Poemas Negros - bloco 01 (p. 351-358)
BICHO ENCANTADO
EsrE BICHO é encantado : não tem barriga, não tem tripas, não tem bofes. não é maribondo, não é mangangá, não é caranguejeira. Que é que é Janjão?
l: a Estrêla-do-mar que 4uer me levar.
Só tem olhos, só tem sombra. Habau! Não é jimbo, não é muçum. não é sariema. Que é que é Janjào? I?. a Estréia-do-mar que quer me afogar.
Este bicho é encantado : não quer de-comer. não quer munguzá, não quer caruru, não quer quigombô. Só quer te comer. Que é que é Janjão? É a Estrêla-do-mar que quer me esconder. Babau!
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CADÊ voei! meu país do Nordeste que eu não vi nessa Usina Central Leão de minha terra? Ah I Usina, você enguliu os bangüêzinhos do país das Alagoas I Você é grande, Usina Leão! Você é forte, Usina Leão! As suas turbinas têm o diabo no corpo ! Você uiva! Você geme! Você grita! Você está dizendo que U. S. A. é grande ! Você está dizendo que U. S. A. é forte! Você está dizendo que U. S. A. é única ! Mas eu e5tou dizendo que V. é triste como uma igreja sem sino, que você é mesmo como um templo evangélico I Onde é que está a alegria das bagaceiras ? O cheiro bom do mel borbulhando nas tachas ? A tropa dos pães de açúcar atraindo arapuás ? Onde é que mugem os meus bois trabalhadores? Onde é que cantam meus caboclos lambanceiros ? Onde é que dormem de papos para o ar os bebedores de resto [de alambique ? E os senhores de espora ? E as sinhás-donas de cocó? E os cambiteiros, purgadorcs, negros queimados na fornalha ? O seu cozinhador, Usina Leão, é êsse tal Mister Cox que tira [da cana o que a cana não pode dar e que não deixa nem bagaço com um tiquinho de caldo para as abelhas chupar ! O meu bangüêzinho era tão diferente, vestidinho de branco, o chapeuzinho do telhado sôbre os olhos, fumando o cigarro do boeiro pra namorar a mata virgem. Nos domingos tinha missa na capela e depois da missa uma feira danada : a zabumba tirando esmola para as almas; e os cabras de faca de ponta na cintura,
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n ramisa por fora das calças : '1\ 1ao de milho a pataca !" ·c ·.~rrctcl marca Alexandre a doistões !" c 11dê você meu país de bangüês ' 11111 as cantigas da bôca da moenda : " I 11mba cana João que eu já tombei !" I· o eixo de maçaranduba chorando l.dva os estragos que a cachaça ia fazer I I' a casa dos cobres com o seu mestre de açúcar potoqueiro. '11111 seu banqueiro avinhado ,, a~ tachas de mel escumando, •,,,·limando como cachorro danado. I' o hangüê que só sabia trabalhar cantando, 1u111ava em cima das tachas : · l•·mpera o caldo mulher que a escuma assobe ... " c 1uli:· a sua casa-grande, bangiiê, • um as suas D_?~dons, 111111 as suas Tetes, 111111 as suas Benbcns, '11111 as suas Donanas alcoviteiras ? 1 11111 seus Tôtôs e seus Pipius corredores de cavalhada ? I' 11, suas molecas catadoras de piolho, ,, 11\ \Uas negras CaJus, que sabiam fazer munguzás, manuês, cuscuz, " ~uns sinhás dengosas amantes dos banhos de rio " tle rêdes de franja larga ! 1·ndc os nomes de você, bangüê 'l Maravalha, Corredor, Cipó branco, Fazendinha, Burrego-dágua, Menino Deus I 1\h I Usina Leão, você enguliu ... hangüêzinhos do país das Alagoas I I udl' seus quilombos com seus índios armados de flecha, 111111 seus negros mucufas que sempre acabavam vendidos, 111uudo esmola para enterrar o rei do Congo? "Folga negro Branco não vem cá ! Si vinhé, Pau há de levá I"
----------·-~ 354 JORGE DE LIMA • OBRA ('(l,O,.fPU:J'A i VOLUMif. I
Você vai morrer, bangiiê ! Ainda ontem sêo M
HISTORIA
ERA PRINCESA. Um libata a adquiriu por um caco de espelho. Veio encangada para o litoral, arrastada pelos comboieiros. Peça muito boa: não faltava um dente e era mais bonita que qualquer inglêsa. No tombadilho o capitão deflorou-a. Em nagô elevou a voz para Oxalá. Pôs-se a coçar-se porque êle não ouviu. Navio guerreiro ? não; navio tumbeiro. Depois foi ferrada com uma âncora nas ancas, depois foi possuída pelos marinheiros, depois passou pela aHândega, depois saiu do Valongo, entrou no amor do feitor, apaixonou o Sinhô, enciumou a Sinhá, apanhou, apanhou, apanhou. Fugiu para o mato. Capitão do campo a levou.
