grandíssima. Ante seus pulsos crescem novas veias e as cúpulas nos ares se recortam. Que quietos ventres fiéis em seu mister recompensados pelo transitório, fatalizados na fecundação! (Oferecimentos tácitos, ternura, desaguados nas dores e nos sangues, paixão do ser, grandeza perpetuada.)

XVI Agora tudo findo em guerra, em corvo, em despojos molhados e vislumbres, ataduras sangradas, algodões, há na pátina cinza êsses chavelhos, êsse sapato aqui, e êsse álcool sujo, e os rinchos dos cavalos flagelados, as pedras querem soar, pedras e o mais; êsse ruído de copos sai das bôcas carcomidas chamando vinhos rotos das derradeiras mesas inda postas; vêm trabalhos ermados, barbas longas, sombras de grandes botas despovoadas.

Aqui foi um lugar de calmas horas, ali era a distância. Em cima o pássaro. Na planta essa raiz, e agora a ausência,

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agora êsse tecido alinhavado por entre unhas de dedos invisíveis. Apagaram-se as coisas tintas com o sôpro das palavras: geografias, paciências, velhos trigos, decisões. Aqui era um sinal, ali um número, em cima êsse fagote, e o anzol das plantas fisgando o grão já grávido de sumos. Agora êsses molares ruminando amargores sumidos, sais de mêdos; agora a linha preta, a fronte baixa, a luz escurecida, as maripôsas. Entretanto nas bilhas houve goles e houve dados de sorte e aços golpeando, levou-se à forja o potro renovado, pôs-se açamo nos ódios, raiva cega, fogo com achas, bilros sôbre as rendas, meses pluviais, convites cochichados. Há muito suco amargo nesses bolbos. muita crepe terreal nessas lapelas, muitos bis sôbre as dores ostentadas. Recarga é memorar a criação, a descida do verso, a insígnia rubra, lris por sôbre a ilha, pátina alva, parques, garanças, toldas, pás, enxadas, as palavras libertas e potáveis, os cavalos supinos, comas negras, os acordes profundos nos meus dias as aguadas nas naus, e a longa paz. Há dias essa ilha me envolvia, e agora me circunda êsse compasso giratório, apontando as calmarias, as chuvas sem ruído, mas noturnas, e a lamúria das mímicas paradas. Aceito essa cicuta sem veneno e êsse galo de penas imortais. Nada havia nos peitos arriscados de solércia ou de invite à rebelião, mas de orgulho contido, mas de verso. mas de aclives e quedas, mas de tetos, mas de cego desejo de inventar.

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