Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 03 (p. 826-833) Obra Completa, Volume I · Capítulo 70 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 03 (p. 826-833)

ruminantes de sombras quietas vendo os homens apressados, reais, sem sombra. Sem couros, suficientemente cascas de árvore para ensurdecer as almas, atrelados às coisas, e os bois livres ruminando calados pelo chão de botas acolhidas e estações e belos tempos, plantas germinadas.

Os bois e os versos indo fluentemente, ruminações de tempo, de bagaços, de flôres e de ervas puras e de fenos, e paisagens ocultas e aboiados, c os aguilhões furando o couro espêsso. c sôbre o couro espêsso, uma ave pia. Depois um bombo, ó ressoante pele! O mugidos de ocaso, ó sombras lentas, enquanto iremos hoje e nos domingos e nas semanas e nos meses e anos para o bosque que vamos estrumar com êsses defuntos que comeram bois. Das caladas dos bosques, os fantasmas nem assombram nem falam internados nos troncos dando flôres ou descendo pelos cipós, balanços como pêndulos, com cucos escondidos e jantares às horas certas, doze sempre incertas. Mais uma de entremeio com teu côco de fêltro badalando, pois há sinos, há sinos, sim, há sinos e um silêncio estendido no chão como uma sombra parada penedia silenciosa gravada em epitáfio carcomido. Teu nome sôbre a pedra, nome frio, na ardósia dos começos consentidos. Um rei sem lança que perdeu seu trono, dançou nesses confins, vêde os moluscos incrustados nas pedras milenares, vêde as letras do mar. salitre fundo.

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Vogais sem o arrimo das consoantes, vogais sem esqueleto, lábios moles encharcados de prantos sôbrc risos, tautológicos pobres lábios nossos, tementes do futuro que os ameaça, imperfeito futuro e subjuntivo.

Tivésseis travos sim seríeis vós. Lábios de tifos. delirados lábios querendo sorver Deus nas camarinhas das febres e estupores, mãos urdindo fiapos de cabelo, tranças idas, namoradas perdidas, inventadas.

Inventar uma Inês e procurá-la nas faces das lneses naturais. O dura imposição dessa Inês posta em sossêgo infantil entre salgueiros c recomposta e para sempre viva contra as fôrças adversas, sempre santa. E há a coluna vindo de outras eras de sombra densa e face refrangida contra tôdas as musas anexadas, debruçadas na ogiva ainda estreita, alimentando leões dos réus perenes e dos leões igualmente necessária.

Leões de inquisição. Leões? Leões apenas, mas raivosos. todavia alegóricos, tímidos, sumários, mais cachorros que leões de pesos mort~ls. muita juba difícil de enterrar, c à noite os grandes uivos indomáveis. Porém as doces patas espetadas, condoem-nos sofrimentos ancestrais. O olhar de nossos pais nesses leões tão austeros, mas reais, avós de reis; e um tempo louco sôbre girassóis de jubas amarelas para os ciclos. Os ciclos vão com aranhas levitadas, e contra a gravidade êsses poetas,

cruzando teias que êles inventaram, olhando os astros através de véus, guardando a eternidade de seus fios, fios tão frágeis, jubas tão grisalhas. Sejam teias, os leões personificam as suas construções contra as borrascas, confundem-se com as linhas entre as rosas, cativos nessas jaulas, reis escravos, fôrças reprêsas para visitantes de circos e jardins de animais tristes. O caprichos de poema que nos levam à frente da cidade impermeável e da vida impassível à magia de nossas imposturas desgraçadas. Na rota antiga que ia dar na Cítia sempre existiram leões crucificados. Enfim angústia e fábula dos leões, e o horror dos precipícios vendo coisas. aquelas nuvens grávidas de raios, aquelas longes noites com fantasmas; e nossas barbatanas soçobradas, e as nossas guelras pálidas de morte. Pois vêm desejos sempre indesejáveis pela consciência censurando as pedras: desesperada pérola contida ou ponto de ouro velho entre falenas. Recôndita consciência, como sangras sôbre as pedras ardentes das crateras! E dobrando uma esquina vêzes há êsse mesmo vulcão desenterrado, ficamos ao contrário, quase perto, e fazemos sinais com as nossas lavas mas os vulcões detêm-se cuidadosos, receosos dos álcoois e loucuras. Então ficamos ternos com os pedaços marítimos que em nós são de coral inocente e feliz; e do outro lado: florestas de destino sôbre o espaço