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Pegou-se com os orixás : fêz bob6 de inhame para Sinhô comer, lêz aluá para êle beber, fêz mandinga para o Sinhô a amar, A Sinhá mandou arrebentar-lhe os dente!! : Fute, Cafute, Pé-de-pato, Não-sei-que-diga. :1vança na branca c me vinga. Fxu escangalha ela, amofina ela, amuxila ela que cu não tenho defesa de homem, ~ou só uma mulher perdida neste mundão. Neste mundão. l.ouvado seja Oxalá. Para sempre seja louvado.
DEMOCRACIA
!'liNHOS DE RÊDES embalaram o meu canto 1''11 a adoçar o meu país, ó Whitman. h·nipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhado!!, • o~ll'cismo me ensinou a abraçar os hóspedes, 1 a1urnã me alimentou quando eu era criança. ~lac-ncgra me contou histórias de bicho, 111oll'quc me ensinou safadezas, 111.tssoca, tapioca, pipoca, tudo comi. lwhi cachaça com caju para limpar-me. ,,,.,. maleita, catapora c ínguas, lttcho-de-pé, saudade, poesia; l•q11ci aluado. mal-assombrado, tocando maracá, ""•·ndo coisas. brincando com as crioulas, l'l'lldo espíritos. abusões. mães-d'água. 1 onvcrsando com os malucos, conversando sozinho.
l'llll'rcnhando tudo que encontrava, '"'' :•;;ando as cobras pelos matos. ,,,,. misturando, me sumindo, me acabando, I'"' a salvar a minha alma benzida 1 llll'll corpo pintado de urucu, L•l11ado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas, .,,. nomes de amor em tôdas as línguas de branco, de mouro Iou de pagão.
JORGE PE LIMA OBRA COMPLETA I VOLUM! I
RETRETA DO VINTE
O CABO mulato balança a batuta, meneia a cabeça, acorda com a vista os bombos, as caixas, os baixos e as trompas. (No centro da Praça o busto de D. Pedro escuta.) Batuta pra esquerda : relincham clarins, requintas, tintins e as vozes meninas da banda do 20. Batuta à direita: de novo os trombones e as trompas soluçam. E os bombos e as caixas: ban-ban I Vêm logo operários, meninas, cafuzas, mulatos, portugas, vem tudo pra ali. Vem tudo, parecem formigas de asas rodando, rodando em tôrno da luz. Nos bancos da Praça conversas acesas, apertos, beijocas, talvezes. D. Pedro li espia do alto. (As barbas tio alvas tio alvas nem sei I) E os pares passeiam, parece que dançam, que dançam ciranda, em tômo do Rei.