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compreendido entre as mãos quase entornadas de aventuras reais que não nasceram. Pois que voltam ocasos cavalgados mutilando com os cascos as estátuas, desfazendo as cidades corrompidas, valorizando variações de tempo, borrascas e solstícios e as estrêlas, e debaixo das estrêlas, os cavalos. Oceano desfolhado, velha planta, agitada de verdes e de azuis, derreada de submersos enforcados. de teus ramos de espumas, essa espuma parada de medusas novilúnias, como cabeças sós desencantadas. Vago pilôto move tuas bastes, descem gaivotas loucas de teus tetos; e quando há peixes, sobem reais peixes, transidos como fôlbas despregadas, rodopiam com o vento; não sabemos se êsses peixes consentem; eis o mar. Agrupemos rochedos pelos nomes, e nas ouças de Jimo com as trombetas, acordemos os músicos lacustres: r·. uns assoprando búzios, outros carpas, outros uns espadartes dedilhando, porém ressuscitados para o vale. E as vãs alegorias pelos cais, pois que fagotes há porém tocados com a procissão de aladas barbatanas, marés enchentes, águas-vivas, antas de baixa-mar correndo nas maretas; e no entretanto o espaço imperfurado. Revimo-nos ali, era no início, nesse além-mar, perene para nós, enfeitados meninos coraleiros, com as estrêlas de mar em corropio e um mapa-mundi sempre recortado em nosso peito cheio de navios.

830 JORGE DE LIMA i OBRA COi\tPLEJ"A I VOLU!t-lli I

Meninos com capuzes, vindos d'água, acometem as chuvas, dossel d'água, patinham ardentias, há nos becos adeuses conversados, eis o mar fechado, que o mar alto cabe todo no côvado que medem as crianças. E sobretudo a fala dêsses ventos libertada poesia dita e clara, segurando com as pálpebras as rosas, sonhando sem as frontes tenebrosas, esvoaçando com os braços repousados, galopando nos límpidos obstáculos. Convém enumerar, chamar gaivotas e outras aves de abismo, censuradas, convém espenujá-las, dar-lhes sonos, ares canoros, dar-lhes calmarias, baixá-las à flor d'água onde há veleiros, aprender oceanias com as gaivotas. E ouvir seus violoncelos, vozes graves, propriamente não delas se não fôssem mais que das aves, nunca dos anfíbios nem da humanidade nem dos astros nem de avêssas escalas subterrâneas nem de latentes filhos milenares. Mas, tão diluído e salmourado e grande e tão aberto e tão sem cúpula e aspas, tão continuado, banhativo e abismos, tão dez mil metros fundos lamurientos, tão dançarino mar, digo-te coisas para perder o mêdo e amedrontar-te. Para cansar-me de falar de ti, para falar das sêdes que não matas, e dos homens que matas em teu seio, e da ausência de ninhos nos teus montes, c teus peixes obesos como os homens e tão vorazes como os homens mesmos. Não se trata de mêdos propriamente mas, ver o que haverá para anteontem,

ISVEN('ÃO DE ORFEU / CANTO VIl/ 831

para o outrora dos campos de moluscos, o declínio dos dias porvindouros com os arbustos acesos nas estradas, entre !andes de reis posteriores.

Era quando os soluços coagulavam ora os risos ora enternecidos presságios, horizontes, monstros, lugres, ciprestes escolares, gorros lépidos, e muitas coisas pobres com dez fomes de simples amizades ou de mãos.

Os arbustos sabiam os pastôres, cabras noturnas, vinham longos prantos nas barbas debulhadas comer lãs, secar nessas lareiras seus cuidados, depois berram, as cabras berrariam, as cabras berrarão pelos percursos. Ai! os pastôres, êsses povoarão os chapéus multicores com algum Pátroclo. herói grego, benévolo de Aquiles. a quem acompanhou no cêrco de Tróia, mas Agamênon. . . doce história de símbolos audíveis como outrora. As negras solidões, ausências altas, orfandades de bôca existem sim, existem nesses vales escorbutos e gengivas aduncas como garras, como aVes de rapina que não cantam, - nuvens de penas sempre ameaçadoras. Restauremos o canto invitatório, o som pastor rodeado de cem hálitos capazes de sorver os sons ecoantes, canto puro, concórdia, ligação, novo dia somente como um ramo alongado no espaço, perfurando. Não a agonia feérica, porém a sobriedade desta pedra e a vaga, a chaneza do bêrço se embalando sem dizer que se embala um século ou dois,

um minuto sequer ou dois minutos e menos do que aquilo ou do que isso.

Enfermos de uma origem, enganados pela euforia que Lusbel nos dá, parecemos a voz substantivada, somos tangidas cordas, voz amarga do cantor de soluços musicais, 6 tristeza de música, perene! Numa altura de vela, qualquer vela de mastro, cêra ardente vergastada pelos ventos enormes que Deus manda; resolvamos pensar nas humildades descoloridas dos perdões a nós, e regressemos nus para as origens. Testamentos em cada qual dos pac;sos tropeçados em montes transmitidos por herança que nunca reclamamos. Ai, é melhor cheirar essas boninas, olhando os grandes muros circundantes e o céu baixado como tampa imensa. Agora, menos dor para essas urzes é preciso sorver primàriamente, sorver plenas e tontas horas boas, seis auroras boreais, rosas trezentas, catorze novamente copos cheios de absinto destilado em outros crivos. Vento novo iludido vindo à terra com a rapina soturna baixa as asas no chão muro e nos muros ensombrados, sopros muros não partem, sempre muros, torvos muros caindo sôbre o mundo muros caindo, muros de Caim. Ai adeus! ai regressos! ai legiões! abraços soluçados, gares prontas, amplo norte, paisagens, doces galos, quero falar palavras possuídas, rosas claras, auroras, timidezes na manhã, não me lembro de mais nada.

INI'BNÇÃO DE ORFEU I CANTO VIII 833

Ruim memória, houve um tempo prenatal. n1enrórias (Como sangra pensar com essa memória!) e palavra.r incof!rt!nles Acenai-me palavras incoerentes, andorinhas dos montes, calmas tôrres, cerejas sem sarcasmos, rasas fontes, retinas orvalhadas, (rondes mansas. As crianças no ocaso, já faz tempo, era uma terra azul ou rósea terra de coroas de fôlhas amanhecendo, raios simples após, sem através, paz de lembranças, nela paz infusa, o menino fincado, sempre oito anos. Sinal definitivo nessa tarde, ó vida inteira, tantas carruagens, trotando nas auroras conduzidas, vizinhanças de noites, escrituras, algumas borboletas se aproximam, as vidraças ainda esperam claras. Rostos nos rostos, mãe querida Aova, azul desamparada mãe errante, guardando eternidades para nós, amealhando nas urnas nossos barcos, os céus altos, os júbilos findados, os brinquedos das páscoas, 6 carismas! Pressentíamos pássaros na bruma pelo canto do pássaro interior, entendíamos gestos de neblinas, encontrávamos rosas indeléveis inda feitas de olhares persuasivos e do espaço entre as mãos acontecidas. Numa tarde avistamos o alquimista. Era mui sábio. Tínhamos receio. Revolvemos retortas, cornamusas, sopramos suas harpas escondidas: eram cantos de serpes emplumadas, fomos vendidos como escravos, e éramos. Agora somos sol apodrecido, borboletas da noite, véus escuros,

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