QUICHIMBI SEREIA NEGRA
QUICWMBI sereia negra bonita como os amares que tem partes de cbigonga não tem cabelos no corpo, é lisa que nem muçum, é ligeira que nem buru
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não tem matungo e é donzela . ao mesmo tempo pariu jurará sem urucaia. Quichimbi vive nas ondas coberta de espuma branca, dormindo com o bôto azul, conservando a virgindade tão difícil de sofrer. Quichimbi segue nas ondas dez mil anos caminhando, dez mil anos assistindo as terras mudar de dono. o mar servindo de escravo ao homem branco das terras. Quichimbi sereia negra bonita como os amôres dormindo com o bôto azul, não sabe de nada, não.
ZEFA LA VAO EIRA (Trecho de A Mulher Obscura)
tJMA TROUXA DE ROUPA é um mundo animado de anáguas, de l'nrpinhos, de fronhas, de lençóis e toalhas servis; em resumo: 1los homens e suas preocupações. E qual é a maior fôrça dêsse mundo ? Onde o segrêdo das 'uas atividades ? - Olha o amor, Zefa, - olha os lençóis - torna-nos se- melhantes aos deuses, faz vibrar em nós o poema dos plasmas que nêles se geraram. Por êles, retrocedendo pelo caminho de n~rtas memórias obscuras, voltamos às Formas primeiras, às I,.ncrgias inteligentes. E desfazendo aquela trouxa de roupa com o desembaraço de J eová, compondo e recompondo um caos, mostra-me peça por peça, tôdas aquelas fôrças mencionadas, lôdos genésicos, "11 salivas do Espírito que adejou sôbre as águas. Mas Zefa deu um muxôxo, arrepanhando as fraldas, arras- tando os pés. Zefa não tinha antenas para a torrente decla- matória interior de minha juventude em dias de convalescença.
Pela vereda que vinha do rio, surgiu cantarolando uma cafuza nova, com o pote à cabeça, o braço direito erguido, SO• gurando a rodilha. E senti-a em tudo, - na algazarra dos ramos, na toada da1 águas despenhadas, nos vegetais variegados como arraiais, no tumulto dos sêres que sofrem, amam e se perpetuam cor• rendo a vida. Josefa - lavadeira, porque se julga a sós, vai despindo nl belezas selvagens de ninfa cafuza. No remanso em que bate a roupa, há bambus e ingàzeir01 pelas margens. Josefa entra o caudal até as coxas morenas, a camisa arregaçada, o cabeção de crochê impelido pelos seioa duros, tostados de soalheiras. O braço valente arroja o pano contra a pedra de bater, o a axila cobre-se e descobre-se, piscando a tentação de arro· chos e rendições cheias de saciedades. Aqui. tôda lavadeira do roupa é boa cantadeira. A cantiga é uma corruptela de velha• toadas num tom languoroso, alimentado de sofreguidões, dl! desejos incontidos, e de lamentações incorrespondidas. Depois de lavar a roupa dos outros. Zefa lava a roupa quo a cobre no momento. Depois. deixn-a corando sôbre o capim. Então Zefa lavadeira ensaboa o seu próprio corpo, vestido do manto de pele negra com que nasceu. Outras Zefas, outras negras vêm lavar-se 110 rio. Eu estou ouvindo tudo, eu estou enxergando tudo. Eu estou relcmbrando a minha infância. A água, levada nas cuias, começa o ensaboamento; desce em regatos de espuma pelo dorso, e some-se entre as nádegas rijas. As negras aparam a espuma grossa, com as mãos em concha, esmagam-na contra os seios pontudos. transportam-na, com agi- lidade de símios, para os sovacos, para os flancos; quando 11 pasta branca de sabão se despenha pelas coxas, as mãos cônca- vas esperam a fugidia espuma nas persas, para conduzi-la ao~ sexos em que a África parece dormir o sono temeroso de Cam .
BENEDITO CALUNGA
BENEDITO Calunga calunga-ê não pertence ao papa-fumo, nem ao quibungo,